sábado, 27 de setembro de 2014

Etnocentrismo Europeu e Contemporaneidade - Fábio Mandingo

Resumo – O presente ensaio visa tratar das limitações do pensamento europeu e das mistificações a seu respeito, e a impossibilidade de reformá-lo sem um exercício honesto de crítica. Tecendo um diálogo com linhas historiográficas e filosóficas divergentes ou não centradas na Europa, analisar aspectos presentes no etnocentrismo europeu alçado à posição de normatividade, buscando entender de que forma essa perspectiva etnocêntrica universalista afetou a percepção do europeu a respeito de si mesmo e do mundo, em seus movimentos históricos e construções filosóficas. Palavras Chave: Etnocentrismo, cultura européia, pensamento europeu
Introdução
O mundo acadêmico, espaço onde o conhecimento especializado é produzido e legitimado, é entre outras coisas, um espaço de poder. Como poder, entendemos a capacidade de definir um fenômeno e conduzi-lo a partir desta definição. Desse modo, a legitimidade do conhecimento produzido na academia, está respaldada socialmente na percepção da Universidade enquanto espaço excelente da produção de conhecimento e de conceitos, tornando aquele que fala desde a academia, apto para conduzir os fenômenos sociais sobre os quais trata, a partir da sua definição própria. Nas duas últimas décadas, o Brasil tem sido palco de diversas discussões públicas e acadêmicas a respeito da Universidade – e é o que queremos significar quando utilizarmos o termo academia – enquanto espaço de construção de poder e, a partir disso, espaço de exclusão social. O entendimento da academia enquanto espaço socialmente privilegiado, deu origem às até aqui polêmicas políticas públicas de reparação e ações afirmativas, através de medidas como as cotas raciais para o acesso ao ensino superior. Pesquisas e censos(1) têm sido realizados nos últimos anos, e atestam – não sem levantar outras discussões – a efetividade da permeabilização étnica da Universidade Pública a partir da adoção das cotas raciais por grande parte das universidades brasileiras, bem como a equidade do desempenho dos estudantes cotistas no quadro geral do desempenho estudantil. O etnocentrismo eurocêntrico da universidade, no entanto, faz parte de uma série de estruturações em sua constituição, que serão aspectos mais longamente discutidos e dialogados, até que alguma transformação efetiva possa ser sentida e repercutida no sentido de incluir verdadeiramente os tradicionalmente excluídos de seu espaço, agora excluídos dentro dela por perspectivas e abordagens que não inserem seus pontos de vista e paradigmas divergentes, na constituição do saber legitimado.
Importante para nossa pesquisa, que trata dos conflitos entre professores e alunos de escolas públicas situadas em bairros periféricos de Salvador a partir da perspectiva do aluno enquanto agente social inserido no contexto histórico da população afro-brasileira, é analisar aspectos do etnocentrismo europeu presentes nas linhas gerais do pensamento ocidental e que perpassam diversos autores, mesmo alguns dos mais críticos entre eles. Embora alguns desses lugares-comuns etnocêntricos não passem de falácias facilmente desarticuladas por qualquer advogado de esquina, o lugar a partir de onde são gestados e reproduzidos, fornece a legitimidade necessária para que atuem como verdades poderosas e, como tais, conduzam fenômenos e instituições. É nesse sentido, que nos dedicamos nesse ensaio, a uma análise inicial a respeito da historicidade do pensamento europeu, tendo em vista que foi desde uma perspectiva idealizada sobre a própria Europa, de uma visão limitada e estereotipada sobre o não-europeu, e de uma busca por solidificar fenômenos sociais dinâmicos, que partiram os projetos universalistas europeus que ainda hoje tratam da alteridade como apenas mais um objeto do olhar eurocentrado. A continuidade e os efeitos dos projetos universalistas europeus no cotidiano das populações não-européias, inclusive no que diz respeito às perspectivas pulverizadoras como a assim chamada pós-modernidade, nos faz perceber a importância de enunciar desde fora do lugar europeu do pensamento, com Bob Marley: “ Nos recusamos a ser o que vocês querem que nós sejamos. Nós somos o que nós somos, e é desse jeito que vai ser.” ( Bob Marley - Babylon System – 1979) (2)
1- Europa – Uma Civilização tardia
A idéia do pioneirismo grego no que diz respeito ao desenvolvimento das ciências e do racionalismo, é a base sobre a qual se assentam a maior parte dos pressupostos eurocêntricos. Mais pernicioso que declarações explícitas de racismo com a de Hegel, que afirmou não terem os povos africanos apresentado “nenhuma contribuição ao desenvolvimento humano” (3), orações mais sutis com a que declara ser a Grécia o “berço da civilização”, executam de forma muito mais segura o serviço renascentista de entronizar o mundo greco-romano como matriz civilizacional da Europa pré-moderna, usurpando numa frase casual todas as contribuições dos povos não europeus para a constituição dessa herança, ao mesmo tempo em que consolida em forma de pensamento ‘histórico’, uma proposição pseudocientífica mais tarde rechaçada por Louis Pasteur: a da geração espontânea. A própria imagem metafórica que nos traz a idéia de “berço”, nos propõe reflexões inúmeras a respeito da origem da criança contida no berço, quem construiu o berço, quem foram mãe e pai da criança, entre outras. É Heródoto, o grego chamado de “pai da história” pelos eurocentristas, que nos oferece pistas sobre a origem e os pais da criança:
“Estender-me-ei mais no que concerne ao Egito, por encerrar ele mais maravilha do que qualquer outro país; e não existe lugar onde se vejam tantas obras admiráveis, não havendo palavras que possam descrevê-las.”
(4)
“ Quase todos os nomes dos Deuses passaram do Egito para a Grécia”
(5)
“Disseram-me ainda os sacerdotes que Sesóstris realizou a partilha das terras, concedendo a cada Egípcio uma porção igual, com a condição de lhe ser pago todos os anos certo tributo. Se o rio carregava alguma parte do lote de alguém, o prejudicado ia procurar o rei e expor-lhe o acontecido. O soberano enviava agrimensores ao local para determinar a redução sofrida pelo lote, passando o dono a pagar um tributo proporcional à porção restante. Eis, segundo me parece, a origem da geometria, que teria passado desse país para a Grécia.”
(6)
“ A medicina está de tal maneira organizada no Egito, que um médico não cuida senão de uma especialidade, há médicos por toda a parte, uns para a vista, outro para a cabeça, estes para os dentes, aqueles para os males do ventre, outros enfim, para as doenças internas”
(7)
A Europa é uma civilização tardia. Mesmo as cronologias mais otimistas localizam a chegada dos primeiros grupos humanos classificados como gregos, os micênicos,em cerca de 1.400 a.C. quando o Egito, por exemplo, já contava mais de 2 mil anos de Império Unificado! (BURNS, 1978, p,58) Também já eram seculares os Impérios da Mesopotâmia e do Vale do Indo, e ainda assim, a Grécia nunca conseguiu se organizar enquanto Estado, sendo esta somente a classificação da região que continha Cidades separadas que se entendiam enquanto gregas. Mesmo a produção filosófico-científica-cultural que é arbitrariamente classificada como pertencendo à “Antiguidade Clássica”, dificilmente poderá ser datada antes do século VI a.C. (BURNS, 1978, p 169) Talvez o grande pioneirismo grego tenha sido o da separação entre a ciência e a religião, como aponta Theodor Adorno, referindo-se à simbologia do desafio de Ulisses contra os Deuses, que aliás, eram Egípcios, como nos atesta outra vez Heródoto. A separação entre a racionalidade e o sentimento de sagrado e da divindade presente em todos os seres e coisas, é talvez a principal marca do que se constituiu historicamente como “civilização européia” (ADORNO, 2002, pg. 24).
Como nos propõem o economista queniano Walter Rodney em seu “Como a Europa subdesenvolveu a África”, a importância da ética religiosa de algumas civilizações não-européias, com todos os seus “isso não pode” e “isso não fazemos”, pode ter representado o freio para que algumas dessas civilizações, não tenham historicamente escolhido o modelo europeu de desenvolvimento(RODNEY, 1975,p 16). Nesse sentido, lembramos que a primeira perspectiva de pensamento humanista a se difundir profundamente na Europa, o Cristianismo, é uma perspectiva estrangeira e recomendamos ainda, a leitura das 42 Leis de Maat, suprassumo do código de ética egípcio que, segundo os arqueólogos, era observado desde o Faraó até os camponeses. (BUDGE, 1993, pg., 322) No entanto, a influência do Império Egípcio e das demais civilizações do Oriente Próximo, sequer é aventada pelos propagandistas da idéia de que a Grécia seria o “berço da civilização”. Do mesmo modo, o fato de grande parte dos pensadores gregos de relevância nas mais diversas áreas terem estudado no Egito, o fato de toda a mitologia grega ter sido copiada da egípcia, da matemática, química, arquitetura, medicina egípcia terem fornecido as bases para a constituição do pensamento grego, é omitido da história e dos discurso do pensamento europeu contemporâneo, inclusive por seus pensadores mais críticos e supostamente lúcidos, que reproduzem a idéia de que o “berço da civilização” teria gestado a sua “criança”, literalmente do “nada”, sem atentar que, parafraseando Heródoto, “A Grécia é uma dádiva do Egito”. Quando Heródoto entre outros pensadores gregos e romanos nos alertam para a negritude do império africano do Egito, chamado de Khemet – País dos homens pretos – por seu próprio povo ( DIOP, 1983, pg56) , podemos começar a entender a escolha feita por renascentistas e iluministas de recorrer à Grécia como base civilizacional da Europa, o que explica o mal estar sentido pelo acadêmico e general francês Volney, que liderava as tropas de Napoleão na invasão do Egito,
"Vendo esta cabeça negra em todas as suas características, lembrei-me dessa passagem notável do Heródoto, onde ele diz: Para mim, eu acho que os Colchians são uma colónia dos egípcios porque, como eles, têm a pele negra e cabelos frisados. Em outras palavras, os antigos egípcios eram verdadeiros negros do mesmo tipo que todos os africanos nativos.(…) Mas retornando ao Egito, o facto que ele dá à história oferece muitas reflexões à filosofia (…) Pensar que esta raça de negros, hoje nossos escravos e objeto de todos os desprezos, é mesmo aquela à qual devemos as nossas artes e as nossas ciências e até o uso da palavra (…) Imaginem , finalmente, que está no meio de pessoas que se dizem os maiores amigos da liberdade e da humanidade que se aprovou a escravidão mais bárbara e questionado se os homens negros têm o mesmo tipo de inteligência que os brancos!» (Cf. Viagem em Síria e Egito)."(8)
Importante atentar para o fato histórico de o mundo greco-romano representar historicamente o primeiro processo civilizacional, no qual a economia estava majoritariamente sustentada pelo trabalho escravizado. Um dos mais conhecidos pensadores gregos, Aristóteles, acreditava na existência de tipos humanos destinados à escravidão – embora essa tipologia já tivesse sido elaborada anteriormente na Índia quando da invasão dos arianos - , e essa sua tipologia foi base para o pensamento escravagista de períodos posteriores, “Um ser que, por natureza, não pertence a si mesmo, mas a um outro, mesmo sendo homem (ánthropos on), este é, por natureza, um escravo. Pertence a um outro que, mesmo sendo homem, é objeto de propriedade e instrumento ordenado à ação (ógananon praktikón) e separado".(9) Outro ponto a ressaltar referente à Grécia, é a total exclusão da mulher enquanto sujeito de direito público.
2- A Idade das Trevas européia X Idade do florescimento universal
Assim como os micênicos na Grécia, os itálicos em Roma, conquistaram um região onde já estava instalada uma civilização mediterrânea, os etruscos, dominando sua população e mantendo o seu modelo civilizacional. Roma se constitui então enquanto primeiro Estado Burocrático da Europa, a partir da colonização e exploração de territórios de outros povos, tendo como modelo organizacional as satrapias persas, retirando dessas regiões colonizadas, não somente seus recursos naturais mas também escravizando parte de suas populações, já que o trabalho escravizado foi também, base da economia romana. Quando o Império Romano é destruído, tanto pela rebeldia permanente dos povos por ele colonizados, como devido à pressão recebida por Roma na segunda grande migração de povos do norte da Europa em direção ao Mediterrâneo, o caráter estrangeiro do Estado Romano bem como dos conhecimentos culturais e científicos greco-romanos fica claramente evidenciado, e a Europa imerge no período classificado pelos próprios pensadores iluministas como Idade das Trevas, com ausência de estados burocráticos relevantes, regressão ou estagnação no desenvolvimento econômico, científico, cultural e social, sendo a Igreja Católica a única instituição de alcance continental.
Nada disso é fato de estranheza histórica, por tratar-se a Europa, como vimos, de uma civilização jovem, e nem pretendemos aqui atribuir características essenciais à sua civilização, sendo foco do presente estudo, entender melhor o processo histórico de desenvolvimento do pensamento europeu, tendo em vista desmistificar atribuições estereotipadas reproduzidas pelo etnocentrismo eurocentrado, que ao usurpar o conhecimento de etapas importantes dessa construção, impedem a consecução de um diálogo positivo entre as alteridades constantes do mundo contemporâneo. Sobre o período imediatamente posterior à queda de Roma, nos interessa mais uma vez as generalizações habitualmente proferidas a respeito do “mundo medieval”, como se representassem realmente um fenômeno mundial e não um fenômeno estritamente europeu. Omitir a simples informação de que o período entre os século V e XIV, representou para povos africanos, asiáticos e americanos, um período brilhante de desenvolvimento cultural, científico, econômico e filosófico, é mais uma deslealdade histórica cometida pelo discurso eurocentrado, às vezes até por real desconhecimento.
3- O “Renascimento Europeu” outro exemplo de Geração Espontânea?
Na Península Arábica no século VII, o surgimento do Islamismo e a constituição do Império Islâmico e do aparato civilizacional referente, possibilitou a manutenção e a disseminação do conjunto de conhecimentos científicos e culturais da Antiguidade, principalmente devido ao caráter sagrado, segundo o Islã, do conhecimento e do letramento enquanto formas de manifestação de divindade. Por todo o continente africano constituíram-se impérios grandiosos, como os de Gana, Mali, Songay, Ashanti, Yoruba, Angola, Monomotapa, Malgaxe, e o milenar Império Etíope mantinha a sua predominância na África Oriental. Com a expansão islâmica, muitos dos reinos do noroeste da África se converteram à nova religião, dando início a um importante período de intercâmbio econômico e cultural, que tem no Reino do Mali um dos seus exemplos mais importantes, onde foi fundada a universidade de Timbuktu, pelo menos um século antes do surgimento de universidades na Europa.
"A cidade de Timbuktu, situada ao sul do deserto, no Mali, ocupa uma posição única, ponto de encontro entre os povos Songhai, Wangara,Fulani, Tuareg e Árabe. Ela tornou-se um celebrado centro de cultura islâmica e desde o século XI um importante posto comercial. Segundo seus moradores, o ouro vem do sul, o sal do norte e o conhecimento divino, de Timbuktu. Lá no século XII havia a Universidade de Timbuktu, que se organizava em três mesquitas, Mesquita de Sakore, construída no século IX, de JIngara Bar e Sydi Yahya, havia também mais de 180 escolas corânicas e mais de vinte e cinco mil alunos freqüentavam suas aulas, em uma população de cem mil habitantes. Os estudantes vinham dos mais diversos lugares da África. Os livros não eram apenas escritos no Timbuktu, como também eram importados e copiados ali. Existia uma indústria bem desenvolvida de cópias na cidade e as universidades e bibliotecas tinham um importante catálogo acadêmico. "(10)
A importância do processo de expansão islâmica e desenvolvimento dos Impérios da África Ocidental, a ocupação da Península Ibérica durante 600 anos pelos mouros(11) , que tornaram a região, conhecida como Al Andaluz, em um dos mais florescentes experimentos de convivência econômica, política e científica-cultural pacífica entre cristãos, muçulmanos e judeus, também é omitida da historiografia oficial do pensamento europeu. No entanto, pensadores que viveram na região, como Ibn Khaldum, pioneiro na concepção de uma filosofia materialista histórica, e Ibn Sena, que traduziu vasta produção greco-romana, bem como compôs importantes compêndios sobre química, física, medicina e matemática, foram determinantes para que a Europa, então mergulhada na intolerância católica, tivesse acesso aos conhecimentos que possibilitariam o desenvolvimento a que chamam metafisicamente de “renascimento europeu”,
"During the Persian, Greek and Roman invasions, large numbers of Egyptians fled not only to the desert and mountain regions, but also to adjacent lands in Africa, Arabia and Asia Minor, where they lived, and secretly developed the teachings which belonged to their mystery system. In the 8th century A.D. the Moors, i.e., natives of Mauritania in North Africa, invaded Spain and took with them, the Egyptian culture which they had preserved. Knowledge in the ancient days was centralized i.e., it belonged to a common parent and system, i.e., the Wisdom Teaching or Mysteries of Egypt, which the Greeks used to call Sophia. Consequently, through the medium of the ancient Arabic language, philosophy and the various branches of science were disseminated: (a) all the so-called works of Aristotle in Metaphysics, moral philosophy and natural science (b) translations by Leonardo Pisano in Arabic mathematical science (c) translation." by Gideo a Monk of Arezzo in musical notation.(12)
4- A modernidade, o eterno complexo de Prometeu europeu.
O período que se seguiu à expansão marítima e à colonização das vastas terras das Américas pelos países europeus, foi de grande e intenso aporte de recursos naturais advindos das nações colonizadas, e que possibilitaram um grande desenvolvimento das sociedades européias nos mais diversos campos, inclusive no que diz respeito à ciência, cultura e pensamento, que de uma ou outra forma, são expressões humanas extremamente ligadas. Esse desenvolvimento possibilitou mesmo a superação dos modelos feudais de organização sócio-econômica, com o advento da hegemonia burguesa. Eric Williams(13) nos mostra que foram os lucros advindos do tráfico de seres humanos escravizados – e não o lucro advindo das desapropriações de terras camponesas - que possibilitou às cidades portuárias inglesas, como Glasgow e Liverpool, investir de maneira significativa no desenvolvimento das tecnologias de produção no momento histórico que ficou conhecido como Revolução Industrial.
O Iluminismo, o darwinismo, as ciências sociais como a antropologia e a sociologia, as perspectivas socialistas e marxista, são frutos desse período entre os séculos XVII e XIX, em que o grande desenvolvimento científico e material vivenciado em países centrais do continente, como França, Inglaterra e Alemanha, permitia aos europeus, a percepção de que a Europa era o centro do mundo, e que os seus habitantes eram protagonistas por excelência de uma história universal previsível, na qual os europeus tinham a missão, como prometeus modernos, de iluminar o mundo com seu conhecimento e sabedoria, possibilitando a evolução, daqueles que como bons coadjuvantes, estivessem biologicamente instrumentalizados para tornarem-se “como europeus”. Mas como podemos ver nas palavras de iluministas, filósofos e do pai do socialismo “científico”, Karl Marx, estes não consideravam os demais grupos étnicos humanos como, humanos. Voltaire o “pai” dos direitos humanos, nos diz sobre os mouros negros:
“…and they are not men, except in their stature, with the faculty of speech and thought at a degree far distant to ours. Such are the ones that I have seen and examined” (14)
David Hume,
“ I am apt to suspect the negroes to be naturally inferior to the whites. There scarcely ever was a civilized nation of that complexion, nor even any individual eminent either in action or speculation.” (15)
Kant:
“The Negroes of Africa have not received any intelligence from Nature that rises above foolishness.” (16)
Marx:
"A Inglaterra tem que cumprir uma dupla missão na Índia: uma destruidora, outra reguladora – a aniquilação da velha sociedade asiática e o lançamento das bases da sociedade ocidental na Ásia(...)os britânicos eram os primeiros conquistadores superiores e portanto inacessíveis para a civilização hindu(...) quaisquer que tenham sido os crimes da Inglaterra, ela foi o instrumento inconsciente da história para originar essa revolução”
(17) No entanto, aparentemente, os processos de luta por independência ocorridos nas Américas, no norte da África, no sul da Ásia e mesmo nos países da Europa Oriental, pareciam demonstrar que os demais povos do globo não estavam muito interessados nessa “iluminação”. Aparentemente, não acreditavam que o homem branco é o protagonista por excelência da história da humanidade, não acreditavam que eram menos humanos que o homem branco e não foram colaborativos com a pretensão de homens como o colonizador do Zimbábwe, Cecil Rhodes, em seus devaneios poéticos imperialistas:
"O mundo está quase todo parcelado, e o que dele resta está sendo dividido, conquistado, colonizado. Pense nas estrelas que vemos a noite, estes vastos mundos que jamais poderemos atingir. eu anexaria os planetas se pudesse, penso sempre nisso.” (18)
5- Conclusão: a pós-modernidade e a síndrome do espelho quebrado.
Foram necessárias duas Grandes Guerras, diversas descolonizações, a queda da URSS e outras tantas ditaduras totalitárias, pra que os Europeus começassem a questionar a fundamentação das suas verdades. Como bem nos situa o pensador jamaicano Stuart Hall, o marxismo, a psicanálise, a lingüística, a genealogia foucaultiana, assim como os movimentos de minorias por ele representados a partir do feminismo, foram capazes de abalar as crenças dos europeus em relação ao mundo enciclopédico dos pensadores modernos e, paradoxalmente, abriram espaço para o questionamento dos seus próprios pressupostos. As grandes perspectivas políticas da história estão sendo postas em questão. Do mesmo modo o racionalismo, a sexualidade, os papéis de gênero, a instituição familiar, a existência das raças, a saúde mental, o progresso, a civilização e até mesmo a exatidão das ciências exatas, são alvos de debates que propõem até a negação completa da matéria debatida. Por outro lado, no olho do furacão da fragmentação total, pensadores europeus contemporâneos têm escrito obras de grande aceitação pública, contemporizando os equívocos históricos dos projetos universalistas do racionalismo progressista europeu, analisando os seus aspectos positivos e chamando a atenção para a necessidade de refletirmos sobre abordagens diferenciadas de compreensão do mundo e do momento atual que atravessamos.
São obras que falam sobre a importância de solidificarmos e valorizarmos as relações humanas, sobre a necessidade de alcançarmos uma sociedade xenofílica, holística, auto-sustentável, ecológica, igualitária e fraterna, que respeite a alteridade no sentido de alcançarmos um humanismo profundo que possibilite a homens e mulheres desenvolverem ao máximo suas potencialidades, dentro de Estados equilibrados, onde o exercício da cidadania esteja em permanente diálogo com a isonomia de direitos.
O corajoso exercício realizado por pensadores como Diop, Cress-Welsing e Vulindlela(19) , entre outros, de romper com o tabu segundo o qual a Europa somente pode ser analisada no campo do pensamento, ao ousarem constituir uma análise antropológica da Europa e do pensamento europeu enquanto resultante da sua experiência histórica específica, nos evidencia, entretanto, que os valores e perspectivas de mundo elencados pelos pensadores que buscam resgatar o pensamento europeu da catástrofe pós-moderna, são valores e concepções estrangeiras à Europa e que são componentes da visão de mundo, justamente daquelas sociedades que foram contestadas pelo pensamento europeu enquanto não-históricas, incivilizadas e primitivas. O etnocentrismo é uma perspectiva de centralidade comum em praticamente todos os povos do planeta. A extensão de um etnocentrismo específico, para a normatização do outro, é o problema enfrentado pelos não europeus, nos últimos 400 anos em que a Europa tem alcançado progressivamente relativa hegemonia mundial. O presente trabalho parte de um centro que é outro, e a intenção da análise que fizemos nas páginas anteriores é a de buscar dialogar com os autores apresentados no decorrer da disciplina Bases Filosóficas da Contemporaneidade, que nos dispuseram a partir de suas obras e dos debates por elas suscitados um panorama amplo da constituição do pensamento ocidental, bem como dos dilemas vivenciados na atualidade, no contexto daquilo que entendemos como sendo a condição pós- moderna. Quando temos a pretensão de relacionar o nosso objeto de estudo, referente aos conflitos escolares nos bairros de periferia de Salvador, a um debate tão amplo, é somente porque entendemos que os fenômenos sociais cotidianos, são reflexos dos discursos, práticas, projetos e contradições presentes na macro-estrutura das nossas sociedades.
O exercício de desmistificação é fundamental para que esse diálogo se dê de forma leal, na superação da idéia de que os europeus são protagonistas exclusivos da história do mundo, de que o que é europeu é universal e o que é não-europeu é “alteridade”, de que a Europa é o espaço do pensamento por excelência e que o não-europeu é espaço do antropológico, de que o pensamento europeu surge, se desenvolve, se renova e se expande por geração espontânea, sem colaboração não-européia e por fim, de que a Europa, tem novamente a missão prometéica de iluminar o mundo, salvando-o da “idade do mal-estar”, em que ela mesmo o colocou.
Observando em uma cena cotidiana, uma Yalorixá pós-doutorada em história, senhora dos seus direitos e do seu corpo, pedindo licença à natureza para colher algumas folhas, no intuito de no alvorecer, saudar com as mãos levantadas em oração o disco solar, como no Egito de 6 mil anos atrás, entendemos como boa sugestão, a do poeta Landê Onawale, para os pensadores europeus, ansiosos em seu mal-estar:
“ Vocês chegaram agora...sentem, prestem atenção...e aprendam!”
Notas:
1 http://www.ufc.br/noticias/noticias-de-2013/4210-pesquisas-apontam-o-impacto-das-cotas-nas-universidades-brasileiras - Este artigo da Universidade Federal do Ceará nos traz os links de alguns importantes trabalhos acadêmicos que tratam do tema, entre os quais destacamos: QUEIROZ, D.M.; SANTOS, J.T. Vestibular com cotas: análise em uma instituição pública federal. Revista USP, São Paulo, n. 68, p. 58- 75, dez. 2005/fev.2006.
2 Música, letra e tradução disponíveis em: http://letras.mus.br/bob-marley/24594/traducao.html
3 Hegel, George Willhelm Friedrich, Filosofia da História, Brasilia Editora da UNB 1999 Pág, 88” ...O que nós propriamente entendemos por África, é o não-histórico, não-desenvolvido espírito, ainda envolvido na condição de mera natureza, e que foi apresentado aqui somente como soleira da história mundial.”
4 ( HERÓDOTO, 2006, Livro II, Cap XXXV)
5 ( Id, Livro II , Cap L)
6 (Ibidem, Livro II Cap CIX)
7 ( Ibd, Livro II Cap VXXXIV), Todos os grifos do autor.
8 Citado em DIOP, Cheik Anta, A Origem dos Antigos Egípcios; in: História Geral da África, África Antiga, vol.II, São Paulo/Paris: Ática/UNESCO, org: G Mokhtar, 1983, pg 56.
9 ARISTÓTELES; Pol., I, 5, 1254a 14-18
10 Disponível em: http://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0912719_2011_cap_10.pdf
11 Habitantes negros do norte da África.
12 Sedgwick and Tyler History of Science Cap IX, Cit in: James, George G, Stolen Legacy, pag 40. “ Durante as invasões persas, gregas e romanas, um grande número de egípcios, fugiram não somente para o deserto e regiões montanhosas, mas também para as terras adjacentes da África, Arábia e Ásia Menor, onde eles viveram e secretamente desenvolveram os ensinamentos que pertenciam ao seu sistema de mistérios. No século VIII, os mouros ( nativos da Mauritânia, no norte da África), ocuparam a Espanha e levaram com eles a cultura egípcia que eles haviam preservado. O conhecimento no Egito Antigo era uma coisa centralizada, pertencia a famílias, o Conhecimento, ou os Mistérios, que os gragos chamaram de Sophia, Consequentemente, através da antiga linguagem árabe, a filosofia e os vários ramos da ciência se disseminara: (a) os assim-chamados ‘ trabalhos de Aristóteles sobre Metafísica, moral, filosofia e ciência natural (b) traduções de Leonardo Pisano sobre a ciência matemática árabe (c) Tradução de Gideo, um monge de Arezzo, sobre notações musicais. ( Tradução livre do autor)
13 WILLIAMS, Eric, Capitalismo e Escravidão. São Paulo: Companhia das Letras, 2012
14 VOLTAIRE, Ensaio sobre os mouros; Introdução. “...e eles não são homens, exceto pela estatura, com as faculdades de fala e pensamento a um degrau de distância das nossas. Esses são os que eu vi e examinei” Tradução livre do autor
15 HUME, David. Essays and Treatises on Several Subjects. In Two Volumes (London and Edinburgh, 1777), vol. 1, 550 “ Eu estou apto a suspeitar que os negros são inferiores aos brancos. Raramente houve uma nação civilizada com essa aparência, nem mesmo um indivíduo iminente em sua ação ou especulação.” TdA
16 KANT, Emmanuel. Beobachtungen über das Gefühl des Schönen und Erhabenen, Vierter Abschnitt “Os negros da África não receberam da natureza nenhuma inteligência que esteja acima da estupidez” TdA
17 MARX, Karl. O domínio Britânico na Índia, p 42-43 Citado em: MOORE, Carlos. O Marxismo e a questão racial. Belo Horizonte: Nandyala, 2010
18 RHODES,Cecil , Cit in: HUBERMAN, Leo, Histórias da Riqueza do homem. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1974, pp. 269-270
19 Cheik Anta Diop, Frances Cress-Welsing, Wobogo Vulindlela
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