quinta-feira, 7 de julho de 2011


segunda-feira, 07 de julho de 2011
Laroiê!

Está no ar, lançado. Laroiê Exú, que todos os caminhos sejam abertos. Kawô Kabiecilê, Salve meu pai Xangô, seguimos sempre na justiça e na humildade. E tudo vai sempre dar certo!


Salvador Negro Rancor

Os Contos do livro lançado e repercutido, Salvador Negro Rancor - São pedaços da afrovivência nas ruas do Pelô. A idéia surgiu quando o professor Maka me convidou pra participar de uma coletânea com contos sobre o Pelô. A coletânea não saiu ainda e eu percebi que tinha muitas outras coisas pra contar sobre o dia a dia do centro de Salvador. Pois vai aí( É só copiar e colar):

- Kaska

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/kaska.html

- Salvador Negro Rancor:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/salvador-negro-rancor-o-conto.html

- Pipoca:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/pipoca.html


- Por Acaso:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/por-acaso.html

- Cisco:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/cisco-em-homenagem-musica-do-dmn.html


Apresento também alguns trabalhos de pesquisa,
Sobre as vidas, obras , intersecções e antagonismos entre os líderes afro-americanos Booker T. Washington, W.E. Dubois e Marcus Garvey:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/marcus-garvey-booker-t-wahington-e.html

Um trabalho que propõe uma reflexão profunda sobre três diferentes projetos de posicionamento nacional para o povo negro nos Estados Undos, que penso poder servir de base pra a nossa reflexão aqui no Brasil.

Dois artigos que fiz durante a graduação, bem bibliográfico, sebre assuntos referentes à prática e à história da Capoeira Angola:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/capoeiragem-carioca-no-seculo-xix.html

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/musicalidade-da-capoeira.html

O trabalho seguinte é a minha monografia, para a conclusão do curso de história da UCsal, tratando de uma história recente e que diz respeito a todos os que se importam com o futuro das manifestações da nossa afrocultura e de que forma estamos nós lidando com essa modernidade neoliberal:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/capoeira-angola-do-ostracismo.html

E um conto não publicado que fala sobre um período muito louco que vivi em Belo Horizonte, misturando fatos reais com ficção, mas que foi muito importante pra mim, rsrsr, sempre sobrevivente, espero que o Paulista ainda esteja vivo e bem, espalhando sua sabedira pelas ruas do mundão:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/paulista-inedito.html

TEM CONTO NOVO NO BLOG!!!!!!:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2011/06/mara-ao-mesmo-tempo-em-que-ele-dirigia.html

Firmeza, por enquanto é só isso ( não me atrevo a colocar as poesias, não são muito boas, na minha opinião), quando aprender a colocar os endereços dos textos como link, faço isso, pra lhes poupar o trabalho de copiar e colar, by now, é copiando e colando mesmo, tem canseira maior na vida... Enviem seus comentários, isso é muito importante pra mim. Axé!!!!

Postado por Mandingo às 06:5

terça-feira, 21 de junho de 2011

MARA

Ao mesmo tempo em que ele dirigia louco pela estrada, ela sangrava uma vida entre as pernas no casebre à beira da maré.
Na pista, somente as luzes altas dos faróis, as carretas que passavam carregadas, apressadas levando tudo pela frente, deslocando ar no vácuo de seu peso. Nem o brilho mínimo dos barracos que ladeiam o asfalto. Só o vazio, os carros. Suas pupilas dilatadas de droga como faróis de milha.
Escorreu direto n’água, uma massa quente e ensangüentada pelo buraco entre as tábuas que usavam como latrina. Ensangüentada e quente. Comida de peixe, de siri. Dor imensa, cabeça estourando, sangue ainda descendo misturado à diarréia. De cócoras na escuridão infinita da palafita, não via nada. Se segurava nas ripas folgadas da parede, inalando a fedentina daquela parte onde a água salgada estagnava, entre fetos e corpos de cachorros, sacos de lixo, garrafas vazias, fezes. Dor na vagina, parecia estar parindo cacos de vidro.
Ele sentia o tilintar das têmporas, os sobressaltos das batidas do coração, o descontrole do pulso, os flashes de enxaqueca. Rangia os dentes, acelerava ao máximo.
Ao mesmo tempo em que ela, despida, lavava-se com a água da lata e, sentindo alma, mente, pernas, braços, pescoço desfalecendo, buscou o colchão estirado no chão, ele estacionava o carro novo silenciosamente, tenso sob a luz amarela do poste, grilos e sapos o atormentavam.
Dentro do carro mesmo, sem sentir a noite fria, apagou.

Ele buscava salvação, ela só queria uma morte indolor.



Pois nasce o sol após todas as noites e mesmo sobre as mais longas a claridade de sua luz rompe miasmas e esconjura os fantasmas. Ali então, uma frágil neblina cobria a baixada, quase uma ilhazinha de casas, rodeada de mangue, de mata e de mar. Quem descesse o morro a essa hora, de carro ou a pé, sempre se encantaria pelo brilho espalhado do orvalho, pequenos arco-íris em cada quintal loucura dos pássaros, gritos de crianças, vozes de rádio e cheiro de pão e café.
Quase uma ilha fechada pelo morro, entre o morro, a mata e o mar. Além dos poucos franceses que vez por outra se hospedavam na fazenda dos padres, só o que se via era gente preta de todos matizes, mas em sua maioria, preta como hoje só se vê na África ou no Curuzú.
Sentado em frente à pequena padaria na esquina da rua principal, um antropólogo qualquer anotaria em sua caderneta amassada, homens quimbundos saindo com sacos de pão, mulheres yorubanas esperando a torrefação do café, meninos zulus com fardinhas infantis caminhando de mãos dadas em direção da escola, velhas haussás comprando fumo de corda para os seus cachimbos de barro. Registraria teiús e tatus e raposas e cobras com mais de dois metros que atacam as pessoas no tempo de choca. E cardeais e papa-capins e tiés e sanhaços. E manga e jaca e banana e pitanga e jambo e caju e fruta pão e inhame e aipim e banana da terra. Andasse um pouco mais até o morro no final do distrito, onde a Mata Atlântica original se não era mais virgem, mantinha-se ao menos moça de pouca experiência, encontraria um pequeno vilarejo de casas de sapé e telhados de piaçava, onde os meninos falam uma língua antiga e misteriosa que quase não se entende pelo povo cá de cima.
Ficava, no entanto, a pouco mais de meia hora de Salvador, e menos tempo ainda das empresas petroquímicas de Camaçari. Pela rodovia, carros e caminhões de todo lugar transitavam levando cargas para Candeias, São Francisco, Feira, Vitória, Minas ou São Paulo. Mesmo olhando-se pro mar, a menos de cem metros se divisavam várias ilhas para onde os negros nadavam fugindo da escravidão. Os brancos ,que eram donos de tudo aquilo, deixaram apenas o nome do lugar, sobrenome da família, além de um engenho e um sobrado em ruínas.


O tio veio, logo foram avisar ao velho que o sobrinho tava dormindo no carro e todo mundo que passava metia a cara pra olhar. Carro como aquele por ali, somente a Mãe de Santo tinha, presente de uns italianos que ela ajudou a fechar uma transação comercial. O dela ficava o tempo todo estacionado, coberto de folhas embaixo de uma mangueira. Só usava quando ia pra Salvador, ou fazer Candomblé em algum distrito próximo.
O velho teve de bater por uns cinco minutos até que ele abrisse os olhos. Sorriu, por dentro do mal-estar. Já uma ruma de meninos estava ao redor observando o que acontecia. Baixou o vidro e acenou pro tio. Fosse um vampiro e a luz do sol não incomodaria tanto. Saiu tampando os olhos com a mão, bateu a porta do carro, o velho fez um resmungo, um muchôcho de desaprovação e acenou com a cabeça pra que ele o seguisse.
A casa era a mesma, na esquina da rua que ia para a prainha, arrodeada de gramado, cercada de graxeiras, comigo-ninguém-pode, cidreira, capim santo, violetas e um jasmim enorme sobre a cerca do quintal. Novidade somente os azulejos da fachada, o piso de cerâmica no chão, os sofás, a tv de plasma que ele mesmo mandara de Salvador, sem atinar pro desacerto daquela telona, com a salinha tímida de suas lembranças.
- Ressaca? Indagou o tio, na força dos seus sessenta. Porte de atleta de subúrbio, pescador, bom nadador, o cabelo agora branqueando. Forte, seco e musculoso, com seu bigodinho de canalha eternizado no rosto. O velho que lhe criou quando a irmã foi tentar a sorte na cidade, e criou como pai.
-É...
-Dirigiu bêbado pela BR?
- Foi...
- Quer ver a desgraça de sua tia Não é Enoque?
- Sossegue tio, o importante é que eu tô vivo...
- Hum, ás vezes é...
- Com saúde...
- Ah, você ta descansado então, vamo lá em cima comigo que eu vou comprar umas iscas pra hoje de noite. Sua tia ta lá nas roupas, vá falar com ela e venha.
- Acho melhor não, meu tio, quero uma roupa branca e um chinelo pra ir lá em minha Mãe Carminha toma a benção e buscar um banho de folha pesado que eu to carregado.
- Naquele inferno você não pisa, meu filho – a velha vinha da cozinha enxugando as mãos no saião florido que a cobria dos peitos até debaixo dos joelhos – essa família já se libertou do diabo.
- Benção minha Tia – ele tentou tomar pé da situação.
- Jesus te abençoe, meu filho, que ele é o caminho, a verdade e a vida.
Macumbeira véa, pensou, o cheiro de cuscuz exalando da cozinha lhe jogava em viagens no tempo. A mãe, a mãe da mãe da mãe da tia, tudo macumbeira desde que Odudwa fundou Ilê Ifé, e agora isso. A velha continuava forte embaixo do saião, tudo protuberava. De subir e descer morro, de mexer massa de acará, de ajudar o coroa na roça, e agora isso. Ele macumbeiro desde a barriga da mãe, foi nos aguidavis de araçá que aprendeu os toques que lhe abriram os aeroportos do mundo. O batuque que virava a madrugada que encheu sua conta de Euro, que pagou seu carro e ele tava mesmo certo de que a razão profunda de sua vida estar toda desandada eram os dois anos sem fazer suas obrigações e nem dar comida à sua cabeça, e agora isso.
Olhou intrigado pro Tio e viu, pela primeira vez na vida o velho virar o rosto desviando pra porta da rua o olhar.
- Gal, o menino vai subir comigo.
- Louvado seja Deus Enoque, ele vai tomar banho trocar de roupa e comer alguma coisa, olha a cara desse abençoado.!
O velho ciscou, olhou pra a rua, olhou pro chão, olhou pra a velha, pra as duas telhas que precisava trocar, olhou pro sobrinho, resmungou, e antes de olhar pro chão de novo falou:
- Ele disse que ta descansado...quando voltar toma banho. Bom que ele me ajuda com o peso e eu não preciso pagar pros meninos lá de cima, vumbora...
- Que peso homem? Cê num disse que ia só buscar isca?
- Eu me lembrei que o Chico ia trazer um cacho de banana da Caroba pra mim.
E saíram da casa antes que a velha pudesse pensar. O sol já estava mais forte, mas incomodava menos, parecia que o suor ia limpando, limpando. O velho andava mais rápido que ele, subindo a estrada asfaltada interminável entre o matagal. Velho forte da porra, pensou, quase meio metro menos que ele, mas subia a ladeira num fôlego só, dando três passos pra cada um dele. No meio do caminho, viu o velho quebrar pra a esquerda, numa picada que descia pelo mato. Seguiu em silêncio por um minuto.
- Ta indo pra onde, meu Tio?
- Pra casa de Mãe Carminha – respondeu sem precisar se virar – você ta precisando de um banho de folha!
- Hum...
-Quer uma banana?
- To sem fome... – e achou sua voz com um tom meio infantil.

Após as onze, quase nada se via por ali. De dentro das casas, o piscar das tvs, alguns carros que chegavam de Candeias ou Salvador e tinha um ônibus com os operários que voltavam de Madre de Deus às quinze pras doze. Então algumas mulheres iam na pracinha esperar seus maridos. De resto, na última semana o velho Totonho encontrou dezesseis de suas galinhas mortas com o pescoço aberto e sem sangue nenhum mais. Aí nem os meninos que às vezes dormiam mais tarde tentando vencer as meninas no escuro resistiam ao medo.
Nessa hora era nítida a pequenez do lugar, que a escuridão imensa da mata e do mar emoldurava. Silencioso, tudo, até os cachorros respeitavam. Pronto para todo tipo de assombração atuar anônima e fugir sem deixar nenhuma prova. Agora que os crentes tinham trazido o Diabo prali, a vila se calava e deixava a madrugada passar, madrugada de brumas e névoa, madrugada de longos ventos frios que varriam os trilhos da Leste, cobertos pelo mato antigo.
Somente o Futica virava a madrugada empunhando aquela lâmpada acesa na beira da maré e fazendo barulho em sua vitrolinha miserável tocando seresta. Da casa construída sobre um barranquinho baixo na beirada da água, puxou uma palafita pequena, uma sala de madeira coberta com telhas de zinco, sem mais conforto que umas mesas e cadeiras e um sinuca que trabalhava firme até as dez, quando o silêncio era imperativo pros pescadores que ali esperavam a hora de entrar no mar.
Havia sempre uns seis ou sete a essa hora, sentados em silêncio puxando cigarros de fumo, calados, fixando o negrume da água, escolhendo de cabeça um bom pesqueiro, fazendo rezas, contando a quantidade de iscas. Sempre um desandava na melancolia da música e viajava num passado de juventude e força, quando os navios da Baiana atracavam ali perto pra pegar carvão e telhas e tijolos das pequenas fábricas locais. Aquele era um lugar abandonado, isolado. No tempo bom vinha até gente de Santo Amaro pra trabalhar no atracadouro ou nas olarias, o trem cortava o recôncavo todo, cheio de frutas, de carne, de cerâmica. A Festa da Padroeira era uma multidão, com fogos, danças, brincadeiras, fanfarras e muita nega bonita. Hoje em dia, só o que vem de fora é bandido, fugindo dos policiais de Salvador.
Ele fumava um cigarro e bebia um conhaque, pra cortar o gelo da noite. Tudo nele parecia se reanimar, na medida e que a droga ia deixando o corpo. Alternava momentos de semi-euforia e dormência, cansaço, mas nada da paranóia ou depressão que ele achou que se instalariam assim que ele quebrasse o círculo do vício. Só passou o dia todo seguindo o tio e prestando atenção em suas ordens, andando pra cima e pra baixo vendo e falando com gente que não encontrava há anos, carregando cacho de banana nas costas, preparando linha, anzol, chumbada, isca, consertando os remos velhos de guerra, parecia que essa vida tranqüila e sem maiores nadas ia lhe tomando os poros e já estava por um fio de esquecer qualquer coisa acontecida antes de ontem.
- Meu tio, aquela não é a Mara, sentada ali no canto?
- A filha de Neidinha, ela mesma, não sei que inferno essa menina ta fazendo aqui uma hora dessas. Só dá desgosto pra a mãe, essa daí. Problema puro, É melhor você nem chegar perto.
Ele já tava do lado dela, puxando a cadeira. Curvada, ela não viu o rapaz se aproximar:
- E aí cainana véa, que é que há com você moça?
- Não vou bem como você, mas vou levando, neguinho.
Também fumava, mas cigarro de filtro. No copo, uma rodela de limão temperando o conhaque. Jeans surrado, uma blusa preta virada pelo avesso, furos no lábio inferior, na narina esquerda e na cartilagem das orelhas indicavam o gosto por brincos. O cabelo alisado cortado à altura do queixo tinha mechas aloiradas nas laterais e movia-se com a brisa leve que soprava. Suspendeu a cabeça num gesto suave, jogou pro alto a fumaça, sorriu:
- Tem já três anos que não te vejo Enoque?
- Três e meio Mara, se lembre, foi logo depois que o ginásio pegou fogo...
- Sei, que disseram que foram os meninos das Laranjeiras, lembro, o tempo fechou por uns meses aqui, ninguém subia nem descia.
- Isso! E agente ficava bebendo vinho fuleiro nos degraus da igreja, se perguntando porque ninguém teve a idéia de queimar a diretora junto.
- Aquela ali era cainana com jararaca...

Sorriram juntos, ele bebeu o resto do conhaque, ela bicou sua dose, deu mais uma tragada e arremessou com um pitoque o resto do cigarro na maré. Uma atmosfera de afeto os envolveu. Se conheciam desde as fraldas, iam juntos à igreja e ao terreiro, freqüentaram juntos o ginásio e também brigaram várias vezes com os meninos das Laranjeiras. Chegaram a namorar um tempo, ela tinha 16, ele tinha 19.
-Foi nessa época que os italianos me viram tocando o Rum na casa de Dona Carminha e me levaram pra me apresentar na Europa e eu acabei ficando por lá, tocando, dando aula, tentando fazer dinheiro.
- E eu só fiquei sabendo depois que você viajou – ela disse olhando pra o copo em sua mão, sem nada de uma sorriso nos lábios.
- Anda Enoque, é nossa hora!!!- Parecia adivinhar o sobrinho em situação embaraçosa. Eles se despediram com um aperto de mão, ela sorriu novamente e ficaram de se encontrar em outro momento. Ele foi até o balcão e pegou com Futica uma mão cheia de balas de canela.

Desceram as escadinhas de madeira que davam pra um pequeno atracadouro onde a luz pouca do boteco não iluminava. O velho que caminhava com o braço erguido trazendo o candeeiro, mostrando o caminho.
Remou por uns quinze minutos. Apesar do frio da madrugada, o suor brotou fácil da testa. O corpo limpando, pensou. O ar gelado invadiu seus pulmões, o coração acelerava. Toda a musculatura dos braços se reanimava, fazia tempo que ele não consegui nem tocar tambor, do jeito que a paranóia da droga estava.
Pararam no meio do mar. Engolidos pela escuridão, não conseguiam discernir o que ao longe, era água ou vegetação. Mas o velho, cego que fosse, sabia de cor o Caboto a sua esquerda, a Ilha de Maré em suas costas, O Distrito em sua frente, Mapele e a saída da baía à sua direita. Poucas lâmpadas ponteavam a escuridão, era o céu estrelado que os garantia a visão mínima de seus vultos, do nylon, das iscas e do isopor pra guardar os peixes.
- Pronto – disse o Tio – nem fale, nem se mecha, nem peide Enem respire, amanhã quero comer pirão de xaréu!
Logo que baixou a linha n’água, seus pensamentos retornaram a Mara. Como estava magra, os ossos se mostravam nos braços, nas mãos, na base do pescoço e do rosto. Os olhos tinham a expressão cansada. Um bagaço, carcaça daquela moça viva e contagiante. Um pouco de conversa no entanto, e essa primeira impressa se apagava. Sua pele era mais preta que qualquer pele preta do mundo, reluzia igual o mar dessa noite sem lua. Seu sorriso perfeito mostrava os dentes teimosamente bancos engolidos pelos lábios grossos e definidos, o nariz largo se juntava com os olhos profundos e as sobrancelhas cheias, pra lhe dar um ar de permanente desafio. Era a Mara, mesmo magra que um vento derrubava, cada gesto tinha uma graça desleixada que destacavam sua figura em qualquer lugar.
Um puxão na linha lhe trouxe de volta à pescaria. O fuleiro do peixe tinha roubado a isca. Canalha. Podia vê-lo lá embaixo, a mais de quinze metros, comendo sardinha e curtindo com sua cara.
Pois retornou a linha e colocou outro peixe. Desceu. O velho fez um muxoxo de desaprovação. Tinham as duas linhas nas mãos, mais duas cheias de anzóis com camarão pra pegar peixe de cardume. O tio puxou um Xaréu grande, de uns dez quilos, que ele ajudou a subir no barco. O pirão já tava garantido. Ele puxou um carrapatinho bom, de uns quatro quilos, e depois os dois pegaram uma sequência de vermelho que fez já a noite valer. Puxaram nas outras linhas mais vermelhos, tainhas, barracudas e até um polvo vacilão entrou na lambança.
Manhã começou a clarear por trás do morro e logo o sol se anunciou cortando com seus raios a manhã gelada. O velho tava contente, enrolou um cigarro de palha e fez sinal pra que ele remasse de volta. Tirou um cochilo rápido, dormir mesmo só depois do almoço. A tia já o esperava com um belo cuscuz feito com o caldo do polvo.
- Vem comer na mesa menino!
-Aqui ta bom minha tia, deixe eu matar saudade do quintal da senhora.
Sorriu, ela lhe devolveu o sorriso. Isso já fora seu mundo, era agora um quintalzinho de nada, com uma ruma de galinhas ciscando dum lado pro outro, os gatos já deviam estar na sétima geração e o cachorro era certamente, mais velho que a tia e o tio juntos, agora passava o tempo todo deitado, tentando perceber o mundo através dos olhos cegos.
Sorriu sozinho, comendo de mão o cuscuz umedecido com o caldo forte do polvo. Que isso tudo era real, que isso tudo ainda existia, que a terra sob os seus pés, que o sol quente sobre as bananeiras, que as bananeiras que eram a própria cerca viva desse quintalzinho ainda estivessem lá, cheia de abelhas enfeitiçadas pelo mel de sua flor, que as galinhas seguisse zanzando botando ovos de gema quase vermelha que o velho quebrava no caneco e bebia todos os dias de manhã, que o araçazeiro onde ele vivia se pendurando e caindo e se detonando todo agora estivesse maior do que a casa e que os músculos do seu antebraço e do seu peito estivessem agora latejando, lhe parecia a luz paradisíaca no fim do túnel de um pesadelo interminável de sexo branco entre paredes brancas, sobre lençóis brancos e a mesa branca com o prato branco e pequenos filetes de morte branca escravizando sua vontade e lhe matando pouco a pouco.
Sorriu.Foda-se,pensou. Jogou na boca outra mão de comida. Arrotou, peidou, levantou-se com o prato na mão e se viu um homem grande e forte e o mundo era mesmo aquela terra preta sob os seus pés, e o plano do dia era encontrar Mara pra ver qual era mermo a dela.
Sandália de borracha, bermuda de jeans, camiseta dobrada pendurada no ombro, boné jogado pra trás. Lá pras quatro da tarde foi descendo a rua do ginásio até o campão de barro. Todos o cumprimentavam. Quem não era seu primo, era tio, ou primo de algum primo ou tio de algum tio. O sol batia no rosto, ele andava gingando. Os meninos gritavam no pátio da creche, os adolescentes xingavam no pátio do ginásio. Pensou que poderia jogar um pouco de bola pra distrair e suar, rever os amigos, mas o campo estava vazio. Tudo bem que o sol tava rachando concreto, mas isso nunca foi impedimento pra ele e os de sua idade. Nessa hora de luz absoluta, estavam correndo atrás da bola descalços, sem camisa. O campo era um grande clarão aberto ao lado do Ginásio. Dali se via no alto a bandeira branca do terreiro e um pedaço do barracão cercado por um sem número de árvores frutíferas que escondiam as outras casas dos Orixás.
Cá embaixo as casinhas se sucediam miúdas com roupas coloridas estendidas nos varais balançando ao vento, suaves como canções de conforto. Lá perto dos trilhos, mulheres sentadas conversavam, riam alto e ralavam aipim pra fazer massa puba, enquanto pirralhos nus brincavam no meio desviando dos tapas e sorrindo das reclamações. De algum lugar vinha o cheiro característico de castanhas de caju sendo assadas, o que o fez relembrar por quantas vezes em lugares muito distantes, a solidão da ressaca da droga lhe corroera de saudades de qualquer coisa que lhe fosse um pouco familiar, qualquer apelo aos sentidos que lhe mandasse uma lembrança mínima de afeto, segurança conhecida.
Mas até mesmo a italianinha com quem saíra do país numa paixão frenética, com promessas de contratos e shows, mudou completamente o tom, quando chegaram por lá.
- Acho que meus pais não vão gostar de me ver com você – ela disse, logo no primeiro dia – Se souberem que estamos namorando, é capaz de minha mãe ter um choque!
Menina, devia ter uns 20, 21 anos, propôs lhe pagar uma pensão, e que quando viesse encontrá-la, entrasse pelos fundos pra que os pais e vizinhos não vissem. Vivia em Milão, a dona, num bairro arborizado e de ruas largas com grandes casas separadas por quintais floridos e de grama baixa. Ele foi pro bairro dos imigrantes, carregando sua humanidade na mala.
Aquele primeiro dia foi o pior de sua vida. Queda dura que o deixou estatelado no chão. Levantou, mas quando se viu de pé sentiu ter perdido alguma coisa que lhe era muito cara. Agora percebia que essa coisa era mesmo, essa certeza de ser no mundo, essa sensação inconsciente de pertencimento que sentia nesse momento.
De todo jeito, foi no bairro dos sin papiel, que reencontrou a música. Trabalho, dinheiro, mulheres e droga. Viajou por ali, tocando, acompanhando bandas de música latina. Juntou uma grana, juntou mais grana, mandou grana pros tios, aprendeu a falar espanhol, italiano e francês, e quando a loucura da droga estava prestes a lhe deixar louco, viajou de volta pro hemisfério sul. Tentou ainda Rio-São Paulo, arranjou trabalho fácil e até uma turma de alunos de percussão. Mas ali também a droga era cultura e, ainda por cima, de péssima qualidade.
- Sinho, cadê os meninos? Perguntou prum neguinho que passava. De short, camisa regata. Carregando numa sacola um galo enorme que olhava o mundo com o pescoção pra fora. Dava pra ver que era galo de briga, pelo pescoço depenado e as esporas afiadas, denunciando a contravenção.
-Os menino tão tudo na casa de Xandinho jogando Playstation – e seguiu em seu passinho apressado, descendo a beirada do campo.
-Vai botar pra brigar que horas?
- Lá em Didôlo, mas tarde, se quiser chegue lá pra botar cinco conto nesse aqui que ele é matador.
Olhou outra vez o campo vazio. Era uma tarde linda de céu sem nuvem, vacas e cavalos iam tranqüilos mastigando o restinho de grama dentro da pequena área. Desceu até a casa da prima do outro lado dos trilhos. Ainda passava um vagãozinho miserável que fazia uma zoada danada, levando sacos de aniagem de Mapele pra Candeias. A prima não estava, mas mei dúzia de meninos sem camisa se apinhavam no chão da sala, no sofá, nos braços do sofá, imóveis e com os olhos vidrados na tela, onde o cano de uma pistola ia assassinando inimigos por entre os corredores de uma fábrica abandonada.
-Que porra é essa aí? Gritou da janela tentando dar um susto nos pirralhos.
-Counter Strike – um deles respondeu, sem virar o rosto pra olhar.
- Eu quero saber é porque vocês estão aqui no videogame ao invés de estar no campo jogando bola?
- Peraí Tio – respondeu o sobrinho sem olhar.
- Vumbora suas pragas, eu trouxe uma bola oficial da Copa pra agente jogar.
- Peraí Tio!!!!
Naquela sala somente os dedos dos dois jogadores se moviam. Lembrou do e-mail: “ nega, o dinheiro é pra comprar o viedeogame do Xande, presente de natal do Tio...” e em seguida o número de transferência da Western Union. Agora isso aí. O baba da tarde boicotado pelo Playstation. Sorriu de si mesmo, chateado porque os meninos não queriam brincar com ele. Melhor ajudar a velha a tirar as roupas da corda, limpar a casa e ver se o tio tava precisando de qualquer coisa. A maré vazia não dava nem pra tentar um mergulho antes do sol cair, que tinha bem uns vinte metros de lama até chegar na água, e caranguejo ele não era.
-Tchau Alexandre, depois eu passo aí!!
-Tchau tio...



- A vadia á morando lá na maré, que o pai dela botou pra fora de casa.
- Porque vadia? – perguntou embaraçado, o outro puxou o cigarro com força, olhando direto em seus olhos:
-Toda mulher é vadia, mano, tirando Dona Tica, minha mãe, é o que todas elas são!!
Estavam no Barão, no alto do morro que separava o Distrito da rodovia. Ali os meninos tinham limpado o mato do terreno e improvisado uma pracinha, com bancos de madeira, mesas feitas com antigos carretéis de fios de alta tensão. À noite os jovens subiam pra conversar, beber e namorar de frente pra a baía que se estendia margeada pelas luzes da refinaria. O céu tava limpo, estrelado, o ar frio da noite somente refrescava, após um dia longo de muito sol.
Os quatro em sua frente não tinham mais que 23 anos. Todos criados com ele, meninos de família, como se dizia por ali de qualquer um que tivesse casa, pai, mãe, cachorro, avô, fogão e tios. Somente o mais novinho entre eles que os meninos chamavam de Dajega devido às suas preferências zoófilas, tinha atravessado um drama familiar pesado, quando o pai abandonou Dona Joana Grande. A velha não contou conversa e se mandou de volta pro Maranhão, deixando ele e o irmão mas novo dormindo no casebre lá perto do Gongo.
Cresceram da ajuda dos pais dos outros três. Um almoço, um tênis usado dão pelos professores do ginásio, e mais tudo o que as árvores e a maré e as jegas pudessem lhe oferecer. Pra além da dor profunda, eram somente mais dois meninos que subiam a rua da escola, correndo, xingando e desagradando a Deus.
Debruçados sobre o mar escuro, fumavam, bebiam vinho e ouviam rap no aparelho do Cidinho ligado no poste de luz. Tênis Nike, bermuda XXL, camisas do Santos, Boné da Bad Boy jogado pra trás, correntes grossas prateadas descendo no peito, anéis nos dedos.
Enoque bebeu do vinho. Deviam beber vinho branco e champagne, pensou, pra completar o clichê.
- O sistema desrespeira nós, Noquinho, agente não tem que respeitar Zé Povinho nenhum, ta ligado? Nossa cara é acumular as notas de cem e comer as cachorras todas daqui ta ligado? Mas nóis vai sair daqui desse buraco, sangue bom, daqui pro mundão!!
Bebeu mais vinho, o George parecia que tava armado, dando pala de cano por debaixo da camiseta da NBA. Deviam estar vestindo mais de 500 conto cada um, ele sorriu:
- E a história de um terreno no mato só seu, pegar fruta no cacho, cercado de criança? Vocês tem tudo aqui, bando de viadinho chieiro, e ficam tirando amarrado.
- Respeito Noquinho, respeite seus manos que respeito é a base, ta ligado?
Despreocupado, Dajega derramava umas pedrinhas de crack num cigarro de maconha e o fechava com habilidade.
- Vão se lascar, bando de vacilão, da próxima vez comprem um vinho bom pra poder manter essa pose toda, seus paga-pau de paulista, e olhe que meu Vitória ainda vai arregaçar o santos de vocês e eu subo aqui pra tirar onda, bando de passa-fome...
- Vá lá viadão, comer a vadia da Mara e ficar com o pau podre. Depois venha me pedir dinheiro pra te levar no HGE...

Apressou o passo, quase correu, a visão das pedras certamente despertaram os neurônios receptores. Trouxeram de volta a fissura e pensou que o suor poderia acalmar o corpo com um pouco de serotonina. Correu que nem maluco ladeira abaixo, lembrando do argelino que lhe vendia pó em Marselha, quando um dia apareceu com as pedrinhas cor de caramelo, presente pela sua fidelidade.
- Não, isso aí é veneno!! Me espere eu chegar lá no fundo do poço, que até lá eu vou com minha boliviana, enquanto grana não me faltar...
Nunca faltou.
Mas depois daquele encontro três surreal, a porra da pedra lhe mandara um beijo e ele quase lhe jogava um de volta, não fosse a chateação que sentiu pelos primos. Nessa merda de lugar, o pessoal das antigas que puxava um fumo era visto como os próprios cavaleiros de Baal-Zebuth, agora os meninos tinha descoberto a máquina do tempo e ido direto pra a idade da pedra, visitar os flinstones ao som do Facção central.
Descobriu que o barraco onde Mara estava era outra palafita quase do lado da birosca de Futica, mas imperceptível em noite sem lua. Um claridade mínima, no entanto, denunciava o casebre essa noite, provavelmente um lampião a gás. Chamou, como não teve resposta, subiu por sobre a ponte estropiada de madeira que rangeu e balançou a cada passo seu, divisando a lama, o lixo, os cacos de vidro lá embaixo lhe esperando. Era uma cabana, um quadrado sem divisões coberto com telhas de amianto e com paredes feitas com pedaços de folha de flandres e compensado. O próprio piso era incerto, cheio de falhas por onde o mau cheiro da maré invadia.

A moça estava sentada sobre um colchonete no chão, o lampião ao seu lado lhe fazia a silhueta escura e seus braços moviam-se lentamente levando o cigarro até a boca. Até mesmo a fumaça que expirava assumia toda a sua materialidade, condensando-se no ar frio e espalhando-se pela sal.
- Enoque?
- Oi Mara... sentou-se ao seu lado.
- Oi nego, ela sorriu, e a carcaça que se tornara retornou à vida, plena de uma beleza constrangedora.
- Que diabo você ta fazendo aqui nega?
Calou-se, os olhos foram acostumando-se ao negrume e pôde divisar a mesinha sobre a qual haviam pequenos objetos, pentes, prendedores de cabelo, batom. Um lata de óleo, aparentemente pra depositar água, uma sacola aberta com roupas desarrumadas, alguma louça sobre o muro da janela que emoldurava a escuridão e só.
- Fala Mara, que porra você ta fazendo aqui?
Ela puxou o cigarro até quase o filtro, soltou a fumaça num jato, pra cima.
- Tô morrendo neguinho, eu to morrendo!
Silenciou por alguns minutos, deleitado com o dilatar das pupilas e a nova visão que traziam, os olhos acostumados à falta de luz. Também tentou em vão decifrar algum sentido no gosto metálico das palavras que a menina tinha dito. Antes que pudesse perguntar, a amiga foi direto ao assunto:
- Eu tava voltando de um show em Salvador, uns quatro meses atrás, sozinha. Quando vinha descendo a rua do açougue, cinco homens me pegaram, me jogaram dentro da casa que Madimbu ta construindo, me bateram muito, me moeram de pancada, depois me estupraram, os cinco, de todo jeito.
- Merda, que merda, e você conhece os caras?
- Reconhecer? Eu tava meio descordada Noque, das porradas, da vergonha, da dor, mas era tudo cara conhecida daqui, Vado, Neno, o Seu Zé da carroça, o BR e o Madimbu também.
- Porra Mara, esses caras são todos pais de família, que porra é essa???
- Raiva nego... esse povo daqui sempre me tratou como se eu fosse uma vagabunda. Você saiu daqui tem o quê? Três anos? Eu passeia dar umas voltas em Salvador, ir nas festas de rock, me vestir diferente, pintar o cabelo...
- Virou roqueira doida...
- Doidinha só, nem parei de estudar, nem de trabalhar na lojinha de Gueu, dava banca pros meninos do ginásio. Mas pro pessoal daqui, eu virei uma ameaça, uma ofensa ambulante, entendeu, como se eu fosse uma puta, uma pervertida, eu guardando o cabaço pra algum príncipe encantado, velho, e eles dizendo que eu vivia em Sodoma e Gomorra, que eu fumava, bebia, fodia com todo mundo, cultuava o diabo...
- Mas tem tanta menina que faz tudo isso aqui Mara...
- Que fuma, bebe, que fode, que cheira, mulher que corneia o marido, marido que dá a bunda pra amigo, pai que estupra as filhas , filha que tem filho do pai, mulher que faz feitiço pra matar a outra, crente que bota ebó na encruzilhada. Tem de tudo aqui nesse buraco, meu irmão, mas tudo é na boca de siri, todo mundo sabe, mas ninguém fala nada.
- Aí aparece uma maluca vestida de preto, com um cigarro na mão e uma garrafa na outra, fica fácil pra todo mundo jogar pedra.
- Você entendeu a merda toda, mas...
Chorou, ele pôde ver na luz da brasa do cigarro, as lágrimas rolando em seu rosto. Reviu os olhos firmes, o nariz largo e perfeito, a boca linda e grossa. Reviu a marca dos ossos na face, a marca dos ossos nos ombros, na clave, os seios tesos sob o pano fino da blusa. Puxou-a pra si, beijou suas lágrimas e deu um abraço forte. Sentia que um pouco mais de força podia quebrá-la, tão magra que Mara estava. Então deitou a moça no colo e ficou olhando a fumaça sair pela janela.
- E seu pai, o que fez?
- Há, há, o filho da puta deve ter ficado com inveja, se perguntando porque não fez isso antes. Me botou pra fora de casa, depois de me dar uma surra. Esse barraco aqui foi a Carol que arranjou, onde os irmãos dela preparavam pra pescar, isso antes de viajarem. Eu ainda tinha uma grana, tava guardando pra bancar um cursinho, só pensava em estudar. Agora to aqui contando os dias...
Ele já fora doido por essa preta, fizeram juras de amor, promessas de casamento sob a luz da lua cheia lá em cima no Barão. Se viajou sem nem mesmo avisar, foi no olho grande das promessas com que a cobra de olho verde lhe enfeitiçou. Empolgado com o futuro de plástico que a italianinha lhe apresentou. Viajou todo cheio de si, íntegro dum egoísmo juvenil. Percebeu-se fascinado por essa Mara firme e madura, segura em seus comentários ácidos e que sustentava um porte majestoso ainda que a tragédia estivesse estampada em sua face. Já não era mais a menina que conheceu. Mara fizera-se mulher pela dor, e essa mulher lhe parecia de um poder enorme.
- Você vai ficar bem, Mara!
- Um mês atrás – disse ela sem considerar seu comentário – eu descobri que tava grávida, prenha de um dos sacanas que me estupraram. Nego, eu to comendo minha própria carne de tanta dor por cima de dor, mas não, disse, vamos, a Carol trouxe o remédio na semana passada, comprou na Feira de São Joaquim. O feto saiu, saiu anteontem, mas eu sinto que essa porra ainda ta dentro de mim, ainda ta me matando...
-Mara véa, você vai ficar bem, confie em mim, eu vou te pegar amanhã pra te levar em Salvador e fazer a curetagem. Isso é muito comum nega, nada de mais. Fique tranqüila que amanhã eu te pego.
Suspendeu o rosto da moça, beijou-a, nem o gosto amargo de nicotina conseguiu mascara o visgo doce de sua saliva. Fechou os olhos, como se tornando cúmplice da escuridão. Suas mãos foram nos seios fortes, percorrer o quadril que a blusa fina e saia fina e a calcinha fina quase não guardava e percebeu que, mesmo magra, a nega permanecia com os contornos exatos, dura que nem galinha velha. Percorreu a fenda, o mistério, já estava ficando doido.
- Pára nego, disse a menina se levantando, eu tô toda arrombada, toda fodida, só esperando a febre OUA hemorragia que vai me matar. Não deixe despertar o desejo que eu não sirvo mais pra isso. Não sirvo, não quero e não posso. Vai embora daqui, me deixe morrer, merda, sozinha como eu sempre fui.
Ele levantou de um salto, assustado com a rispidez com que Mara lhe falara. Tomou pé de si mesmo na porta, o mundo agora se clareava aos olhos acostumados ao breu.
- Vou nega, mas volto,e você vai ficar bem!

Manhã voltou com o mesmo sol de ontem. Sol queimando o cabelo curto, queimando as costas, queimando os pés descalços na terra quente. Tudo era a mesma algazarra de cores e de sons, as pessoas eram as mesmas, as casinhas coloridas com as roupas tremulando no varal, as velhas carcomidas descendo o morro carregando na cabeça os balaios de cajus, castanhas torradas e massa puba, a mesma bandeira branca de Tempo balançando na casa da Velha Carminha, no sopé do morro que parecia abençoar o campo de terra, onde agora estava.
Viu tanta gente enlouquecendo de frio e de solidão. Gente que podia reagir a qualquer porrada, a qualquer derrota, mas que ficava indefesa quando confrontada com a negação. Tanto neguinho músico, percussionista, artesão, que subia e descia o Pelourinho atrás das gringas, e tava agora falando bobagem na Europa, andando sujo, doente, drogado, porque não se adaptaram à experiência do não ser. Nem mesmo marginal, nem mesmo criminoso, nem mesmo inimigo, apenas um nada ambulante. Sem família, sem lugar, sem língua, comendo resto, sofrendo contrações nervosas nos músculos, tremendo as mãos, exalando o mau cheiro comum aos loucos.

Suou a putinha italiana com quem viajou pra Milão. Numa arrancada pra a grande área, suou o policial de Marselha que lhe roubou quase dois mil euros. Cobrando um escanteio, suou os olhares de medo, os silêncios, as indiferenças em uma cobrança de falta, o menino moçambicano que vira morrer em Lisboa sem ninguém ajudar. O guarda da imigração não lhe respondia nada, doze horas trancado no aeroporto de Madri. Sem água, sem comida, explicação, sequer um olhar. O dia já virara em noite, quando saiu e, talvez tivesse passado uns vinte anos ali dentro, contando os azulejos da parede. Ninguém pra abraçar, ninguém a quem se queixar, ninguém era ele mesmo e suou em um golaço de cabeça depois de um cruzamento de esquerda o primeiro dia em que cheirou o veneno branco que parecia lhe dar superpoderes e torná-lo alguém, um personagem patético de sua inexistência.
Suava pelos cabelos, pelo peito, pelas axilas, pelo púbis, pela perna, acreditou ali na libertação pelo suor e se sentiu livre, certo e tranqüilo em seu sorriso, quando os outros vieram abraçá-lo pelo gol que decidia a partida e o destino dos engradados de cerveja que estavam em jogo.
No bar de Dona Joanita, parecia haver uma festa, com os pescadores que tinha pescado mais de cem quilos de peixe, coisa rara hoje em dia que a maré ta suja e aparece sempre peixe boiando morto na beira da areia. Todos sem camisa, os coroas, pareciam tão duros quanto os mais jovens. Alguns mais secos, mas todos musculosos e pretos das mais diversas matizes. Tirando o peixe reservado pra vender no outro dia lá em São Joaquim, Dona Joanita cozinhava uma moqueca das grandes que seria comida por todos os presentes. Quando se cruzaram os pratos de peixe com as cervejas do jogo de bola, a coisa ficou ainda mais alegre . Moças dançando os últimos pagodes que tocavam no rádio do bar, meninos descalços pedindo doces aos que eram pais e tios. Até quem estava saindo agora do colégio, tiravam as camisas azuis do governo e entravam na farra.
Enoque se sentiu constrangido quando percebeu que um dos pescadores sentado na mesa era o pai de Mara. Brindando com os amigos, bebendo cerveja, brincando com os meninos que se aproximavam. Ele próprio também o chamavam de “tio”,quando era mais novo. Era um dos pescadores mais experientes do lugar e por isso todos no bar lhe festejavam com cervejas e gozações.
- Os peixe deve ser tudo viado pra gostar de você Totonho...
- Peixe é igual a você peão, eu arranco a cabeça e como o rabo...
- Que nada BR, num vi nada dessa valentia quando a véa Joana pequena tava lhe caçando...
- Deus é mais, peão, quem gosta de assombração é cemitério...
- Que nada fuleiro, Cê tá comendo até bunda de cachorro doente...
Todos riam, ele também, já alterados na pequena euforia da cerveja , que para a maioria dos que estavam ali, nem era bebida, acostumados ao travo forte da cachaça. Foi pelo nome do outro que percebeu, parceiros de mesa, o pai e o estuprador da filha, celebrando a fartura da pescaria. Preferiu expulsar a filha do que procurar briga grande com os caras. Ele mesmo experimentava a onda de simpatia mútua que parecia unir a todos naquele momento. Dizia uma piada, fazia uma graça com as meninas, tirava um sarro com o time perdedor, desfrutava da naturalidade do seu lugar, dos seus amigos.

Covarde, pensou entre sorrisos, renegou a filha, largou a menina pra morrer na maré, e ficava ali rindo com um dos que tinha desgraçado ela. Que porra que tinha ali de covardia, de inveja nos olhares, de maledicência nas brincadeiras, crueldade escondida nos abraços dos amigos e que somente se mostrava quando as portas se fechavam e a privacidade dos lares justificava o silêncio de tudo. Não fantasiava. Era também sua miséria, sua covardia, sua inveja, sua pequenez de alma que ele compartilhava com todos os que ali estavam. A menina desafiou, quis ser diferente, parece que incomodou alguma coisa encravada no peito desse povo todo que cantava e bebia, cúmplices de um crime coletivizado pela omissão de todos.
Mas como violaram a menina que todos viram crescer? Mara foi sempre tão bonita, toda desembaraçada, falante, boa aluna. Os meninos brigavam por ela nas festas de fim de ano. Mara... Como foi ingênua. Eles podiam desculpar tudo, menos seu esforço por ser diferente. Era como quebrar uma espécie de lealdade que abraçava os bêbados, os viados, os crentes, os macumbeiros, as putas, as corneadoras, os vagabundos, mas relegava a um tipo ativo de ostracismo, àqueles que se soltassem da matilha. Aquela merda ia ser soterrada pelo crack, pelo pagode, pelo apocalipse dos crentes, pela obesidade, pela fumaça química das refinarias, mas não podia suportar o desafio de uma menina linda, ainda que um pouco desnorteada.
Sorriu.
- Não, Dona Joanita, pra mim já ta bom de cerveja... vou subir.
Ia vê-la, fisicamente, achava que podia matá-lo com facilidade, o pai, era forte, o outro também, mas cortava no zinco, os dois, e ia se sentir bem por isso.Deixou o copo sobre o balcão, ia buscar Mara, levar no hospital, cuidar, engordar a nega, fazer a piveta florescer de novo, esquecer a merda que fizeram com ela e ela ia ser sua mulher e ninguém ia mexer com sua mulher. Subiu até a igreja, pegou a rua que descia até as palafitas. O sol estava bem em cima da sua cabeça, quase ninguém se aventurava pra fora da sombra das casas e dos bares. A maré brilhava refletindo a claridade, a lama seca partia sob os seus pés. Atravessou a ponte de madeira do lugar onde Mara estava. Carol estava sentada com a outra deitada em seu colo. Raios do sol desciam pesados entre as frestas do telhado. A beleza da imagem, no entanto, não o impediu de perceber as lágrimas que desciam no rosto de Carol. Ao lado de Mara, uma poça enorme de sangue já ressecado.
- Não dá mais tempo... Eu quis te chamar, mas não quis deixar o corpo. Pelos bichos, né? Ela queria te ver...
Enoque sentou-se ao seu lado, tocou seus cabelos, beijou sua testa. Sentiu-se enjoado e o vômito quase vem na boca. Nada mais havia pra ser feito. Ele ia embora dali hoje mesmo.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Laroiê!


Está no ar, lançado. Laroiê Exú, que todos os caminhos sejam abertos. Kawô Kabiecilê, Salve meu pai Xangô, seguimos sempre na justiça e na humildade. E tudo vai sempre dar certo!


Salvador Negro Rancor

Os Contos do livro lançado e repercutido, Salvador Negro Rancor - São pedaços da afrovivência nas ruas do Pelô. A idéia surgiu quando o professor Maka me convidou pra participar de uma coletânea com contos sobre o Pelô. A coletânea não saiu ainda e eu percebi que tinha muitas outras coisas pra contar sobre o dia a dia do centro de Salvador. Pois vai aí( É só copiar e colar):

- Kaska

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/kaska.html

- Salvador Negro Rancor:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/salvador-negro-rancor-o-conto.html

- Pipoca:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/pipoca.html


- Por Acaso:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/por-acaso.html

- Cisco:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/cisco-em-homenagem-musica-do-dmn.html


Apresento também alguns trabalhos de pesquisa,
Sobre as vidas, obras , intersecções e antagonismos entre os líderes afro-americanos Booker T. Washington, W.E. Dubois e Marcus Garvey:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/marcus-garvey-booker-t-wahington-e.html

Um trabalho que propõe uma reflexão profunda sobre três diferentes projetos de posicionamento nacional para o povo negro nos Estados Undos, que penso poder servir de base pra a nossa reflexão aqui no Brasil.

Dois artigos que fiz durante a graduação, bem bibliográfico, sebre assuntos referentes à prática e à história da Capoeira Angola:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/capoeiragem-carioca-no-seculo-xix.html

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/musicalidade-da-capoeira.html

O trabalho seguinte é a minha monografia, para a conclusão do curso de história da UCsal, tratando de uma história recente e que diz respeito a todos os que se importam com o futuro das manifestações da nossa afrocultura e de que forma estamos nós lidando com essa modernidade neoliberal:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/capoeira-angola-do-ostracismo.html

E um conto não publicado que fala sobre um período muito louco que vivi em Belo Horizonte, misturando fatos reais com ficção, mas que foi muito importante pra mim, rsrsr, sempre sobrevivente, espero que o Paulista ainda esteja vivo e bem, espalhando sua sabedira pelas ruas do mundão:

http://mandingoliteratura.blogspot.com/2010/07/paulista-inedito.html

Firmeza, por enquanto é só isso ( não me atrevo a colocar as poesias, não são muito boas, na minha opinião), quando aprender a colocar os endereços dos textos como link, faço isso, pra lhes poupar o trabalho de copiar e colar, by now, é copiando e colando mesmo, tem canseira maior na vida... Enviem seus comentários, isso é muito importante pra mim. Axé!!!!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A Capoeiragem Carioca no Século XIX


Artigo : Cenário Urbano do Rio Imperial

As Maltas de Capoeira.


Fábio Nascimento


Palavras-Chave : Brasil Império, História do Rio de Janeiro, Capoeira Carioca.


Resumo : O presente artigo visa possibilitar uma percepção do cenário urbano do Rio de Janeiro, Capital do Brasil durante o período imperial, tendo como foco, o fenômeno da capoeragem carioca e os seus personagens principais, ocupando-se do seu desenvolvimento e do seu impacto na sociedade local.


O período imperial brasileiro, que se inicia com a vinda da família imperial portuguesa para o Brasil em 1808 e perdura até a proclamação da república, em 1882, foi entre outros, um dos períodos mais conturbados da história brasileira, marcado por dezenas de convulsões sociais, disseminadas por todo o território nacional. Nos interstícios dessas crises, revoltas e revoluções, a população das cidades brasileiras, principalmente das cidades portuárias, vivenciavam as transformações sociais advindas de uma urbanização incipiente, de um cosmopolitismo novo, oriundo da abertura dos portos e das medidas urbanizantes implementadas já pelo próprio Dom João VI, intensificadas após a independência.

No Pará, a Cabanagem, no Maranhão, a Balaiada, em Pernambuco, a Revolução Praieira, na Bahia, os levantes dos africanos, a Revolta dos Malês, a Sabinada, no Sul, a Revolução Farroupilha, os próprios conflitos decorrentes do processo da independência, a onda xenófoba que se espalhou por todo o país, bem como as escaramuças entre liberais e conservadores posteriores à independência, as lutas pelo poder entre as oligarquias agrícolas e comerciais formam o quadro convulsivo da política brasileira no período.

No Rio de Janeiro, maior cidade portuária do país ( e uma das maiores do mundo), esse contexto urbano adquiriu contornos específicos. Com a mudança da Real família portuguesa com toda a sua corte para a cidade, agora capital brasileira, esse processo de urbanização é mais acentuado, até porque os seus portos eram escoadouro de toda produção agrícola e mineral dos sertões do sudoeste e nela estavam instalados a maioria dos comerciantes e empresários responsáveis por essas atividades exportadoras.

Quando a partir das primeiras décadas do século XIX, a Inglaterra interrompe suas atividades mercantes voltadas para o tráfico escravista, passando a exercer pressão sobre os demais países ( principalmente aqueles com quem mantinha relações comerciais, como no caso do Brasil) para que seguissem o seu exemplo, a diminuição do fluxo do tráfico transatlântico gera o crescimento notável do fluxo do tráfico inter-regional, e nesse contexto, o Rio de Janeiro passa a ser o principal pólo receptor de africanos escravizados vindos de outras regiões, principalmente do Nordeste.

Conquanto o Rio de Janeiro imperial não agregue um histórico relevante de revoltas sociais, é esse contexto urbano específico, e suas expressões específicas típicas do seu cosmopolitismo, que vai gerar o fenômeno de desordem popular e desobediência civil que alcançaria proporções notáveis de constrangimento social: a capoeiragem carioca do Rio imperial.

Ainda a história não tem hoje estamentada, uma conclusão a respeito da origem da capoeira, segundo Líbano Soares, em uma das mais razoáveis probabilidades “ capoeira seria um mosaico formado por diversas danças africanas ancestrais que se teriam amalgamado em definitivo na terra brasileira.” (Soares, Carlos Líbano; Golpes de Mestres in Revista Nossa História, Ano I nº 5, pág. 16). Essa arte, dança-luta, desenvolveu-se no Brasil, sendo percebida principalmente nos ambientes urbanos portuários, de Belém, Recife, Salvador. Pernanbuco e Rio de Janeiro. Nesta última cidade, a capoeira se destaca enquanto fenômeno urbano relevante a partir do século XIX, sendo retratada por diversos artistas estrangeiros de passagem pelo Brasil, como Earce (1822), Rugendas (1835), Harning (1840).

No Rio de Janeiro portuário, a capoeira floresceu entre as camadas mais baixas da população. Africanos, crioulos, mestiços, portugueses e imigrantes pobres se agregavam na sua prática, fossem eles estivadores, trapicheiros, carroceiros, cozinheiros, carregadores ou vagabundos, sobrevivendo com malícia no ambiente urbano, cenário brilhantemente retratado na obra “O Cortiço” de Álvares de Azevedo, e devidamente documentado, nos arquivos da polícia carioca, amplamente pesquisados por Carlos Líbano Soares na composição de sua obra “ Capoeira - A Negregada Instituição- os capoeiras nos tempos do império” .

Os capoeiras cariocas se organizavam em agrupamentos conhecidos como “maltas”, que variavam em número de membros. As maltas estavam dividas entre veteranos e aprendizes, e entre esses, os caxinguelês, que eram crianças em treinamento, que assumiam os postos de aviso e a linha de frente das batalhas, provocando os adversários. Antes que se notem semelhanças entre o Rio antigo e o Rio atual marcado pela violência dos morros e do trafico de drogas, acrescentamos que essas maltas estavam geograficamente localizadas em bairros que comandavam. As maltas tenham suas cores específicas, e o desavisado que transitasse em outro bairro, trajado com as cores de uma malta inimiga, corria sério risco de vida.

“Cadeira da Senhora”, era a malta que comandava a freguesia de Santana, a “Três Cachos”, comandava a freguesia de Santa Rita, os “Franciscanos”, eram de São Francisco de Assis, “Flor da Gente”, da freguesia da Glória, “Monturo”, da praia de Santa Luzia, a “Espada”, do Largo da Lapa. Dentre as maltas, duas se destacavam: os Nagôas, radicados na periferia da cidade, tinham tradição africana, os Gaiamuns do centro da cidade, agregavam mestiços, imigrantes pobres, homens livres e intelectuais. Se os Nagôas usavam o chapéu com uma cinta branca sobre o vermelho, os Gaiamuns usavam uma cinta vermelha sobre o branco.

As escaramuças entre as maltas se davam nas épocas de festas populares, quando uma dessas invadiam o território alheio. Algumas vezes no entanto, a ousadia dos capoeiras iam ao ponto dos combates serem divulgados em cartazes pregados aos postes. As gírias e expressões características das maltas, formavam glossários únicos, que escandalizavam a fina flor da sociedade carioca, que abarrotava as redações dos jornais e os gabinetes das autoridades exigindo providencias rígidas que dessem fim a barbárie publica dos capoeiras.

A Guerra do Paraguai (1865/1970), é um marco divisor na história dos capoeiras. Destacados por sua bravura e heroísmo no cenário da guerra, retornavam à cidade ainda mais ousados, depois de serem recrutados a força para lutar no Paraguai. Os capoeiras passaram a ser parte integrante das lutas políticas entre liberais e conservadores, monarquistas e republicanos, trabalhando como capangas, hora para um lado, hora para o outro, coagindo eleitores, dispersando comícios, espancando inimigos políticos. Os Nagôas se ligaram aos monarquistas do partido conservador, enquanto os Gaiamuns eram ligados aos republicanos do partido liberal, no entanto, a ligação entre os capoeiras e conservadores, tornou-se referência tão forte, que a vitória dos liberais e a proclamação da república em 1882, correspondeu à dura onda de repressão perpetrado por Sampaio Ferraz, o chefe da policia do Marechal Deodoro, que torturou, matou e prendeu capoeiras às centenas, degredados para apodrecerem na Ilha de Fernando de Noronha. Ferraz estava amparado pelo novo código penal de 1890, que criminalizava a capoeira e previa pena de prisão e degredo para reincidentes e membros de maltas.

Os capoeiras que aterrorizavam o império, foram praticamente extintos pela repressão republicana. Nomes como: Manduca da praia, Mamede, Aleixo Açougueiro, Pedro Cobra, Quebra Coco, Boca Queimada, Trinca Espinha, alem de membros de destacadas famílias das elites cariocas, como Duque-Estrada, Arauba Nogueira, Plácido de Abreu, que foram também exímios capoeiras, viram-se excluídos da história moderna, e a capoeragem carioca, de glória ofuscada pela capoeira baiana do século XX, somente agora vem sendo resgatada por pesquisadores como Jair Moura, Carlos Líbano Soares, Letícia Cardoso e Nestor Capoeira, percebida como fenômeno urbano popular característico do período imperial, no Rio de Janeiro capital do Brasil.



PEQUENO GLOSSARIO DA CAPOERAGEM CARIOCA:


CAMBAR - Passar de um partido para o outro.

SARDINHA - Navalha

MOQUETE - Soco

BANHO DE FUMAÇA – Tombo

PEGADA – Encontro de maltas

SARANDAJE – Pequenos capoeiras

BAIANA – Joelhada

CIFRADA – Cabeçada

MELADO – Sangue

CAVEIRA NO ESPELHO – Cabeçada na cara

LAMPARINA – Bofetada

RUJÃO – Batalhão

DESCANGALHAR – Fugir da policia

JANGADA – Xadrez de policia

PALACIO DE CRISTAL – Detenção

CHACARA – Casa de correção

FORTALEZA – Bar

URUBU-MALANDRO – Experiente

DANÇA DE VELHOS – Capoeragem


BIBLIOGRAFIA

*Soares, Carlos Eugenio Líbano

“ A Negrada Instituição, os capoeiras na corte imperial – 1850-1890”

Rio de Janeiro, Ed. Acces, 1998

“ Golpes de Mestres “ Revista Nossa Historia, Nº 5, Março de 2004

*Carvalho, Letícia Cardoso

“ As Maltas de Capoeira do Rio de Janeiro “

Revista Praticando Capoeira, Nº 07, 2000

*Capoeira, Nestor

“ Os fundamentos da Malicia “’’’, Ed. Record, Rio de Janeiro 1998

*Moura, Jair

“ Subsídios para uma visão retrospectiva da capoeragem no Rio de Janeiro”

A Musicalidade da Capoeira

Música e Capoeira – Elementos para a compreensão da importância da musicalidade na Capoeira Angola

Fábio Nascimento-Mandingo


Palavras-chave: Música, Capoeira, cultura africana, instrumentos africanos, musicalidade.

Resumo: O texto trata da importância da música para a prática da Capoeira Angola, contextualizando essa importância no ambiente material-ritualístico da roda de Capoeira, conforme sua prática atual, traçando ainda um pequeno histórico da Capoeira.





O tratar de qualquer assunto relativo a aspectos contidos no universo da capoeira, ou da Capoeiragem, como preferem autores como Frederico Abreu, nos obriga a traçarmos ao menos, um breve histórico referente à nobre arte da Capoeira, essa dança – luta, que vem, ao longo dos anos, se espalhando por todos os cantos do planeta, envolvendo cada vez mais praticantes das mais diversas origens nacionais, culturais e étnicas.
Muito se tem discutido no âmbito acadêmico, em relação às origens da Capoeira, no entanto, a escassez de fontes documentais que possam nos oferecer uma percepção mais próxima do mundo do negro escravizado no Brasil nos primeiros séculos da colonização, dificulta tal tarefa, mais ainda se atentarmos para o fato de que, a pouca documentação existente, foi escrita do branco “sobre” o negro, e não partindo deste para outro receptor. Mais ainda, faz-se necessário ressaltar, que no próprio contexto filosófico da Capoeira, o “esconder”, “fingir”, “ludibriar” e “ disfarçar” a sua prática, são objetivos previstos em suas metodologias comunitárias. Portanto, as primeiras informações que temos sobre a Capoeira, são oriundas do momento em que o branco começa a “perceber” a sua existência, enquanto expressão diferenciada. Desse modo, a maior parte das obras parecem tender para a indefinição, referendando sem dúvida, a sua matriz africana, e discordando em graus variados, quanto à importância das contribuições indígenas portuguesas. Mesmo quanto à palavra Capoeira, encontramos discordância se a sua origem vem do Tupi “ KAA-Pu-Ê-Ra, que significa mato rasteiro recém cortado, ou da sacola de carregar galos, que segundo alguns autores, teria o nome português de capoeira, referente à sua utilidade de carregar os capões.
Como entendemos a escrita da história em sua dimensão política, e a política em sua dimensão racial, não podemos deixar de perceber, a presença de sutis antagonismos ideológicos presentes nesta discussão, e assim, não nos excusamos ideologicamente de apresentar a nossa opinião, de que, como o Candomblé, da forma em que hoje é cultuado, é o resultado da integração, no Brasil, de diversos modelos de cultos religiosos africanos, aproximados artificialmente no contexto da escravidão, a Capoeira seria também uma fusão dinâmica e interétnica de diversas lutas marciais rituais africanas, integradas no mundo diaspórico brasileiro. A presença de lutas como a Ladja, da Martinica, e do Moringue, da Ilha de Reunion, Madagascar, entre outras expressões marciais que possuem alguns golpes similares aos da Capoeira, e que são também realizados tendo a música como base, parece confirmar a nossa percepção, de que a Capoeira, é uma expressão Africana, mas do contexto exclusivo do Brasil ( em que não negamos a influência Indígena e mesmo portuguesa).
A partir do século XIX, entretanto, a documentação que dispomos sobre a Capoeira, é majoritariamente, advinda de registros policiais referentes à perseguição da sua prática, principalmente a partir da segunda metade deste século, quando a sua penalização é prevista no Código Penal (1890), com punições que vão de seis meses a seis anos, com degredo para Fernando de Noronha. Nesse sentido, destaca-se a farta documentação carioca, que deve-se ao fato de no Rio de Janeiro, a prática da Capoeiragem e consequentemente a sua perseguição, terem tomado proporções de grande polêmica social, com prisões em massa, artigos de jornais, determinações oficiais, entre outras coisas. Na Capital do Império e da República, a Capoeira se organizava nas famigeradas Maltas, grupos formados por dezenas de capoeiristas de bairros determinados, que entravam periodicamente em conflito corporal com as maltas inimigas, gerando o pânico da população e principalmente da aristocracia local, que se escandalizava com a petulância dos arruaceiros que chegavam mesmo a marcar antecipadamente, com panfletagem pública, data, local e horário do próximo embate.
As Maltas mais importantes, os Nagôas e os Gaiamuns, eram notáveis por suas vestimentas características, com cores definidas e territórios demarcados com sangue, de modo muito parecido aos atuais embates cariocas entre morros e facções rivais.
Foi na Bahia, no entanto, que a Capoeira se delineou enquanto prática ritualizada, contextualizada no ambiente determinado da “roda de Capoeira”, e embora, como podemos ver na Gravura de Rugendas ( danse de la guerre, 1835) , os primeiros registros pictóricos desta, já se dão associando-a à música, foi somente na Bahia do século XX, que essa associação se consolidou enquanto forma, e esse ritual se estabeleceu como tradição, dando conformidade aos modelos ulteriores da prática da Capoeira.



Em 1930, o Mestre Bimba, exímio Capoeirista baiano, filho de um negro campeão de Batuque, cria a Luta Física Regional Baiana, que posteriormente seria Conhecida como a Capoeira Regional. Incorporando golpes de outras lutas na Capoeira, tornando-a mais objetiva, o Mestre Bimba buscava a ampliação do apelo da Capoeira para as classes médias e posteriormente, com o apoio do então Governador Juracy Magalhães, consegue a autorização para que a Capoeira pudesse ser praticada, conquanto que em recinto fechado e devidamente registrada na delegacia de jogos e costumes do município.
A Criação da Regional pelo mestre Bimba, marca a divisão da Capoeira, entre a sua Capoeira Regional, e a Capoeira Angola, ou Capoeira Tradicional, termo que passou a ser usado para referir-se á capoeira antiga, praticada pelas camadas populares da Bahia, que teve no Mestre Pastinha, o seu Mestre mais destacado. Poeta, pintor, filósofo popular, o Mestre Pastinha foi, historicamente, um dos principais responsáveis pela permanência da Capoeira Angola até os dias atuais, no antagonismo da proeminência comercial da Capoeira Regional, e do refortalecimento da Angola, a partir dos anos oitenta. É no contexto dessa divisão, que partimos com a nossa análise sobre a musicalidade e a importância da música na Capoeira Angola.

-A Roda da Capoeira: Ambiente Musical

Conquanto não pretendamos aqui, nos aprofundar nas diferenças existentes entre a Capoeira Regional e a Angola, devemos citar, para um melhor entendimento do tema aqui trabalhado, uma concepção básica dessa diferença: enquanto a Capoeira regional, se pretende esportiva(no contexto competitivo-desportivo), objetiva, e (a partir dos anos 70, influenciada pela Capoeira Regional adaptada no Rio de Janeiro), acrobática, a Capoeira Angola se pretende Expressão Cultural, jogo, e nesse sentido, lúdica, dialógica, envolvente e não competitiva, e essas diferenças são as que permeiam ambos os discursos sociais, seja dos assim chamados angoleiros, ou dos regionais.
Na Capoeira Angola, o espaço de sua execução, é a Roda. É na roda em que se pratica a Capoeira treinada nas academias de Capoeira Angola, é na roda que se vivencia essa Capoeira, como prática vívida da cultura, como experiência coletiva e interativa, e a música, é o elo principal de ligação entre todos os presentes na Roda. E o que é a roda, senão o círculo de pessoas que se forma ao redor dos jogadores que pelejam ao som e ao ritmo dos instrumentos? Na Capoeira Angola, é a Música quem inicia o jogo. Temos a Bateria da capoeira Angola: Três Berimbaus, um ou dois pandeiros, um reco-reco, um agogô, um Atabaque.
O Berimbau, é instrumento trazido pelos negros angolanos ao Brasil, utilizado tradicionalmente em rituais religiosos, na África, por vendedores ambulantes como forma de chamar clientes e incorporado à Capoeira no Brasil, “m´birimbau”, do Quimbundo, instrumento percussivo formado por uma vara de Biriba à qual está amarrada uma Cabaça que atua como caixa de reverberação, presa a um arame de aço na qual uma baqueta é percutida. São três os berimbaus: o Gunga, que tem a sonoridade mais grave, uma espécie de contra-baixo da Capoeira, que pontua e comanda a Roda, dando o seu ritmo. È o Gunga quem abre a Roda e quem a termina, seguido pelo berimbau Médio, de som menos grave e que reforça o Gunga, e finalmente o Viola, ou Violinha, que é o Berimbau solo, que faz as viradas e os improvisos característicos. Cada berimbau toca um toque diferente, que se interpenetram e se complementam, formando um quadro harmônico perfeito. O Gunga toca o Toque de Angola, o Médio toca o São bento pequeno, o Viola toca o São Bento Grande, estando, no entanto, livre para os improvisos possíveis e infinitamente variados.
Os pandeiros marcam o ritmo do Ijexá, podendo realizar algumas viradas e improvisos, sem no entanto poder ultrapassar a altura ou destaque dos berimbaus. Reputasse ao pandeiro uma origem árabe, a partir da qual teria sido trazido ao Brasil pelos Portugueses. No entanto, se considerarmos que eram africanos do norte, os muçulmanos que ocuparam por vários séculos a península Ibérica, fundamentando uma inestimável contribuição científica e cultural aos povos latinos, podemos questionar essa origem, que no entanto, não pode ainda ser determinada. O Reco-Reco, e o agogô, assim como o atabaque, são instrumentos posteriormente incorporados à Capoeira, já no contexto das academias, e têm todos origens africanas claramente reconhecidas, por sua importância e presença em praticamente todas as manifestações musicais do continente. Na Capoeira, entretanto, estão sujeitos à predominância do berimbau, que exerce a mesma função sonora, que o atabaque exerce no Candomblé.
A Música começa antes que o jogo. A roda é aberta pelo Gunga, seguido sucessivamente pelos demais instrumentos. A Roda de capoeira é um pequeno mundo, no qual se reflete o mundo grande, nela se aprende a viver, se apreendem os códigos da comunidade e se pratica uma vivência que é antes de tudo, conflituosa, mas também flexível, passível de ser flexibilizada, pelo exercício do Axé, que é a força vital, fluente na Roda, dos instrumentos pra os jogadores, dos jogadores para o público, do público para a roda, fechando-se um círculo energético conduzido pela música.
Segue-se o ritual: com os instrumentos tocando lentamente, o Tocador do Gunga, ao grito de Iê!, começa uma Ladainha, que é como uma pequena história, uma oração, uma fábula, uma lenda, ou mesmo um desafio, seja de auto-promoção, ou de escárnio aos demais ou a alguém especificamente:
“ Iê!,
Maior é Deus,
Pequeno Sou Eu,
O que Eu tenho,
Foi Deus quem me deu,
Na roda da Capoeira,
Grande e pequeno sou Eu,
Camaradinho...”
( Do Mestre Pastinha, devoção e reconhecimento)

Ou fato Histórico, como a chegada de um navio Carioca no cais da Bahia na década de 10 do século XX, narrando as confusões conseqüentes:
“Iê!
Torpedeiro encouraçado,
Novidade na Bahia,
Marinheiro absoluto, chegou pintando arrelia,
Prenderam Pedro Mineiro,
Dentro da Secretaria,
Para dar depoimento, daquilo que não sabia,
Se eu fosse governador, manobrasse a Bahia,
Isso que tu ta fazendo, comigo tu não fazia,
Camaradinho...”

Ou maldizer de amor:

“ Iê!
Ela tem dente de ouro, fui eu quem mandei botar,
Vou jogar nela uma praga,
Pra esse dente se quebrar...”

Ou de rebeldia:
“ A Marinha é de guerra,
O exército é de campanha,
O bombeiro apaga o fogo,
E a polícia é quem apanha,
Camaradinho...”

Entre outras ladainhas, exprimem o cotidiano dos capoeiristas, homens negros empregados da estiva, trapicheiros, marceneiros, guardas-civis, carroceiros, calafates, entre tantas outras sub-profissões que proliferavam na Bahia da época.
Prosseguindo a roda, entram as louvações, que é a série de vivas dadas pelo cantador, respondido em coro pelo público e pelos jogadores, que nesse momento se benzem, marcam no chão os seus símbolos de proteção, fazem suas rezas e se preparam para o jogo, sempre de olho no outro Capoeirista que está à sua frente.:
“Iê, viva meu Deus!
Iê viva meu Mestre,
Iê, viva a Bahia,
Iê, faca de Ponta,
Iê, água de lavar,
Ìê, vamos embora,
Iê, Volta do mundo,
Iê, é hora é hora...”

Posteriormente, o cantador inicia o canto de um corrido, que são as músicas de repetição coral, na qual, ele canta um trecho referencial, ou um improviso, e a platéia responde o mesmo monótono coro, dando a estrutura musical da roda, e somente então, é que os jogadores começam a jogar, com toda a roda integrada, e o jogo corporal de perguntas e respostas dos capoeiristas, é como o jogo do cantador e do público:
“ Camungerê, como vai como está? ( Cantador)
Camungerê! (Público)
Eu Vou bem de saúde!
Camungerê!
Para mim é um prazer!
Camungerê!
Como vai Como está?”
Que é um corrido de boas vindas, boa recepção para os amigos, ou para alguém que há muito não se via. Canta-se ainda ao se chegar em roda de outros Capoeiristas que não se é de costume visitar.
Os corridos carregam significados excusos, dúbios, avisos, provocações e armadilhas, os quais somente o iniciado pode subentender, corridos aparentemente inocentes, podem significar o apelo do tocador à agressão física:
“ A Canoa virou, marinheiro, no fundo do mar, tem dinheiro, (cantador)
A Canoa virou, a canoa virou, marinheiro ( Público)
A Canoa virou, marinheiro, no fundo do mar o angoleiro,
A Canoa Virou, a canoa virou, marinheiro...”
Outros podem mesmo trazer referências históricas da violência:
“ quebra micomugê! ( Cantador)
Ê Macá! ( Público)
Quebra gêcomumi,
Ê Macá,
Quebra micomugê!”
Canção de trabalho dos antigos escravos, que ao pilar o milho para o cuzcuz, disfarçavam na música, o ódio aos opressores: ( quebra gente como milho, macaco, quebra milho como gente!). Outras, não tão disfarçadas, podem no entanto confundir os desavisados:

“ Meu facão bateu embaixo!(Cantador)
A Bananeira Caiu! (Público)
Meu facão bateu embaixo!
A Bananeira Caiu!
Cai, cai, cai bananeira,
A Bananeira Caiu!”

Os corridos podem trazer em seus improvisos também, provocações, como frases soltas aparentemente insignificantes, como: “quando eu saio você entra, quando eu entro você sai!”, ou: “ vou dizer pra sua mulher, Capoeira te venceu, Paraná!”.

O fato, é que nada na música da roda da capoeira, pode passar despercebido ao jogador, e têm-se por bom Capoeirista, aquele que consegue realizar um bom jogo, ao mesmo tempo em que percebe todas as mensagens e ordens contidas nas músicas, o Capoeirista que joga no ritmo proposto pelo berimbau, sem se acelerar demasiadamente ou precipitar-se. Alguns toques do berimbau, podem também representar mensagens, como toque chamado: “ apanha laranja no chão tico-tico”, que propõe um jogo mais baixo, no chão, no qual os dois jogadores disputam o dinheiro jogado pelo público, que, enrolado em um lenço, somente pode ser pego com a boca, sem a utilização das mãos, e sem que o jogo se interrompa, o Jogo de Dentro, que propõe um jogo mais próximo, onde os capoeiristas quase se encostam, ou o toque de cavalaria, que era o toque usado nos tempos das perseguições à capoeira, onde o berimbau avisava aos capoeristas da aproximação da polícia, ou de inimigos.


Conclusão- música integral, o paradigma capoeirístico.



A leveza do jogo da Capoeira Angola, o seu não tocar constante, sua circularidade contínua, o jogo incessante de perguntas e respostas, que nos remete à idéia de homens e mulheres sem ossos e sem articulações, de tão flexíveis, o riso, a brincadeira, a molecagem, que parecem nos remeter a um mundo puramente lúdico, onde as regras não existem, escondem, como podemos ver, todo um mundo de disciplina e de significados latentes, que somente ao capoeirista bem treinado compete perceber. À leveza e à liberdade, precede a disciplina do treino, o amor pela técnica, ou no mínimo, a sistematização da brincadeira, estando sempre presente nesse contexto, o fundo etno-social do qual a Capoeira é oriunda, o contexto afro-brasileiro-escravagista-quilombola.
Desse contexto, o nosso artigo se propôs a traduzir, de forma introdutória, alguns elementos para a compreensão da importância da música na Roda de Capoeira Angola, enquanto expressão integral e interartística, que agrega expressões e capacidades diversas, que não podem ser apreendidos, quando desambientalizadas, e cuja percepção, em nome de uma verdade artística e cultural eurocêntrica monolítica, são despercebidos de sua importância e de sua complexidade, bem como do seu potencial educativo e formativo.
Por fim, é claro, uma ladainha:

Iê!
Não estudei pra ser jurista,
Não estudei pra ser doutor,
Estudei a Capoeira,
Pra bater no inspetor, camaradinha
Viva, meu Deus...




Bibliografia

• Galo já cantou
Autor: Nestor Capoeira Arte hoje editora -1985
• Capoeira Angola
Autor: Mestre Pastinha Fundação Cultural da Bahia -1998
• Capoeira - Angola - Ensaio Sócio - Etno Gráfico
Autor: Waldoloir Rego Editora Itapuã - Coleção Baiana -1968
• A negrada instituição - Os capoeira no Rio de Janeiro
Autor: Carlos Eugênio Líbano Soares Editora: Access -1994
• Bimba é Bamba (A capoeira no ringue)
Autor: Frederico José de Abreu P e A Gráfica e Editora Salvador / Bahia -1999 Instituto Jair Moura

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Marcus Garvey - Booker T Wahington e W.E.Dubois

Booker T. Washington, W.E. Dubois e Marcus Mosiah Garvey, Três paradigmas afro-americanos para uma análise afro-brasileira.


Por Fábio Mandingo





Apresentação



O presente momento vivido pela sociedade brasileira, no que diz respeito ao discurso e à prática oficiais e civis sobre a questão racial, assemelha-se em muitos aspectos, à situação experienciada nos Estados Unidos da América durante o período imediatamente posterior à Guerra Civil e à Abolição da Escravidão, e que se estende até os anos que se seguiram à 1ª Guerra Mundial, quando se consolidaram as leis referentes à segregação racial em grande parte do país, marcando a opção do estado americano por manter um regime político de discriminação e supremacismo branco oficialmente referendado, dando fim a uma época de efervescência política e cultural no qual o discurso igualitário reminiscente da guerra civil, possibilitou ao negro americano o vislumbre de uma sociedade onde os caminhos da comunidade pudesse ser determinado por sua competência e por seus próprios anseios.

Com pelo menos 130 anos de atraso, somente agora a sociedade e o estado brasileiro começam a discutir a implementação de políticas específicas voltadas para a integração do povo negro à sociedade, partindo da compreensão de um processo histórico marcado pelo prejuízo e desfavorecimento conseqüentes do passado colonial escravista, propondo-se a buscar meios para minorar os efeitos negativos dos 350 anos de exploração econômica escravocrata e da marginalização posterior a uma abolição desassistida.

De modo semelhante ao período americano citado, podemos atualmente assistir à florescência de diversos grupos e tendências de movimentos negros no Brasil, que se entendem aptos para atuarem enquanto condutores deste processo de transformação, de modo a garantir a compreensão do contingente populacional negro como portador de uma identidade histórica-cultural, ressaltando a importância de sua contribuição pra a formação do país. Homens e mulheres, jovens e velhos negros, unem-se no esforço de elaborar as políticas capazes de capitanear a construção de uma sociedade racialmente includente,fortalecida pelo respeito à diversidade étnica, atenta à riqueza das diferentes contribuições fornecidas pelos grupos raciais que formam a sua população.

Elaboração de um novo tempo, ou a intensificação de antagonismos que precedem as épocas totalitárias? Tendo em vista que toda a busca por reformas sérias e reais conduzem à explicitação das contradições imanentes à sociedade capitalista, demandando daqueles que são privilegiados por sua estrutura uma reação proporcional à força dos anseios populares, ficamos atentos aos ensinamentos da história, que nos mostra a tendência à manutenção das estruturas de dominação constituídas, e a busca por eliminação, adaptação e/ou estagnação das forças transformadoras surgidas no ventre desta sociedade.

Nesse sentido, o presente trabalho visa apresentar ( além de breves biografias coligidas a partir das obras referenciais) as proposições de três importantes líderes afro-americanos, Booker T. Washington, W.E. Dubois e Marcus Mosiah Garvey, elaboradas no contexto do período pós-abolição e concernentes a três diferentes vias de integração do povo negro na sociedade americana, examinar o contexto em que essas proposições foram colocadas, suas repercussões e conseqüências, bem como, abrir a possibilidade de uma análise comparativa à atual realidade racial brasileira.



Sonhos, Ilusões e Frustrações.


A Guerra Civil Norte-Americana, que durou de 1860 a 1865, colocou frente à frente no campo de batalha, duas concepções políticas antagônicas e aparentemente inconciliáveis. Para além do caráter puramente bélico e de disputa por hegemonia, próprios de qualquer guerra, a guerra civil americana pretendia encarnar o embate entre eras históricas opostas, representadas na estagnação conservadora do sul escravocrata, confrontada com a pressão industrializante do norte e suas tendências democratizantes, próprias das contradições intestinas de um capitalismo nacionalista forte, em processo de implementação.

A sociedade sulista se assentava na imutabilidade de um sistema agrário de grandes propriedades, no poder patriarcal extremo, e na mão-de-obra escrava. Os estados algodoeiros do sul, foram os que mais receberam africanos escravizados durante o período do tráfico, formando o que se chamou de o “ Cinturão Negro” , em referência ao grande contingente populacional africano. Essa peculiaridade étnica vai determinar todas as facetas dessa sociedade, preocupada em preservar o status quo de supremacismo branco inquestionável, que se reflete como pressão, através de todas as inter-relações sociais. A mão-de-obra negra foi a principal geradora da riqueza do sul, pilar sobre o qual as famílias brancas tradicionais mantiveram um padrão de vida senhorial, dedicado à política e ao ardor religioso, bem como, a reforçar todo o aparato ideológico, responsável pela justificação da hierarquia racial, além de introjetar a “normalização” dessa hierarquia. O discurso oficial sulista, referendava a perfeição de sua imobilidade e a segurança de uma sociedade na qual as coisas ” estavam em seus devidos lugares”.

A modernização industrial em desenvolvimento no norte ( e com pretensões de se estender por toda a União), representava o esboroamento desse contexto semi-feudal, por torná-lo obsoleto, incompatível com as imposições de um sistema capitalista incipiente, que previa a introdução do regime de trabalho assalariado, a formação de um mercado consumidor, o liberalismo econômico e a conseqüente mercantilização da esfera política, direcionada agora, mais por interesses financeiros que por princípios morais. O capitalismo nortista trazia ainda em seu bojo, os germes das reivindicações populares gestadas no seio de uma classe operária em formação e intensificadas dentro do contexto urbano, impensáveis e inaceitáveis para os aristocratas brancos do sul.1, Socialismo, direitos da mulher, sindicatos, igualdade racial, democracia, eram assuntos tabu, a respeito dos quais o sul idílico deveria ser protegido, posto que representariam a ruína da família tradicional protestante, de seus valores e de sua organização social.

Em outra frente, norte e sul travavam um embate político e econômico relativo à hegemonia sobre as novas terras conquistadas do México no Oeste, e o modelo de ocupação a ser implantado: O agrário escravocrata, ou o industrial capitalista. Além disso, os estados do norte tencionavam impor uma política protecionista responsável por pesadas tarifas alfandegárias contra os produtos industrializados ingleses, de modo a favorecer a indústria nacional. Para os produtores de algodão, no entanto, a relação comercial com a Inglaterra, era extremamente favorável, sendo que os ingleses representavam o seu maior mercado consumidor, e perdê-lo era um risco que não estavam interessados em correr.

Entre todos esses fatores, a abolição do trabalho escravo era o ponto em que esse antagonismo recrudescia mais criticamente. A escravidão era a base do sul agrário, mas sua extinção seria a base da implementação do capitalismo industrial, e nesse sentido, o discurso referente à abolição, tornou-se a principal bandeira dos estados do norte, respaldados pela atuação de intelectuais, artistas, humanistas e políticos abolicionistas. Os sulistas, por seu lado, acusavam os do norte de tentarem solapar as bases da sua sociedade e, sustentando o discurso sobre a necessidade da manutenção do supremacismo branco2, buscavam garantir politicamente a continuidade do regime de escravização negra. Calorosos debates eram travados no campo intelectual,numerosas obras foram escritas tendo na libertação dos escravizados o seu tema. Muitos foram também os negros alforriados que contribuíram ativamente com o movimento abolicionista.

Em 1860, a Guerra se inicia, quando os estados do sul se separam da União, e em 1862, o Presidente Abraham Lincoln assina o Abolition Act, a libertação dos cativos do sul. Essa medida teve como pano de fundo, a incorporação dos negros nos exércitos da União, que até então vinham sendo batidos pelas tropas confederadas. A entrada dos ex-cativos na guerra vai determinar a mudança nesse quadro, e a vitória do norte em 1865. Os sulistas sofreram derrotas esmagadoras e tiveram o sistema escravista desestruturado, além da imposição de aceitar a legislação nortista, relativa não somente às questões raciais, mas à organização política e à economia, agora abertas ao poder do capital.



A “Reconstrução”

“40 Acres de terra e uma mula”, era a promessa do governo para cada família negra do sul. O período imediatamente posterior à guerra, conhecido como “reconstrução americana”, que vai de 1865 a mais ou menos 1880, com o início do processo de reforma agrária e democratização política, e, no sentido contrário, de 1880 até 1920, quando as leis segregacionistas do sul, baseadas no conceito de “diferentes, mas iguais” são nacionalmente referendadas, jogando por terra o sonho dos dez milhões de americanos negros de construir uma nação sobre um projeto de igualdade real, de direitos e oportunidades, é o período concernente à nossa pesquisa. È durante esse período que os afro-americanos vão atuar de forma mais marcante, no que se refere a elaborar proposições e movimentos voltados para a integração do negro na sociedade americana, seja a partir de um ponto de vista de políticas públicas seja a partir da auto-determinação enquanto comunidade étnica específica.



Booker T. Washington, W.E Dubois e Marcus Mosiah Garvey, são três dos mais destacados nomes desse período turbulento, no qual a manipulação política e a ação terrorista de organizações racistas, como a Klu Klux Klan, boicotaram e minaram por dentro o projeto de “reconstrução”, consolidando o regime de segregação racial que perdurou no sul até meados dos anos sessenta do séc XX, quando os movimentos por direitos civis conseguiram derrubá-lo.


O Pioneirismo Americano


Um ponto fundamental no processo de “reconstrução” do sul, e que serve como objeto importante para reflexão, no quadro da problemática abordada, é o pioneirismo americano no tocante à discussão de projetos de políticas públicas oficiais direcionadas para a integração da população negra na sua sociedade, em se tratando de um país multirracial. Independendo de uma análise crítica aprofundada do teor dessa discussão, ou mesmo de um questionamento quanto a sua condução e tendências, o fato a ser ressaltado é o de que o recém formado estado americano viu-se na contingência de determinar políticas oficiais para a integração do povo negro americano, incluindo nessa discussão, pontos cruciais, como reforma agrária, emprego, educação e representação política. A admissão estatal, do contingente populacional negro enquanto organismo diferenciado política e historicamente no contexto nacional, a compreensão do processo de escravização enquanto fator de degradação econômica e social, reforçada pelo discurso democratizante e igualitário da recente constituição americana e da própria guerra civil em si, criaram o campo no qual projetos de discriminação positiva puderam ser vistos como veículos óbvios para a inserção social dos negros, e o fato de equipararem-se, em quantidade, tanto os projetos oficiais para essa inserção, quanto aqueles gerados pela própria comunidade ( refiro-me à criação de escolas, grupos de mulheres, iniciativas econômicas coletivas, etc.), remarca a postura assumida por essa comunidade, de não entender-se enquanto mero objeto social, mas sim sujeitos de seus próprios caminhos, postura essa que vai dar a tônica do povo afro-americano, mesmo nos momentos em que o aparato legal do estado volta-se com a determinação de Paralisar os seus movimentos.

Ainda durante a própria guerra civil3 o “ Freeman´s Bureau” , surge como via estatal para a integração dos negros recém libertados e seguindo o Freeman´s Bureau, diversas outras agências governamentais foram instituídas com esse objetivo, visando coordenar o processo de reconstrução, abertura de escolas, distribuição de terras, financiamento e crédito, bem como processos eleitorais e judiciais. Em 186* surge a primeira universidade para negros, em 186* os primeiros hospitais. As obras de Washington, Dubois e Garvey, vão se situar justamente no início, meio e fim, respectivamente, dessa era de explosão de perspectivas, de ilusões, de sonhos e de frustrações. São três modelos diferenciados para o posicionamento e conduta do povo negro perante a sociedade americana (e vice-versa), construídos por três homens negros imbuídos no compromisso/missão de guiar o seu povo desde os grilhões da escravização até o conforto de uma cidadania plena. Três projetos historicamente entrelaçados e complementares, mas ao mesmo tempo antagônicos e em permanente conflito, que através dos tempos e ainda hoje, nos oferecem subsídios para enriquecer e facilitar discussões referentes às políticas raciais.



Booker T. Washington


O homem que mais tarde viria a ser conhecido como “o grande conciliador”, nasceu em 1856 em uma plantação de tabaco situada na Virgínia, ainda sob o regime de escravidão. Era filho de uma cozinheira negra com um agregado branco de uma das fazendas da cercania. Washington começou a estudar, antes mesmo que a proclamação da emancipação tornasse legal a educação para negros, carregando livros dos filhos do fazendeiro. Após a guerra, sua família muda-se para West Virgínia, onde trabalha e estuda. Aos 16 anos, acorre ao Hampton Institute, uma nova escola para estudantes negros. Trabalhando para pagar os estudos, Booker T. torna-se instrutor do Hampton Institute e depois de alguns anos, funda o seu próprio instituto educacional, o Tuskgee Institute, no Alabama, sendo seu diretor e principal mentor, transformando-se em um dos mais notáveis homens negros do seu tempo, além de educador respeitado. Foi o primeiro homem negro convidado para tomar um chá na casa branca e a ser recebido por um presidente (Theodore Roosevelt). Por conta de um discurso conservador e acomodado relativo à questão racial, Washington recebeu substancial suporte de brancos ricos e do próprio governo para o seu instituto, visto como fórmula ideal de resolução para a problemática étnica latente no sul dos Estados Unidos. Falece em 1915, aos 59 anos, alguns meses após liderar uma campanha de boicote contra o filme de W. Griffti “O Nascimento de Uma Nação”4.

Entre os três paradigmas abordados, a proposição de Booker T. Washington para a inclusão social do negro, aparece como sendo a mais moderada, e diria-se mesmo, a mais retrógrada, tendo em vista o grau de apelo democrático contido no discurso político da época. De todo modo, a posição de Washington é marcante na sua objetividade e no seu pragmatismo, mostrando-se viável e eficaz enquanto solução para uma delicada situação de impasse político e racial, onde os atos necessariamente tinham que ser pesados de acordo com suas conseqüências.

Para Booker T. Washington, não havia sentido em uma luta do povo negro por questões como igualdade racial, direitos eleitorais e civis, ou educação superior. Seus esforços deveriam estar direcionados ao resgate moral, e à emancipação econômica através do trabalho duro e da educação técnica profissionalizante. Segundo Washington, a formação universitária superior era completamente inútil, em se tratando de uma comunidade recém saída da escravidão, afundada na miséria financeira, no ócio, na marginalidade, no alcoolismo e na prostituição. Direitos de votar e de ser votado tornavam-se ridículos quando relativo a uma população afundada mortalmente em dívidas nos armazéns de alimentos e agiotas em geral, que emprestavam dinheiro e vendiam aos negros baseados nos dividendos das colheitas futuras, criando uma nova relação de trabalho sem renda, similar ao escravismo. No que se refere à igualdade racial, acreditava que: “em todas as coisas meramente sociais, podemos ser tão separados como os dedos das mãos, ainda que unidos em todas as coisas essenciais para o progresso mútuo”5, como declarou no discurso de 1895 “ O Compromisso de Atlanta”, feito para uma audiência bi-racial, no qual expõe os estamentos filosóficos do seu projeto.

Obviamente, essas proposições foram aclamadas como sendo a solução ideal para o impasse sulista. Do ponto de vista da sociedade branca do sul, extremamente pressionada pelo liberalismo sócio-econômico nortista e interiormente pela intensa luta dos negros por igualdade de direitos, nem eles mesmos poderiam imaginar uma saída mais apropriada. O posicionamento de Washington, ao mesmo tempo em que se adequava às necessidades da industrialização incipiente, trazia um modelo de integração subalterna, que mantinha intocadas as estruturas da hierarquia racial sulista, abrindo as portas para o progresso sem, no entanto, esboçar questionamentos referentes ao supremacismo branco, enfim, mantendo as coisas em seus devidos lugares!

O Instituto Tuskgee foi o seu laboratório, onde colocou em prática suas propostas educacionais, obtendo resultados consideráveis e granjeando a admiração de muitos brancos nortistas, impressionados com sua política de distanciamento da questão racial, sendo que milionários como John Rockfeller e Andrew Carnegie eram doadores freqüentes do Instituto, que em 1905: “Era uma instituição com 8 mil estudantes vindos de 19 estados, com setenta e nove instrutores, 14 mil acres de terra e trinta edifícios, entre grande e pequenos, uma propriedade de U$ 280.000”6. Apesar da sua postura “conciliadora”, Washington não deixou de ser alvo de críticas dos movimentos negros, que o viam como uma espécie de traidor, por desviar a comunidade das lutas por direitos civis. Por outro lado, na medida em que os brancos recuperavam o controle das instituições sulistas, conquistando o respaldo legal para o recrudescimento das tendências segregacionistas, até mesmo um modelo “ conciliador” de integração, passava a ser desinteressante, posto que antagônico ao restabelecimento da linha racial no tocante às relações sociais, contrário a qualquer tipo de autonomia por parte dos negros. Além disso, a dependência de suporte financeiro para a manutenção do seu projeto, determinou a debilidade do mesmo, no momento em que muitos financiamentos foram suspensos, por conta dos re-arranjamentos políticos e econômicos entre o norte e a “nova aristocracia industrial sulista”. Em seus últimos anos, foi testemunha do sucateamento da sua instituição, o que no entanto, não foi capaz de obliterar a sua importância enquanto projeto de emancipação econômica para o povo negro, nem o seu alcance como modelo prático sua construção.






W.E.B.Dubois


Em 1903, Dubois compõe a abertura do seu livro, “ As Almas da Gente Negra”, afirmando que “ O problema crucial do séc XX, será o problema racial”. Se enquanto estudante, intelectual, educador e líder político, devotou todos os seus dias em prol do fortalecimento do povo negro, empenhando-se completamente na luta por seus direitos, na América e mesmo internacionalmente, ressaltando as raízes racialmente determinadas do quadro de prejuízo social em que se encontravam as populações de cor, Dubois foi, acima de tudo, um democrata, e nesse sentido, um racial democrata. O fio condutor e base da sua luta racial, não foi mais que uma luta por integração da população negra na sociedade americana, e todos os seus esforços foram direcionados para que essa integração se desse da forma mais equânime possível, alçando o homem negro à categoria de cidadão pleno, em igualdade de direitos e deveres com todos os demais componentes do organismo social norte-americano. De todo modo, Dubois não se privou, em sua obra, do exercício da teorização sobre mecanismos que pudessem conduzir o povo negro, desde a escravidão à cidadania, através de políticas públicas voltadas para a sua inclusão social, valendo-se ressaltar, a constância da idéia de cidadania plena7, presente mesmo na construção desses mecanismos de discriminação positiva.

Sua obra é um marco no que diz respeito à história e à sociologia do negro na América, tendo sido um dos primeiros autores a lançar um olhar científico e acadêmico sobre temáticas concernentes à própria história americana, como o tráfico negreiro, tema da sua monografia para Harvard, e a reconstrução do Sul, no pós-guerra. Foi um dos educadores mais respeitados do seu tempo, tendo alcançado reconhecimento internacional. Orador eloqüente, capaz de angariar as simpatias das multidões, articulador político, poeta e pensador, manteve por toda a vida a crença de que a absorção do povo negro na nação americana, tornaria-a definitivamente uma das mais poderosas do mundo.

W.E.Dubois, nasceu em uma pequena vila em Massachussets, no ano de 1868. Estudou na Fisk University, indo terminar sua graduação em Harvard, tendo sido o primeiro afro-americano a receber o título de PHD da respeitada universidade francesa. Tornou-se professor da Atlanta University em 1897, e em 1903 escreveu “As Almas da Gente Negra”, sua principal obra e um dos mais importantes livros já escritos sobre a realidade do negro na América. “Souls of Black Folks”, conduz o leitor a um mergulho profundo na psicologia de um povo, cuja própria personalidade encontrava-se cingida pelo choque entre a sua auto-percepção e a negação imposta pela escravidão e o supremacismo branco. História, sociologia, cultura, educação, política, cada um dos capítulos que compõem o livro, apresentam uma abordagem acadêmica e documental das facetas da experiência afro nos Estados Unidos, baseada principalmente, no entanto, na sua vivência enquanto educador. Analisa as políticas utilizadas para a reconstrução sulista desde o início da Guerra Civil, criticando ferrenhamente a política de acomodação e subalternidade de Booker T. Washington, ao mesmo tempo em que, no livro, expõe as premissas do seu projeto para o negro e sua inserção.

Como líder político, Dubois organizou o 1º Congresso Panafricanista Internacional em 1900, e em 1905 foi um dos fundadores do “Niagara Movement”, que mais tarde daria origem ao NAACP, um dos principais grupos representantes da comunidade negra americana durante todo o séc XX e até os dias de hoje. Depois de várias décadas de militância, Dubois mudou-se para o Gana, na áfrica, onde pretendia finalizar a sua obra magna, uma enciclopédia sobre a história da África. Dubois faleceu sobre o solo africano em 1963, no mesmo dia em que 250.000 pessoas marchavam sobre Washington D.C., com Martim Luther King JR., durante a luta por direitos civis.

W.E.Dubois, desejou abolir legalmente a linha racial enquanto determinante sócio-econômico nos Estados Unidos da América, e acreditava ser dever do próprio estado americano, criar os meios para que os afro-descendentes fossem integrados à sociedade sem nenhuma distinção ou estigma, a partir de políticas públicas com esse fim, baseando sua luta em três pontos sobre os quais era irredutível:o direito de voto, a igualdade civil e o direito de educação superior de acordo com as capacidades dos indivíduos. Discordou publicamente do posicionamento conciliador de Booker T. Washington, em propor uma educação industrial para os negros e em manter intacta a estrutura racista da sociedade do sul8. Segundo Dubois, essa postura condenaria o seu povo a uma eterna condição de inferioridade civil e alienação política, dando na mão dos brancos o papel de condutores dos seus destinos e responsáveis por tomarem decisões em seu lugar. Seu sonho era ver o negro integrado como legítimo cidadão americano, e o caminho através do qual vislumbrava esse objetivo, era a luta por poder político pelas vias democráticas da representação eletiva, do voto e do direito de legislar. Os jovens negros deveriam ser preparados para uma educação superior, para que pudessem disputar em pé de igualdade os postos governamentais e cargos de proeminência no cenário político nacional. Ainda em “As Almas da Gente Negra”, Dubois expõe sua teoria batizada de “Talented Tenth”, segundo a qual os povos em geral, possuem um décimo entre os seus indivíduos, que pelo seu talento nato, são capazes, a partir das condições apropriadas, de conduzir positivamente os seus demais concidadãos. Contextualizando, Dubois advoga que se a décima parte talentosa do povo negro pudesse ser plenamente preparada através da mais refinada educação erudita, nas mais variadas áreas do conhecimento humano, seria o suficiente para que, de volta à comunidade, guiassem todos os outros homens e mulheres negro(a)s pelos caminhos do conhecimento e da “civilização”, tornando-os aptos para conviver com plenitude em um regime democrático, somando as suas potencialidades `as dos demais povos que compunham a nação.

Lutador abnegado durante toda a sua vida, podemos entender, no entanto, um certo teor de decepção quanto à “democracia americana”, contido na sua opção de alinhar-se, já em idade avançada, às fileiras do Partido Comunista dos Estados Unidos. Do mesmo modo, o auto-exílio na terra dos seus antepassados, aonde veio a passar os últimos anos da sua vida, não deixam de representar a confissão de um homem consciente de ter cumprido o seu papel em uma batalha árdua e exaustiva, digno merecedor da paz e do descanso de uma terra maternal, a Gana Independente governada por Kwame N´Krumah.

W.E. Dubois, como veremos adiante, homem proeminente no cenário político americano, possuiu também, obviamente, sua cota de críticos e opositores. No nosso projeto de estudo, Dubois está situado em uma posição chave, posto que sua vida e obra se interrelacionam conflituosamente, tanto com as de Booker T., quanto, posteriormente, com a de Marcus Mosiah Garvey, e é justamente esse tríplice conflito que vai nos proporcionar o entendimento dialético das três obras visibilizadas em seus diversos aspectos. No entanto, independente de qualquer novo ângulo de análise que o explicitamento dessas discordâncias possa nos conduzir, encontraremos as marcas de um homem brilhante e devotado ao ideal de progresso do seu povo, inevitavelmente presente em qualquer trabalho ou estudo que se arvore em focalizar os mais brilhantes representantes do povo negro no Séc XX.


Marcus Garvey


Marcus Mosiah Garvey Jr., nasceu em St. Ann Bay, Jamaica, em 17 de Agosto de 1887. Seu pai era um Mestre marceneiro que apesar de não possuir educação formal, possuía uma ampla biblioteca o que lhe proporcionou o prematuro contato com as letras. Garvey estudou na Escola Anglicana de Gramática, ainda em St Ann Bay, graduando-se também no Ginásio da Igreja da Inglaterra. Aos catorze anos, a instabilidade financeira de sua família obrigou-o a deixar a escola e tornar-se aprendiz das artes gráficas com seu avô, Mr. Burrowes. Nesse período Garvey pode utilizar-se da grande biblioteca do avô, alem de adquirir os conhecimentos jornalísticos que posteriormente seriam necessários para a preparação de jornais e revistas.

Aos vinte anos Garvey já se tornara mestre gráfico, mas o seu envolvimento com as greves por melhores salários durante a crise que assolou a Jamaica na primeira década do séc XX, custou-lhe o emprego e a carreira na Benjamim Company, em Kingston. De todo modo, esse momento, marca o início do reconhecimento de Marcus enquanto líder para os trabalhadores de descendência africana, e através da fundação de dois jornais o “Garvey’s Watchman” ( Observatório de Garvey) e o “ Our Own” ( Nosso Mesmo), consegue fundos para devotar todo o seu tempo para o trabalho editorial e a organização da população negra da Jamaica. Durante os anos da década de 10, Garvey viaja para a Costa Rica, Panamá, Nicarágua, Honduras, Colômbia e Venezuela, trabalhando como peão em fazendas de banana e cana de açúcar. Nessas viagens, testemunha a realidade de exploração, humilhação e miséria em que se encontravam os trabalhadores negros e o povo negro em geral em todo o Caribe e parte norte da América do Sul. Alem disso, privou contato com diversos homens que haviam sido soldados nos exércitos europeus durante as guerras colonialistas, após a Conferência de Berlin em 1884, quando uma Europa faminta por matérias primas africanas, dividiu o controle do continente negro entre Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Bélgica, Espanha e Portugal. Esses homens haviam sido recrutados pelos regimentos das Índias Ocidentais e utilizados para expulsar as populações nativas e roubar os seus territórios, e puderam relatar a Garvey a situação degradante vivenciada em África.

Em 1914, Garvey Funda a Universal Negro Improvement Association , UNIA ( Associação Universal para o Progresso Negro). Entidade que seria por toda a sua vida o carro chefe de suas atividades enquanto liderança negra. Durante os anos de 1912 e 1913, Garvey havia viajado para a Inglaterra, e durante essa estadia pôde aprofundar os seus conhecimentos sobre história da África Antiga, recursos naturais, política internacional e colonialismo, mantendo uma estreita relação com o intelectual egípcio Duse Mohamed Ali. Em 1915, a convite de Booker T. Washington, viaja para os Estados Unidos com o intuito de conhecer de perto o Instituto Tuskgee, fundado por Booker T., cujo modelo Garvey pensava em adaptar para a Jamaica. No entanto, Washington viria a falecer em Novembro de 1915 e Garvey somente consegue chegar aos Estados Unidos em Marco de 1916. Após alguns meses de contato, Garvey decepciona-se com as lideranças negras norte-americanas e começa a viajar por todos os estados, palestrando, discursando e fundando sedes da UNIA. Essas sedes, chamadas de “salas da Liberdade”, eram espaços pra encontros dominicais, aulas, reuniões políticas, shows, festas, distribuição de alimentos e caridade aos sem teto. Em 1919, a Unia funda a Black Star Line Company, uma frota de navios de transporte coletivo interamericano, em resposta às leis de segregação e aos maus tratos nos navios convencionais. Em 1920, organiza a convenção Internacional de Pessoas Negras no Mundo, realizada em Nova York, com o tema “África Para os Africanos”, contando com a participação de milhares de representantes do povo negro.

Entre outras coisas, a UNIA foi responsável pela fundação da “Corporação de Empresas Negras” em 1919, com o intuito de criar a semente de um capitalismo negro e garantir que empresas negras pudessem suprir todas as necessidades usuais da comunidade, como lanchonetes, lavanderias, rouparias, publicações, etc. A corporação foi fundadora da primeira fábrica de bonecas negras que se tem noticia. Em 1920, o conselho executivo da UNIA, debruçou-se também sobre a idéia de um projeto de repatriação de negros africanos para a África, projeto que não foi à frente devido a pressão exercida pelo estado americano sobre o governo da Libéria, no sentido de impedir sua realização.

Obviamente, o projeto da UNIA e de Garvey, em sua essência, o soerguimento da raça negra enquanto poder político e econômico autônomo, sobre as bases de uma unidade cultural etnocêntrica e um discurso de nacionalismo africano, tornara-se uma pedra no sapato, não somente do governo dos Estados Unidos9, mas também das próprias lideranças negras americanas democratas e mesmo de esquerda, comprometidas com o discurso de integração e acomodação da população negra enquanto cidadãos americanos. Ainda mais se considerarmos que por volta de 1926, a UNIA era representada por 725 sedes nos Estados Unidos e por 271 outras através do mundo, incluindo algumas em solo africano totalizando mais que sete milhões de afiliados, que gerenciavam um patrimônio de vários milhares de dólares.

Foram justamente essas lideranças negras norte-americanas, principais responsáveis pela incansável campanha conduzida contra Garvey e UNIA, que reforçada pelo Governo Federal, culminaria com a prisão de Marcus Garvey em 1925 sob a acusação de fraude postal, e sua deportação em 1927, após dois anos e nove meses de cárcere. Garvey continuou, no entanto, com o seu trabalho na Jamaica e em outros países, até que um derrame cerebral, paralisou todo o lado direito de seu corpo em 1940. Garvey veio a falecer um mês depois, no dia 10 de junho de 1940.

“ Perguntei: Onde esta o governante negro, onde esta o seu rei e o seu reino?” “ O seu presidente, seu pais e seu embaixador?” “ Sua marinha, seu exercito, seu líder?” “ Não pude achá-los e então eu declarei: Eu ajudarei a fazê-lo!!”10

Marcus Mosiah Garvey, não tinha nada a ver com o sonho americano, e sua chegada aos Estados Unidos teve o efeito atordoante de um terremoto. Muito desse impacto se deve diretamente a força da sua personalidade, era um homem de ação, imbuído na missão de fazer o seu tempo. Um preto forte, retinto, acostumado a assumir o papel de liderança desde os catorze anos de idade, quando coordenava o trabalho de dezenas de homens adultos nas oficinas gráficas do Sr Burrowes. Garvey estava impressionado com o que vira em suas viagens pelo Caribe e América do Sul, e mais ainda com os relatos que ouvira durante sua estadia na Inglaterra, sobre a realidade do massacre colonial em África. Havia um sentimento de urgência em sua mente, responsável pelo contato com Booker T. Washington, cujo livro “Up From Slavery” inspirara em Garvey o desejo de implementar na Jamaica algo semelhante ao Tuskgee Institute. Foi o próprio Washington quem o convidou e financiou para que visitasse Tuskgee, mas quando Garvey desembarca nos Estados Unidos em março de 1916, já faziam vários meses que Washington falecera no inverno de 1915.

Marcus, no que tange ao nosso estudo, não representava nem a postura conciliadora de Booker T. Washington sulista, e nem o negro democrata integracionista encarnado por W. E. Dubois e o NAACP. Era fundamentalmente um homem negro do hemisfério sul, posteriormente compreendido como 3º mundo, região sobre a qual os Estados Unidos já ensaiavam a sua política de hegemonia imperialista, tendo se apossado militarmente da região onde fora construído o Canal do Panamá, em 1913, um ano após intervir na Nicarágua, em 1912. Os Estados Unidos ainda ocuparam o Haiti em 1915 e Santo Domingo em 1916, e, além disso, o exército americano apoiara as forças sul-africanas, no controle das áreas do sudoeste do continente.

Garvey não alimentava ilusões de que tal projeto político pudesse incluir em suas entranhas, vias para que o povo negro alcançasse o status de cidadania ou uma posição de isonomia social, a partir da qual pudesse desenvolver livremente o seu potencial, com direito à condução do seu próprio destino. Para ele, o homem branco nunca abriria mão de sua posição de privilégio. Acreditava que o povo negro deveria optar por construir uma relação de respeito através da conquista de poder, e de um poder direcionado, não para o direito de tornar-se branco dos raciais-democratas, mas para o direito de construir suas próprias estruturas, suas próprias nações, se necessário fosse, devendo-se ressaltar ser a idéia de retorno à África uma das temáticas recorrentes do discurso de Garvey, o que não o afastou, no entanto do exercício da construção do poder negro, onde quer que estivesse11. Para isso seria necessária, a estruturação de um movimento de capitalismo negro muito proximamente similar às organizações financeiras/comerciais que imperavam entre as comunidades italianas, irlandesas, alemães e judias, entre outras, e que iriam se tornar o modelo das relações raciais na América. Esse modelo estabelece um determinante racial para as relações entre investimento-produção-comércio-emprego-consumo, que possibilita a circulação de renda e lucro dentro da própria comunidade, apta para posteriormente reinvestir esse lucro, gerando melhorias coletivas, além de incrementar a unidade cultural e os laços de solidariedade entre determinado povo.

A poderosa oratória do líder jamaicano atraía aos milhares os negros americanos que fugiam em massa da nova onda racista que assolava o Sul, bem como os negros do Norte, cada vez mais desesperados de que conseguiriam conquistar desenvolvimento através de políticas parlamentares, em um regime marcado pela corrupção e pelo supremacismo branco. Todos estavam eletrizados com o discurso do homem que bradava para as multidões: “O novo negro não tem medo!, “África para os Africanos!”, Um povo, uma missão, um destino!”, “Erga sua poderosa raça!” Garvey foi um dos principais precursores e divulgadores do nacionalismo negro e do panafricanismo, doutrina que pregava a união de todo o povo negro, em África e na diáspora, em prol do resgate de sua herança histórica e cultural, para além de quaisquer fronteiras ou diferenças lingüísticas.

Incluía o povo negro do mundo em um projeto bem maior que a simples reivindicação de melhorias sociais. Para Garvey era evidente a necessidade de que o controle político econômico e militar do continente africano estivesse nas mãos dos próprios africanos para que se operasse a reconstrução do continente enquanto lar e referência do seu povo, de modo a que seus filhos não mais necessitassem mendigar aceitação na sociedade branca, mas que pudessem relacionar-se em pé de igualdade, respeitados em suas diferenças, com qualquer outro povo sem que a sua integridade fosse ameaçada ou questionada12. Garvey representou o sonho e as frustrações da classe trabalhadora negra em desenvolvimento e suas palavras e ações permanecem vivas e poderosas até os dias atuais, tendo influenciado toda uma geração de lideranças negras, como Malcom X, os Panteras Negras, Abdias do Nascimento, e mesmo os principais líderes dos movimentos independentistas que eclodiram em África desde meados dos anos 50, como Kwame N’Krumah, Sekou Touré, Patrick Lumumba, Julius Nyerere, Ahmed Ben Bella, Kallel Abdel Nasser e Hailé Selassieh, sobre o qual Marcus Garvey profetizou sua coroação em 1925.


Booker T. Washington- W.E. Dubois – Marcus Garvey: Três Paradigmas negros em conflito.


O primeiro dos homens sobre os quais lançamos o nosso interesse, enquanto líder negro capaz de elaborar uma proposição sistemática original para (tentar)resolver o problema do povo negro recém saído da escravidão americana, Booker T. Washington, homem negro sulista, desenvolveu suas perspectivas tendo muito influído sobre elas, a particular situação de opressão e pressão racial historicamente solidificadas nessa região e polarizadas a partir de um processo de “democratização forçada” conduzida pelas tropas yankees durante o período da reconstrução. É notável, em toda a sua obra, a preocupação em propor um modelo de inclusão do povo negro na sociedade americana, buscando ao mesmo tempo, não ferir o tecido das relações raciais ali estabelecidas durante os séculos escravistas. Partindo do pressuposto de que a preguiça e a degradação moral, somados à pobreza e à falta de capacitação técnica eram responsáveis pelo atraso social e empecilho para o desenvolvimento da comunidade negra13, Washington vai questionar (e negar) a importância das lutas por direitos civis, de voto e de educação superior para uma comunidade que não teria preparo para utilizá-los em proveito próprio. Através de uma rígida postura moral, da capacitação técnica industrial e do trabalho, o negro americano forçaria o branco,segundo Washington, a uma reavaliação de suas concepções negativas, o que acarretaria um novo processo na história das relações raciais. Booker T. Washington estabelece um paradigma de integração do negro na América que retira do branco e joga sobre as costas negras, toda a responsabilidade da condução desse processo, abrindo o precedente para que quaisquer falhas posteriormente existentes em suas relações, pudessem ser justificadas mais pela imperícia do povo dominado do que às pressões do dominador, ou ao próprio desequilíbrio imanente à essa relação. Se em um determinado momento, o seu projeto de cidadania subordinada caiu como uma luva para o sistema branco sulista, vimos que posteriormente a sua proposição por autonomia econômica, mesmo que desprovida de qualquer discurso de conteúdo racial, tornou-se um problema para o supremacismo etnocêntrico e foi facilmente paralisado a partir da dependência estrutural do seu projeto.

Dubois, em contrapartida, foi um homem clássico (“Um grego”, para utilizar a expressão de Joaquim Nabuco em sua aclamação póstuma de Machado de Assis14) Como vimos, sua formação acadêmica, que incluía o título de Phd em Harvard, era um privilégio de difícil acesso mesmo para a maioria da população branca. A crítica ferrenha direcionada contra Booker T. e posteriormente contra Marcus Garvey, demonstra fundamentalmente a solidez de sua crença nos valores presentes no discurso burguês democrata em voga no norte dos Estados Unidos, bem como nos princípios humanistas e progressistas legados de sua formação acadêmica positivista.Tanto a cidadania subordinada proposta por Washington quanto o desenvolvimento em separado fundamentado na afirmação étnica defendido por Garvey, representavam retrocessos no que se refere à legislação e feriam os princípios igualitários presentes na constituição americana que o permitiam vislumbrar uma sociedade na qual a linha de cor fosse definitivamente superada através da ação política das lideranças negras e de seus aliados brancos.

Nesse sentido, podemos compreender tanto em algumas colocações de Garvey: “Os maiores homens e mulheres do mundo foram pessoas que se auto-educaram fora da Universidade, com todo o conhecimento que a Universidade oferece, e você tem a oportunidade de fazer a mesma coisa que um estudante universitário faz: Ler e estudar!”15 como de Washington: “quando eu era apenas um garoto, eu vi um jovem homem negro que tinha gasto vários anos na escola, sentado em um barraco ordinário no Sul, estudando uma gramática francesa. Notei a pobreza, a desarrumação presentes no barraco, não obstante o seu conhecimento em francês e outros assuntos acadêmicos.”16um certo grau de desconfiança e mesmo de desdém, quanto às possibilidades de que a educação acadêmica pudesse oferecer à comunidade negra, vias para a superação de seus problemas imediatos. Há uma rusga classista que no entanto não se interpõe ao conteúdo racial e político da discussão. Dubois não poderia admitir contra os seus princípios, a atitude conciliadora do discurso de Washington: “Queremos sufrágio para todos os homens, e queremos agora! Nós somos Homens, queremos ser tratados como homens e nós venceremos!” como afirmou no manifesto do Niagara Movement, predecessor do NAACP, dez anos depois do discurso de Booker T. Washington desaprovando a luta dos negros por igualdade de direitos civis. De toda maneira, tanto Dubois quanto Marcus Garvey, vão afirmar em determinados momentos de suas obras a importância de Washington e do seu trabalho no Tuskgee Institute valendo lembrar, que todo um capítulo de “As Almas da Gente Negra” é dedicado a analisar e combater as proposições de Washington.

Em 1915, porém, o homem de Atlanta falecera, alguns anos depois, a luta que se estabeleceria entre Garvey e Dubois não estaria sujeita a reconciliações póstumas e o caráter racial de suas posições assim o determinaria. Dubois, assim como Washington, acreditava na necessidade de um processo de profilaxia social que capacitasse para a inclusão a comunidade negra na sociedade americana e que esse processo deveria ser conduzido pelos “dez por cento mais talentosos” representantes da raça, que preparados por uma refinada educação acadêmica, atuariam como certa vanguarda educacional, cultural e política junto aos seus aliados brancos, no sentido de resgatar os outros noventa por cento da população negra, internados na degradação da ignorância e da marginalidade social. Para Garvey, pelo contrário, havia a necessidade de afirmar a origem da situação de degradação em que se encontrava o povo negro no mundo, no próprio processo colonial escravista, responsabilizando o branco por esse quadro17 e determinando, através do resgate da história ancestral particular do negro, a necessidade de uma ação própria contra as representações vigentes desse processo, baseando-se em uma luta autônoma por auto-determinação liderada e coordenada pelo próprio negro.

Nesse contexto, Garvey expressaria a sua decepção relativa a seu primeiro contato com as lideranças negras norte-americanas: “Eu imediatamente visitei alguns assim chamados ‘líderes negros’, apenas pra descobrir, após um estudo próximo deles, que eles não tinham nenhum programa, mas eram meros oportunistas que viviam de sua liderança, enquanto as pessoas pobres estavam indo para o fosso”18 .Desgostaria-se do mesmo modo, com o discurso moderado do NAACP, inquietando-se quanto à neutralidade da postura racial integracionista assumida pela organização, que segundo Garvey, era conduzida na direção do embranquecimento cultural e psicológico, que conteria mesmo uma pigmentocracia na qual os negros mestiços de pele mais clara seriam privilegiados e favorecidos no que se refere a ocupação de cargos de comando. Tal idealização do embranquecimento, já havia sido uma das principais fontes de atrito para Garvey na Jamaica, e encontrá-la repetida na América serviu-lhe para remarcar sua ruptuara com a social democracia negra, como para reforçar sua opção pelo nacionalismo africano.

O sucesso estrondoso de suas pregações e da UNIA entre a massa afro-americana, iria ser base para uma relação de conflito permanente entre Garvey e as demais organizações sócio-políticas negras ou voltadas para o público negro, como os grupos socialistas, sociais-democratas, o NAACP e posteriormente o incipiente Partido Comunista Americano e as Igrejas Evangélicas, que tinham em comum, a insistência na tentativa de cooptação de membros da UNIA para suas fileiras. A UNIA atingiu proporções espantosas, mantendo até hoje a marca de ter sido a mais numerosa organização negra da história mundial, chegando a mais de oito milhões de membros espalhados por todo o mundo. Esse crescimento, obviamente foi acompanhado por movimentos proporcionais de oposição, que culminaram em suas estratégias, no indiciamento de Marcus Garvey em 1925 sob a acusação de fraude postal e com a campanha pública “Garvey deve partir!” encampada principalmente por eminentes representantes do NAACP. Segundo a Senhora Garvey, esposa e principal mantenedora do legado de Marcus Garvey, Dubois teria sido o mais empedernido oponente de Garvey, tomando para si, a missão de livrar a América dos perigos do extremismo racial. Em 1927, Garvey era deportado, como já vimos, após mais que dois anos de cárcere. Por ironia da história, como conclusão da presente exposição de paradigmas, o Professor Willian Eduard Dubois, iria passar os seus últimos anos e dias de vida no Gana independente liderado pelo assumidamente garveísta Kwame N’kruhmah.


Considerações Finais


Independentemente dos oportunos alertas pós-modernistas contra a debilidade da crença em uma história positivista na qual os fatos desencadeiam-se mecanicamente em uma relação progressiva e conseqüente na direção de um ideal evolutivo, não poderíamos privar-nos de expressar a nossa compreensão de que a história, se não é uma simplificada “esteira de sucessões”, é um campo de movimento contínuo, no qual o choque dialético de suas contradições intestinas vai determinar processualmente as feições assumidas por uma realidade histórico-temporal específica. Desse modo, a análise historiográfica das micro-relações que se desenrolam através das compartimentações de um todo, crescem em importância se considerarmos a permanência de uma implicação de influências e confluências entre o todo e os seus compartimentos, e isso é óbvio. Por esse motivo, nos detivemos em examinar, no presente trabalho, a gênese histórica das modernas relações políticas e raciais e suas principais vertentes ideológicas nos Estados Unidos da América, durante as últimas décadas do séc XIX e primeiras décadas do século XX, gênese essa cujas expressões iriam marcar e referendar todo o desenvolvimento dessas relações através do século XX até os dias atuais.

Se entendemos a importância de meramente apresentar aos interessados, informações sobre um determinado cenário histórico, que por razões ideológicas nos são deliberadamente indisponibilizadas, a intenção que nos move, é a de oferecer subsídios ao leitor brasileiro, para uma discussão política e racial que leve em consideração experiências anteriores e referenciais, no sentido de minimizar o atraso de mais de um século dessa discussão colocada no Brasil, pelo menos a nível oficial, aberto e bilateral. A propensão de tratar como nova a matéria “relações raciais e estado”, resume não somente um profundo desrespeito às mobilizações históricas do povo negro no Brasil e no mundo como também mascara cinicamente a responsabilidade histórica e deliberadamente consciente das elites brasileiras geradoras e mantenedoras dessa realidade negativa. Faz-se portanto, necessário, o conhecimento objetivo das experiências históricas nacionais e internacionais relativas às relações raciais que possam nos instrumentalizar contra uma discussão superficial e mistificadora.

No Caso norte-americano, veremos as tensões referentes aos axiomas paradigmáticos raciais preponderantes na primeira metade do séc XX, estenderem-se da mesma maneira através de toda a segunda metade (ainda que com outros personagens), até o momento em que a ação avassaladora das forças repressivas, somadas ao crescimento econômico e à unidade nacional empurrada através da paranóia contra supostos inimigos externos conseguem pulverizar os movimentos negros organizados diminuindo-lhes a pujança e o apelo popular de suas mobilizações ( com exceção talvez apenas da Nação do Islam e o seu Ministro Louis Farrakhan). Quanto a isso podemos afirmar que o governo americano, em aspectos gerais vai assumir, como paradigma oficial para as relações raciais o modelo de Booker T. Washington, traduzido como uma “Concessão” de cidadania para o negro através de medidas paternalistas e controladas, nomeadamente a abertura de escolas e universidades específicas voltadas majoritariamente para a formação técnica e industrial, a melhoria nos serviços públicos e de moradia ( ínfimas, se contextualizadas nos padrões americanos), algum acesso de crédito e um discurso permanente pautado na paciência e na resignação confiante em dias melhores. Por outro lado, a movimentação conduzida pelo reverendo Martin Luther King Jr. De caráter integracionista e legalista, no qual a não violência e a crença na mudança através da ação política democrática são carros chefes do seu discurso, encaixa-se perfeitamente no modelo anteriormente defendido por Dubois, enquanto que o radicalismo fundamentalista de Malcom X e dos Panteras Negras é afilhado declarado de Marcus Mosiah Garvey e UNIA.

Não obstante as permanências facilmente notáveis das três correntes de pensamento estudadas, é indispensável a compreensão de que tratam-se de paradigmas que não conseguiram alcançar (e manter) posições hegemônicas em suas sociedades, e menos ainda, servirem como motores propulsores para transformações estruturais profundas quanto às determinações raciais da sociedade norte-americana, ainda que tenham podido revolver o solo apodrecido sobre o qual tais determinações se assentavam, ali deixando sementes, preparando terreno para o crescimento de eventuais revoluções.

Assim posto, temos o privilégio de dispor de um quadro para análise que nos oferece projetos e métodos, aplicações, erros e acertos testados e avalizados (ou não) na prática, homenageados e proscritos estejam os heróis e traidores dessa novela real que é a história. Ressaltando o óbvio, não podemos deixar de receitar àqueles que se interessem em pensar as modernas relações raciais brasileiras utilizando como referência a experiência afro-americana, o cuidado no processo de contextualização, com as especificidades de cada uma dessas realidades, separadas não somente por mais uma América, mas por diversas características próprias e diferenciadas. A permanência cultural africana no Brasil, a proporção demográfica e a realidade econômica,são alguns desses pontos diferenciais, cuja compreensão me parecem imprescindível. Além disso, devemos reforçar com o Sr. Abdias do Nascimento, o fato indiscutível de que a experiência diaspórica do negro brasileiro, traz em si, elementos ricos e suficientes que lhe servem de materiais e referência para o seu auto-entendimento, bem como para a elaboração teórica de um eventual processo de transformação social, assunto no qual o referido autor, entre outros guerreiros, é virtuosamente competente. Nesse sentido, qualquer outras referências apenas somam-se às pré-existentes de modo a referendar a unidade além-fronteiras do vínculo latente entre a humanidade negra e seus descendentes em África e na diáspora.

Esperamos que com esse trabalho atinjamos o nosso objetivo de proporcionar aos irmãos negros o acesso ao conhecimento de conhecimento sobre nós mesmos, meta até a qual, somos permanentemente desviados, no sentido de continuarmos tutelados pelos poderes euro-brasileiros constituídos bem como por alguns “assim chamados líderes negros”, para os quais a nossa dependência intelectual, econômica, organizacional e psicológica é conveniente.

Agradecemos aos Orixás e aos nossos antepassados por esse Axé latente, aos guerreiros, às mães e aos meninos.


Sou Eu, Sou Eu...!

















Bibliografia



Editorial do Jornal Chattanooga News, 5 de Agosto de 1927
Dubois, W.E.;”As Almas da Gente Negra”RJ, Lacerda Editores, 1999
FBI MEMO; John Edgar Hoover to Special agent Ridgel, 11 de Outubro de 1919
UCLA “The Marcus Garvey and UNIA Papers Project”
Washington, Booker T. “The Awakening Of The Negro” Publicado originalmente em “The Atlantic Monthly” Setembro 1896
Rydel, Roy “About W.E. Dubois: Reviewing the Review”, in “People’s Weekly World”, 9 de novembro de 1996
Diop, Cheikh Anta ; “Origem dos Antigos Egípcios”em “A África Antiga”Coordenado por G Mokhtar; São Paulo: Ática( Paris); Unesco 1983
Nascimento, Abdias do ; “O Quilombismo” Ed. Vozes-Petrópolis 1980
Franklin, John Hope; “Raça e História-Ensaios Selecionados, 1938-1988” Ed Rocco, RJ, 1999
Lowy, Michael, “A Teoria da Revolução no Jovem Marx” Ed Vozes, Petróplis 2002
Gramsci, Antônio; “A Formação dos Intelectuais” Ed Achiamé, RJ, 2000
Marx: Sociologia, Organização de Octavio Ianni e Florestan Fernandes, Ed Ática 1979
Black Diáspora – A Global Black magazine, n.o 3 “110 Years of Marcus Garvey” Jamaica, 1987
Caribe, Vol IX, n.o 1, Special Commemorative Issue “Marcus Garvey, Jamaica 1987