quarta-feira, 14 de julho de 2010

Paulista - Inédito

Paulista


Paulista foi meu pai de rua em BH. Me ajudou, me acolheu e até me chamava de “fio”. Eu vim subindo pela Afonso Arinos de besteira, recém chegado ainda, quando senti o cheiro da ganja forte e prensada do Paraguai que eles usam por lá.Encostei no cara, fumava ele e um pivete que eu já vira no sinal da Afonso pena, pedindo dinheiro pra as madames nos carros. Foi só chegar: _ São meus fios esses aí - ele me disse apontando o outro neguinho que se achegou na roda: _ nós somos uma famía... e parou sugando o cigarro de erva, olhando com o rosto inclinado, pralgum nada profundo( Eu ia me acostumar com isso, sempre que sua filosofia pedia alguma reflexão mais demorada): _ é fio, nós somos uma famía, repetiu olhando ainda algum ponto atrás da minha cabeça: _ Só falta uma mãe, não é? Mas isso eu arranjo essa semana, pode contar! Era Seu jeito: o que tinha de ser, tinha de ser!

Desse jeito eu entrei pra a família, nesse movimento. Meu destino era São paulo, mas Belo é uma passagem que sempre emperra o cara uns dois meses até seguir na viagem. Se, pressão, eu tava dormindo num albergue lá na Lagoinha, em vista de uma passagem com a assistente social da prefeitura. Buscar trabalho, fazer dinheiro, comprar um barraco numa dessas favelas que agente ouve os nomes nas letras de Rap. Paulista que me ensinou das ruas do Centro:

_ Olhe Fio, eu posso te ajudar, e tal, uma mão lava outra e tal. Eu tenho um trabalho aí, que eu faço e tal, uns barco de papelão com palitos de fósforo. Cê é bem chegado na nossa família, cê ajuda nóis que nóis ajuda ocê.

Paulista devia ter seus trinta anos, gordo não, forte. Preto como um africano, cabeça raspada sob um boné do Corinthians que não saía pra nada. Sempre de bermuda e tênis, camisa de futebol. Tinha o Gui, seu mais velho, de dez anos, que guardava carros na praça, e o ivan, que ele só chamava por “neguinho”, e era o que pedia no sinal.

_ Tem esse cachorro aí fio, que é da famía também, ta ligado, fica com nóis e não pega nada pra ele, que de noite no cio, é ele que avisa de movimento.

Os meninos eram parecidos, filhos da mesma mãe, eu presumi, já que não eram muito parecidos com o pai, e o Neguinho era mais escuro que o Gui. O Cachorro era um típico vira-latas sarnento mesmo, que vivia amarrado por um fio de corda de varal, na árvore do ponto de ônibus que sobe pra a Savassi. Eu pegava seis da manhã com o Paulista no ofício de fazer os barcos de palitos de fósforo. Armávamos nossa oficina e loja num banco da praça. E a cidade se movimentava ansiosa à nossa volta, executiva e progressista, enquanto nós só pensávamos em arrancar a cabeça dos palitos e colá-los no lugar certo. Logo às seis e meia, ele me passava uma nota de um Real e me dizia:

- Fio, uma garrafa de 51 pra nóis, e olhe fio, veja no jornal que time daqui que ganhou no Domingo, pra saber de que cor nóis faz os barcos hoje, branco e preto, ou azul e branco. Eu ia e olhava os resultados dos jogos do Atlético e do cruzeiro.

Nem me dei o trabalho de perguntar: já no segundo dia, eu estava sozinho fazendo um barco do Flamengo, e um núbio pôs a cabeça pra fora da janela de um ônibus que subia pra a Serra e gritou:

- É vagabundo, eu também sei fazer desse barco! Já ganhei muita hora fazendo desses barquinho meu cumpadi, e aprendi no mesmo lugar que você! Eu acenei positivamente, o ônibus seguiu e eu fiquei cortando ali os moldes dos barcos, tirando minhas conclusões de bom entendedor.

-É fio, ele dizia, eles pensam que nóis bebemos ( ele tinha mesmo uns de repente de concordância verbal) pra ficar chapado, e não botam fé que nóis bebemos é pra ficar careta. Eles não sabem que na rua, se ficar de cara, o homem pira o cabeção, então nossa caninha é que segura agente de cara!

Logo de manhã e ele saía com uma dessa. Aí dava uma bicada na garrafa de refrigerante cheia de cachaça e levantava pra fazer as tranças de lã, que nós usávamos pra fazer o acabamento dos barquinhos: Azul e branco era da Máfia Azul, preto e branco era da Galoucura, vermelho e preto do Flamengo e verde e branco do Palmeiras. Uma tiazinha levou dois do atlético pro neto dela, e o negão me deu metade da grana, mesmo com o material ser todo dele. Mais tarde ele chamava o Gui e o Neguinho pra beber um pouco de cachaça com agente e depois despejava um trago na guela seca do cachorro. O pequeno Ivan fazia uma careta leve, mas segurava. Eu até me assustei da primeira vez:

- Ele não é muito novo?

- Nóis vivemo narua fio, eles se perdem fácil, e nóis somos uma famía e tal, eu tenho que mostrar pra eles toda hora que eles também faz parte, que eles são igual a nóis, senão eles se perdem fácil, e o cachorro vai também!


- Casa fio, prende agente num lugar só, agente vira bicho enjaulado. Aqui eu faço minha casa onde eu quiser e carrego minha casa comigo. Cada noite eu posso escolher um coió onde nóis vai dormir e sou eu quem faço a casa e não ela que me faz, ta ligado? Melhor do que ter as coisas pra perder é você ter o que não pode perder, ta ligado? Eu qualquer dia desse vou é pra Bahia, e minha casa vai ser lá também!

Então fumávamos um fino paraguaio, o bazycrazy, pra abrir o apetite e revezávamos pra almoçar num self-service de dois reais em frente ao Parque Municipal, como quem vai pra a Praça da estação. Nada de riso à toa, nada de lombra, era só pra aumentar o campo de atenção. Eu notei Logo que o povo da rua respeitava o meu tutor com um quase medo, e depois que eu me tornei um “ menino do Paulista”, esse respeito se ampliou à minha pessoa e até lugar na fila da Padaria, vagabundo me oferecia. Eu tirava um cochilo entre os desocupados do parque, olhava as pretas da Serra dançando funk em volta de um radinho, sol de verão na cidade sem mar, refletia na água da lagoa, cortada pelos caiaques alugados. Os sem-teto de um lado, os Rappers e funks do outro, os viados lá atrás das quadras.

O Neguinho no sinal ganhava quase que o mesmo tanto que nós com os barcos, a cara de menor abandonado. O Gui também tirava sua grana pastoreando os carros, e comprava sua própria ganja. Éramos uma família feliz. Fui eu que dei a idéia de cozinhar na praça, em minhas primeiras experiências gastronômicas. Improvisei um fogão à lenha com uma lata de 20 litros, compramos uma panela, racahamos uns caixotes de madeira e eu fiz arroz com verduras e ervilhas. No outroi dia, ele cozinhou uns pimentões recheados com carne moída, e no domingo comemos pirão de peixe, no coió, numa rua que era descida prar o Mercado. Sem camisas, abríamos um encanamento embutido no subsolo da praça, e tínhamos água limpa pra tomar banho e lavar as roupas. Nesses momentos, os meninos brincavam de ser crianças e corriam e se molhavam puxando o cachorro pra cima e pra baixo, enquanto nós colocávamos as roupas pra enxugar sobre o capim.

Paulista não sabia ler, e me confiava os seus documentos:

- Isso aqui, é um extrato bancário, meu irmão, e você tem 4 mil paus no banco, ta ligado? Deve ter vendido barco pra caralho. Pôrra Paulista, cê vendeu 4 mil reais de barco?

- Barco vende né fio? - ele disse irônico, e depois de uma pausa continuou:

- Mas eu vendo é maconha, ta sabendo? Cada buraco daquela praça tem maconha minha enterrada, e vende que nem água, ta ligado? Aí dá pra juntar uns trocos pra qualquer emergência minha ou dos meninos e tal, se você tiver afim, eu te ponho aí noserviço e nóis divide tudo meio a meio.

- Eu agradeço de coração, meu irmão, sua confiança, mas pra mim é o lance dos barcos mesmo, ta sabendo? Eu to indo pra São Paulo, não posso arriscar pegar um 12 agora, eu não tenho parente, nem família, nem ninguém pra me garantir. Então eu sigo nos barcos e pra mim ta às pampa!

- Sossegue fio, fique com os barcos mesmo, eu já cumpri meus tempo, ce ta ligado? Hoje polícia nem me mexe, e tal. Às vezes tem de botar uma grana, uma garrafa de uísque, ou umas balas de 38 que eu compro lá no Papagaio, mas sem enquadração. Fique nos barcos, que eu movimento a boca, mas fique de olho aberto!


Realmente eu já tinha notado o movimento dum guardinha que passava toda semana, chegava como quem não quer nada, escolhia um barco, jogava uma conversa fora e saía sem pagar. Tinha também o Neinho, um filhinho de papai, quer dizer, um ex-hippie viciado. Já na faixa dos seus 45, que colava em nossa oficina atrás de um pouco de pó. Inteletual, o inútil, sua mãe era uma política importante da BHcity, e ele vinha semanalmente, cabelos embranquecendo, cara chupada de décadas de drogas, tiques nervosos nas articulações:

- Qual é cara? Ta me tirando, Eu tive em Arembepe, com a Janis Joplin, eu vivi em Londres em 1977, tá entendendo?

- Porra Neinho, deixe o meu menino quieto fazendo barco! Pôrra Neinho, ô Dona, leve um barco do cruzeiro pro teu menino, 20 Real com desconto pra a senhora, Dona!

Anoitecia, a cidade voltava pra casa, Belo Horizonte chic, entre o provincianismo nordestino e a sofisticação sulista, eu sorria, muito pela distração do álcool e da ganja. Neinho satisfazia nossos egos afro-marginais:

-Você fez tudo isso- dizia Paulista- mas agora tem de vir aqui implorar pra nóis um pouco de cocaína. Vai Neinho, vai pra casa sô, e trais outro relógio bonito daqueles, que nóis te arruma um pouco de pó!



Passei um dia todo na assistente social, pra ver lance das passagens, à noite, subi a Rua Bahia em direção à Afonso Arinos. Ainda ganhei um copo de sopa que as boas almas samaritanas distribuíam toda noite pros vagabundos e mendigos da Rua Paraná. Na praça. Paulista tinha arrumado uma namorada:

- Essa aqui é a Poderosa, fio. Nóis se conhecemo ontem a noite e nóis se amemo aqui mermo na praça. Nóis se amemos duas vezes e a poderosa vai ficar com nóis agora, dar uma força pra olhar os meninos, adiantar uma alimentação. É minha mulher agora, a Poderosa!

Poderosa era um ser mitológico: idade indefinida, raça indefinida, sexo indefinido. O álcool levara suas feições embora, seus dentes, e boa parte dos seus neurônios. Sentada do nosso lado, passava as horas a xingar, amaldiçoar e reclamar, saindo desse transe somente pra estender a mão em direção à garrafa.

Agora éramos uma família perfeita: Paulista e Poderosa, os dois meninos, o cachorro sem nome, e eu, o agregado. Via Paulista satisfeito. Pela manhã desencaixotávamos as coisas, eu comprava a cachaça. Comíamos uns pães e começávamos a preparar os palitos de fósforo, cortar e colar os moldes de papelão, recortar os papéis coloridos nas cores dos times, fazer as tranças de lã pro acabamento, pôr os barcos pra secar, atender os clientes, parar pra fumar uma pra abrir o apetite, almoçar e fumar um pra ajudar na digestão, enquanto meu patrão atendia um ou outro cliente que aparecia. À noite acendíamos uma fogueira com restos de caixotes de feira e ficávamos em volta das chamas, esquentando os nossos rostos e fazendo mover-se a dança horrível de nossas sombras. Bebíamos cachaça e fumávamos erva mesclada com coca. Às vezes Neinho aparecia, e nos divertíamos humilhando-o. Ou o Primo, um paraibanocompadre do meu sócio, e que nos distraía contando histórias de banzo e as novidades das páginas policiais.

Uma manhã, notei o negão mais sério que o habitual, e perguntei:

- É o Gui, fio, sabe que o moleque teve a ousadia de me dizer que minha maconha ta fraca?- Era um pai introspectivo, refletindo sobre a melhor maneira de tratar com um filho rebelde. Ainda com um ar pensativo, continuou:

- Eu crio meu menino é pra a rua, fio, pra esse mundo que nóis vive. Ele tem de saber que é duro, e tem de ser homem pra pra assumir cada coisa que ele fala. Eu gostei da ousadia dele, teve coragem, o pivete. Eu disse a ele que tudo bem, que ele tava falando pro pai dele o que ele achava que devia falar, se ele achava que devia me falar isso, e coisa e tal. Disse pra ele que ele saísse hoje e só voltasse com a maconha dele, e se não fosse melhor que a minha, ele nunca mais ia fumar com a gente.

Gui saiu cedo, deixou o neguinho no movimento de pastorear os carros, e a Poderosa ficou dormindo encostada numa árvore. Almoçamos, e só pras quatro da tarde o menino voltou, calado, e assumiu seu posto de guardador de carros, sem dar uma palavra. De noitinha, depois de termos guardado o material de trabalho, nos sentamos em volta da fogueira, eu, Paulista, Gui, Neguinho, a Poderosa e o Cachorro, que parecia entender a sobriedade do momento: nem latia, nem gemia, nem gania.

Como era de costume, Paulista estava impassível. Sentou-se como um sultão, sério como Omoro, na primeira viagem a pé de Kunta Kintê. Gui tirou um pedaço de um tijolinho da ganja paraguaia, e dichavou em cima de um dos bancos, a cidade era cega pra a nossa cerimônia. Apertou um baseado de tamanho bom, contando que a diamba prensada concentra mais THC que a erva nordestina, a cabeluda, famosa Elba ramalho. O baseado passou na roda, duas, três vezes. A cachaça por cima pra rebater, e depois o silêncio se manteve, A onda bateu forte dentro da minha cabeça, que se abriu como um foco de luz em todas as direções, eu estava muito louco, com profundas emoções pungentes emoldurando o quadro da nossa miséria, as luzes se fundiam aos sons longínquos da city fantasma, vapores subiam do chão úmido. “ Eis que começou de forma tão vulgar, e termina assim, com anjos de fogo e gelo...” é esse torpor não podia durar por mais de alguns minutos, sob o risco de nos tornarmos vítimas da cadeia alimentar urbana. Levantamos e buscamos algo o que fazer. Paulista continuava sério, em silêncio, e isso queria dizer que o menino passara no teste, mas não haveria demonstração de euforia, ou mesmo cumprimentos. Ele permanecia no grupo, e sua palavra agora tinha peso de responsbilidade.

Mais tarde, quando dormiam os meninos, foi que o negão veio todo alegre, com um sorriso de orelha a orelha, já enrolando outro fino com a maconha do Gui:

- Cê viu fio? Cê viu? O menino firmô! Cê viu que maconha boa que o moleque trouxe pra nóis? Moleque danado, tá às pampa agora o moleque, desafiou e cumpriu, vamo fumar essa maconha: Era um pai orgulhoso, dum menino de dez anos.


Tempo em que eu arrumei pra namorar uma punk que fazia ponto ali na estátua do soldado patriota. Ele me disse:

- Uma punk? Esses punks daqui são todos do asfalto fio, nóis é do morro! Nóis vive aqui, mas nóis é do morro , não deve se misturar!

- Eu tô gostando dela Paulista... e ela de mim também!

Ele acendeu um cigarro, coisa que nunca fazia. Ele não fumava, somente um cigarro de vez em quando:

- Fio, escuta uma coisa que eu vou t dizer: Mulher não gosta de ninguém, só dela mermo!


Certo, sei que fiz planos, me apaixonei, ela morava na Savassi, a patricinha, e me levava pro seu apartamento de luxo quando seus pais estavam na rua, e eu gostava de comê-la de quatro em cima da cama do casal, bebendo vinho do Porto e fumando a maconha do Gui, de primeira qualidade, que empesteava o quarto. fizemos planos, íamos pra São paulo juntos, assim que saísse a passagem da assistente social, e ela ia me hospedar na casa de uns punks amigos dela, até que eu arrumasse trabalho. em troca tinha que me enfiar com força, e fazer valer o seu dinheiro.

As coisas coincidiam. Uma noite saí com o patrão pra roubar, faziam 10 graus, apesar do céu estrelado, e eu precisava de uma grana pra sair da dependência da passagem da prefeitura, e pra a branca não achar que eu tava vivendo às custas dela, um pouco de dignidade não faz mal a ninguém. portávamos cada um uma peixeira, a noite era fria, subimos como desconhecidos até os bares que ficam próximos à Praça da liberdade. As ruas das cercanias ficavam desertas e nós nos pusemos na escolta de algum playboy que pensasse em buscar o carro estacionado. esperamos cerca de 40 minutos, escondidos cada um de um lado da rua. Vestia um blusão de frio, calça jeans, gorro de ladrão, eu era um flagrante ambulante.

Vinham três, um casal e mais uma acompanhante. A bolsa dela, alvo. Mais as carteiras dos dois parmalats, os três relógios, só fazer. Os faróis de algum carro longe enegrecia suas silhuetas, esticavam suas sombras e eles andavam numa alegria nervosa, apressando os passos em nossa direção. Foi um enquadre rápido e limpo. Faca na garganta, silêncio, coleta feita, se gritar parar de nadar, olhar pra trás, morre. Cada um de nós pra seu lado, mais tarde nóis comemora fumando maconha de Gui no Coió.

Eu desci no sentido inverso, em direção aos botecos próximos à rodoviária. O frio já transpusera o pano do blusão, entrei num barzinho fuleiro, meus dezessete anos, pedi uma vodca com refrigerante de limão e um tiragosto de salame. vagabundo olhava de canto de olho, umas putas sorriam, seu riso de anzol buscando peixe bobo. paguei e segui em direção do lugar combinado. Somente os meninos dormiam, e o cachorro e a Poderosa. Dormir sentado, esperando o mano que só chegou duas horas depois, com a cara partida e ensanguentada, o queixo deslocado, inchado, deformava suas feições e dois dos seus dentes da frente estavam partidos. Falava sôfregamente, sem poder mover o maxilar. Os caras tinham seguido ele, com outros, de carro, e o cercaram na rua de cima, tentando espancá-lo. No rosto, tinha sido o fundo de uma garrafa de cerveja, certeira. a peixeira ele deixara enterrada lá nas costas de um, e esse foi o ponto que ele fugiu, enquanto os outros iam prestar socorro ao amigo. Agora eu tinha de ficar ali olhando os meninos

- Disfarce o dinheiro na cueca do Gui, e finja que está dormindo. Eu vou procurar um médico conhecido meu. E saiu segurando a boca.

Peguei no sono, cansado, fui despertado por chutes de coturnos militares. Apanhei pouco, alguns murros mais, e cassetetadas, pra mim dar o serviço do irmão, mas eu bati pé firme, a bem da verdade, que eu era um pobre migrante nordestino indo pra São Paulo, que se interessara em aprender o negócio dos barcos, e tomava conta dos meninos pra ajudar. No mais, não sei, não vi, não sou, morro cadeado. Os gambés saíram doidos, que a próxima vez que me vissem com o paulista, iam me fazer assinar um 57, e eu ia ver como é bonita BH.

Pois então, o mano voltou todo sorridente, uns dias depois, enquanto nossa indústria naval ficara sob minha responsa. mostrou as mãos enfaixadas, de apanhar no xadrez, que pagou uma grana pros policiais pôr ele na rua . que tinha posto dente novo e o queixo logo ficava bom. Que a cidade era dele e que eu ficasse sossegado. Mas não, daquele homem duro, juro que eu arranquei uma lágrima, quando lhe mostrei a passagem da prefeitura.

Tempo foi, do Paulista eu soube que foi pra Brasília, e mais tarde, que o Gui tentara matá-lo, que tinha tirado outra cadeia, mas que já tava solto, fazendo seus barcos de araque. Do que eu conheci dele, deve ter ficado orgulhoso do filho, feito homem para as ruas, garras afiadas de predador, no topo da pirâmide alimentar. Eu já fui e já voltei por ali algumas vezes, e quando posso, pergunto aos amigos de outras terras, se por acaso não se avistaram com o meu pai de rua, vendendo barcos coloridos numa praça qualquer pelo mundo afora.


Mandingo

24/25 de Março de 2006

Cisco - Em homenagem à música do DMN

Cisco

Diz que a química brota como flores inversas, calcificando os alvéolos e diminuindo o espaço da respiração. Explosões de amônia, bombas de éter, soda cáustica, os pulmões endurecidos já não inflam nem se contraem e por isso são como esqueletos asmáticos, em crônicas crises de falta de ar.

-Porra pivete, cê num abraçou minha idéia! A gringa já tava na minha fita, ia dar na mão de boa!

- Dá na mão porra nenhuma pivete, aqui tá cheio de X9, vacilão. O rasta do bar ali: X9, o vigia da loja: X9, se vacilar até você é X9!

-Cê tinha abraçado minha idéia pivete, e me falseou na hora do crime, se vacilar outra vez eu vou te fulerar de menor...

-Eu abro sua lata com um paralelo quando você tiver dormindo...

Puta só, ladrão só! Ditado antigo do Mangue que estamenta a solidão dos extraviados. Eles subiram abraçados a Alfredo de Brito brincando de lealdade só pra gastar o pânico e dar tempo de escolher uma outra presa. Encardidos até o sangue, sujos mesmo, cobertos com camisas enormes ,vestindo até o meio das canelas. Não se pode dizer se são mesmo crianças, se não cresceram, ou se encolheram. Rostos manchados, de pele esticada sobre os ossos salientes, os olhos são ágeis sob a cabeleira crespa descorada. As mãos são nodosas, os pés descalços são grossos como couro.

- Give a piece gringo! Hungry! Hungry! – Aponta alternando, a própria barriga e a metade do cheeseburguer no prato do holandês – Thank you, my friend, você my friend!

- One dólar gringo, my friend, uno euro, per favore, my lunch, one dólar per favore…

- Quer pousada? Capoeira? Marijuana? Cocaine? Quer vir acá? Mira, mira, mira...

- My friend, linda, beautiful, dá me uno euro, per favore…

Puxava a loira pela camisa, o gringo pelo braço, dois pequenos gremlins de rostos deformados, assediando a caça antes de dar o bote. O loirão já tinha entregue o lanche e as moedas que tinha no bolso. Talvez desse o mole de puxar a carteira, não fosse o garçom a enxotá-los com o cabo da vassoura nas costelas. O casal era entre embaraçado e ofendido, entre amedrontado e agressivo.

- Criança coisa nenhuma – disse o garçom – ali já tem mais de dezessete anos de crack nas costas, cada um.

A periferia tem um ódio estranho dos seus entes mais vulneráveis: Loucos, mendigos, homossexuais, moradores de rua, viciados, são vítimas preferenciais desse sadismo urbano, que se compraz em pisar a cabeça do que anda ainda mais fodido que a maioria.

Há também um sadismo latente em se fazer turismo em países cheios de miseráveis.

-Tem dois conto só ainda pivete, num dá nem pra uma. Se não gerar nada por agora a casa nossa vai cair tá ligado, né?

- Gera, gera, gera, olha no lixo antes que o carro passe, pra ver se acha alguma latinha.

- O soldado me deu uma bicuda nas costas ontem quando eu tava no lixo. Disse que eu tava sujando a rua toda.

- Nada pivete, cê tá é devagar demais, parece que tá fumando maconha…

- Que desgraça de maconha, pivete, tá me comediando?

Tentou-se de tudo por aqui: Nos anos setenta os cortições escondidos nos prédios históricos tocavam Amado Batista e Waldick Soriano enquanto seus moradores injetavam xarope pra tosse na veia, pra ficarem loucos. Vieram os oitenta, os gringos abriam bares absurdos carregados de exotismo junk, e encheram as ruas de cocaína, cara e pura. Os degraus das escadas ainda rangiam como porcas estupradas, trepava-se e cagava-se nos corredores e as putas seminuas faziam filas nos banheiros coletivos às sete da manhã. As crianças misturavam clorofórmio com essência de frutas e se drogavam com a famosa loló, enquanto ratazanas enormes devoravam as orelhas e os narizes dos recém-nascidos.

Tentou-se cola de sapateiro, thinner, benzina, esmalte, bebeu-se álcool com água e um forte cheiro de ganja saía pelas janelas perfumando permanentemente as ruas. Engoliu-se com pinga ou com café: Royphinol, Diazepam, Rivotril, Lexotan, Valium, Gardenal, Lorax, Fenobarbitol, os travestis usavam giletes escondidas nas gengivas e os táxis eram pretos e amarelos.

Entraram no elevador Lacerda, vindos da Conceição, trazendo nas mãos um relógio antigo:

-Aqui vale três pedras, pivete!

-É, três pedras…

Apontou o relógio pra outro passageiro:

- Quer pagar dez conto no bobo pivete?Dez conto, o bobo tá novo, zerado…

O outro, branco pobre baiano, vinte e poucos anos, dente de nicotina, sandália havaiana emendada com arame, camiseta surrada com a cara de um candidato. Avaliou o relógio, retornou os olhos ao rosto do menino, observou em silenciosa meditação, enquanto a cabine subia velozmente exibindo flashs de cidade baixa a cada fresta de ventilação:

- Porra pivete, vou te falar…eu fumo crack pra caralho, sou viciado, da pedra eu só saio pro cemitério. Mas você…

- Quer pagar no bobo pivete? – insistiu o menor irritado, balançando o relógio na frente do outro:

…você pivete, já nasceu no crack, pôrra você só conhece crack, pivete, você é feito de crack…
Saíram rápido, quando a porta abriu na Praça Municipal, ainda cobrindo o rapaz dos mais diversos elogios. Esse um entrara numa reflexão profunda e dizia baixo para si mesmo enquanto os dois relojoeiros se afastavam:

-Porra, o pivete é feito de crack…

Eles nem lembravam. Na ladeira da Praça os pretos mulçulmanos tentaram uma rebelião a séculos atrás. Desceram pra 28, o lixo pela rua e os casarões em ruínas faziam lembrar aos mais velhos, o antigo mangue, bem antes da reforma. Era automático: O relógio rapidamente se transformou em duas pedras. Subiram até o muro da igreja do São Francisco e sentaram em um batente. Cachimbo feito com o tubo de uma caneta e durepox. Isqueiro, o efeito é imediato. Agora, nada mais que diminuir a fissura, que minorar a crise da falta, o pânico. A cabeça vai a mil, o coração dispara, é como uma corrente elétrica de um milhão de volts invadindo o corpo e despertando cada uma por uma célula. Levantaram em silêncio, sem barato. A noite estava apenas começando.

Sentados numa calçada na praça da Sé, o policial observa sem dar uma palavra:

-Vocês roubaram minhas latinhas seus sacizeiros!! Gritava um outro preto, morador de rua, andando nervosamente, alguns passos simétricos da direita pra esquerda.

- A gente não roubou não!Disse o mais novo, com voz inocente, enquanto mexia distraído, a unha do dedão com a ponta de um prego.

-Vocês roubaram meu alumínio, seus satanás, eu vou matar vocês dois!

O guarda abriu um pouco mais os olhos e os ouvidos.

-A gente não roubou não! O mais velho encostado em uma porta, com os braços estirados e o pescoço levemente inclinado, olhando fixamente o outro lado da rua.

-Vocês me roubaram, seus diabos eu vou matar vocês dois. Não mato agora pra não alterar o plantão do soldado aí, mas vocês vão descer pra fumar pedra no cais e eu vou quebrar vocês á paulada.

- A gente não roubou nada! Enquanto o outro descia o Pau da Bandeira, sem olhar pra trás. Fazer o quê? Trocar na boca o alumínio por crack, pipar lá atrás do São Miguel e subir o Pelô, pra ver o que gera.

Dormir ele não dorme, o sacizeiro. Ele desaba em qualquer lugar, quando o corpo gasto desfalece. No meio da calçada, atrapalhando a passagem. Embaixo do banco no ponto de ônibus, na frente do módulo policial, no batente de pedra portuguesa da catedral. Trabalhador vai pro serviço de manhã cedo, sacizeiro tá ciscando o chão de pedregulhos, procurando a pedra que deixou cair. Gira, gira, engatinha procurando a droga e já nem sabe se deixou cair alguma coisa ou se foi delírio, mas se caiu mesmo não pode deixar perder.

-Divido com você, pivete, a gente faz um gringo desse e compra mais de quarenta pedra.

-Mais de quarenta pedra, cê divide porra nenhuma, cê vai é fumar tudo sozinho…

-Tô te dando a idéia cheque. Você é meu parceiro pivete, se você abraçar minha idéia, a gente vai fumar quarenta pedra.

-Eu fumo quarenta pedra, já fumei. Três dias na atividade.

-Eu fumo também, mais tem que ficar ligado pros mais véi não querer tomar…

-Tomar minha pedra pivete? Cê tá maluco? Cê tá fumando maconha mermo, né pivete?

-Maconha porra nenhuma pivete, se plante, eu disse só pra nóis ficar ligado.

A pedra, o crack, o pitiro, kriptonita, o queijo, a caspa do diabo, caiu pesado por aqui no início dos 90´s, quando os homens começaram a reformar o brega. Sob as vistas grossas da polícia, os cachimbos se multiplicavam, enquanto o governo se ocupava em expulsar os moradores de suas casas em troca de indenizações irrisórias. Mortes, agressões, incêndios na calada noite, nada foi tão eficaz pra calar a boca dos mais resistentes quanto o crack. Peão recebia de dia a indenização, de noite já tinha tudo ido na fumaça. Os côro-de-rato ficavam como zumbis habitando as carcaças dos casarões, fazendo fogueiras com sacos de lixo, roubando qualquer um, e furtando qualquer coisa que pudesse ser trocada na boca. Artesões, pintores, sapateiros e músicos. Ladrão, vagabundo, dona-de-casa e dama-da-noite, todos se encantaram pela droga barata e forte, se hipnotizaram pela pedra sem brilho e hoje formam o exército de mortos-vivos que se escondem nas sombras e becos do cinturão do crack que circunda o Pelô.

O menino de crack já não quer mais saber de ser menino de rua, capitão de areia. Agora é Mujahadine, homem-bomba Taliban, kamikaze suicida. Se atira como gavião velhaco na bolsa da gringa que desce a ladeira e corre, leve e certeiro, na direção do Taboão, sem-vergonha, às dez da manhã. Policinha que cresceu impressionado com filme de ação, baleou nas costas, a vinte metros de distância. Cobriu com o pano branco dado pelos comerciantes, guardou a arma, ligou para a central. O povo passava ocupado, corujava um minuto e seguia, na correria do pão de cada dia. O outro encostou do lado, ficou parado assistindo a cena. Dedão enfiado na boca, a outra mão na cintura. Os ossos da clavícula expostos pela blusa de gola larga.

Pensava nas quarenta pedras. ( Mandingo – 08/2008)

Por Acaso

Por Acaso


Mandingo 25 de Abril de 2007


Por acaso acordou com a porra da frenologia na cabeça. A lombra de Lombroso que Nina Rodrigues abraçou. Nem que tivesse lido recentemente alguma coisa sobre isso, a frenologia se grudou em seu cérebro como assombração matinal, foi com ele o dia todo e noite já se ia e a coisa ainda martelando.

Sábado de noite, estava indo pra a casa da tia mais velha, que chamou a parentada toda pra bater laje no domingo, cortar cana dura com os primos e comer aquela feijoada de elite que a negona preparava. Conseguiu pegar o último São Marcos antes da madrugada, nem cheio nem vazio, um lugarzinho só, como se lhe esperando. Sentou inocente, na moral, mas percebeu de imediato que a mulher ao lado protegeu a bolsa no colo, instintivamente, com medo.]

Puta que o pariu, isso era das coisas que mais odiava, ser tirado com ladrão, aguçou os sentidos, também, a mulher a maior alienígena, loira como a mulher da novela, seus trinta anos, lá dela, sapato de salto, vestido preto parecendo roupa de grife, de desfile mesmo, parecia ficção, se alguma coisa ainda fosse ficção hoje em dia. Não ousou olhar diretamente, e nem ela, os dois se investigavam com o canto dos olhos, pretensa vítima e possível predador, medindo, inquirindo. Tentou disfarçar a tensão, olhar pro lado, o estômago já embrulhado, mas sua presença era imperativa, e forçava o olhar pro seu lado.

E se Lombroso estivesse certo, e sua mente guardasse um animal assassino perdido lá em alguma selva africana de um filme de tarzã? E se Nina Rodrigues estivesse certo, e sua mente guardasse um sociopata latente, pronto a cometer um crime, seu crânio de ladrão lhe empurrando pra o desvio, o mal?

Pensou nisso, o ônibus já vinha cá pela Brasilgás, a oitenta por hora, que o motorista, também homem delinqüente, perde muito a noção a essa hora da noite. Em verdade, a mulher com esse corpinho de modelo, não agüentava um tranco, veja só: bolsinha de carregar no braço, um puxão mais forte e levava braço com tudo. Com tremia, a moça, dava quase pra sentir o cheiro do seu medo, no nervosismo com que se movia na cadeira, na respiração parada de bicho acuado, as mãos apertadas na bolsa preta de couro. Podia lhe dominar com uma mão só, sem muita violência, e na certa esse medo era por alguma coisa que tinha ali dentro. Talvez o salário do mês, ou o dinheiro de algum empréstimo, o celular novo, uma jóia, que ela tinha mesmo jeito de usar. Era puxar e correr, daqui pro final de linha de São Marcos, polícia não tem pra ver nada, era só fazer e correr, conhecia tudo por ali, nascido e criado no Pau da Lima, se descesse em uma viela, só lhe achavam se quisesse.

Mas e se fosse também um desviante sexual, um perverso, que somente sentisse prazer submetendo sua vítima à dor? Nada que não estivesse na lombra de Lombroso, em verdade, era tudo previsível, no tamanho e formato de seu crânio. Tudo deserto essa hora, era puxar a loirinha pra um canto qualquer e fazer do jeito que quisesse. Um murro na nuca, se necessário calar sua boca. Em verdade, pressentia que esse medinho de puta tinha muito era de excitação reprimida, de vontade de dar prum macho mais forte, másculo, imoral, do pau grande e grosso. Se esse era o seu estereótipo, por que não imaginá-la lasciva, gritando não, enquanto queria mais, mexendo os quadris e mordendo os lábios enquanto chamava a polícia pra destruir o corpo daquele amante violento?

Queria dar um fim naquele turbilhão de bobagens, Lombroso que se fodesse, mais Nina Rodrigues e o diabo no inferno. Aquilo parecia era coisa de obssessor, mas a tia velha sabia uns banhos bons pra afastar espírito perdido, e já estava chegando.

Por acaso, no entanto, tremeu quando a mulher pediu licença da poltrona, pra saltar no mesmo ponto e tomou sua frente no corredor do ônibus. Desceu na rua vazia, nem cachorro se aventurava aquele horário. A branca ia na frente, bolsa balançando, com seu rebolado de branca nos passos de modelo desfilando. Era mesmo uma coisa bonita de se ver, contra luz de mercúrio da Paracaíma. Parecia uma visagem, a diaba, uma personagem de novela caída do nada em meio ao gueto, e aliás, que zorra é que essa figura ia fazer por ali, àquela hora? Ser assaltada, é lógico, será que não sabia do risco que corria? Qualquer menino podia roubar sua bolsa, lhe agredir, lhe violentar, e desaparecer como saci.

Quando ela lhe percebeu vindo logo atrás, voltou a segurar a bolsa no colo nervosa, e apressou os passos em direção à baixada. A tensão então retornou. Se ela continuasse se fazendo de presa fácil, ele ia pirar de vez, sabia disso, e fazer alguma merda: era um passo só, fazer e correr! Era o que ela esperava, era o que ela previa, era o que o cenário pedia, era o que a hora alta ansiava. Por acaso, no entanto, tremeu ao divisar, na virada da curva uma viatura da Rotamo, subindo a rua a vinte por hora, escopetas pra fora das janelas, dentes afiados, e se sentiu como uma hiena, diante de um grupo de leões. A veadinha fazia sinal, desesperada, e apressava ainda mais o passo. O carro fúnebre parou e ele gelou. Sabia bem das cenas dos próximos capítulos: Vigiar e punir, era o lema. Entregou a Deus e continuou andando, com medo, é verdade, mas a culpa mesmo era de Lombroso, que acordou com ele e passou o dia todo lhe atazanando o juízo. Não tinha nada a ver com isso. Se aproximava dos homens. Ela já ia na direção deles. Um dos guardas já vinha em sua direção, de doze na mão e gritando pra ele parar, colocar a mão na cabeça e se ajoelhar. Execução era assim, sabia disso muito bem. Entregou de novo a Deus, e dessa vez a um deus em particular, seu pai de cabeça, rezou, pediu, e esperou.

O homem mau se aproximava, seria ele também uma vítima de lombroso? O que esperar dele, ao mesmo tempo delinqüente e agente da lei e da ordem, um claro contrasenso, por conta de seu crânio simiesco e sua pele preta, cheio da lombra de lombroso na cabeça, juiz e executor?

Ouviu o estalar da escopeta, estava pronta. O som dos coturnos no asfalto se aproximavam, dois, três pares de coturno soando na madrugada que se silenciara mais profundamente.

Ouviu a voz da tia velha cortar a rua: Rominho, Rominho meu filho, pelo amor de Deus, levante daí menino, que você não é vagabundo! Levante daí meu filho! – a voz sempre firme e autoritária da coroa, não escondia alguma tensão. Ouviu o policial então retrucar: A senhora conhece esse homem, Dona Miralva? E a velha responder: é meu sobrinho, pelo amor de Deus! É mais novo de Teresa, sargento, pelo amor de Deus, me entregue meu menino! E o guarda responder de novo: Calma Dona Miralva, agente ia só averiguar uma suspeita, tenha calma pra a senhora não se sentir mal de repente.

Mandaram levantar, meio atordoado sentiu o abraço violento da tia lhe arrebatar, menino, menino, eu não falei pra você vir cedo menino? O buraco aqui tá quente menino sem juízo, isso é hora? Seus primos já tão tudo dormindo!!

E você, minha senhora, o que está fazendo por aqui essa hora, a senhora mora por aqui, ou ta procurando alguém? É mulher de traficante, por acaso? – Ouviu o policial se dirigir à loira, que sumira completamente do foco de sua atenção: Entre aí na viatura, que agente vai te levar no seu destino, depois de averiguar de onde vem e pra onde vai...]

Foi andando com a tia, sem nem olhar pra trás. Pobre moça, pensou, entregue sozinha a cinco lombrosianos lombrados, em plena madrugada. Dormir cedo, que bater laje é trabalho duro. O que seria dela, coitada, ou estaria realmente imaginado coisas?

Pipoca

Pipoca


Barulho ensurdecedor ferindo os ouvidos. Tensão. A multidão em polvorosa nas ruas noturnas. Helicópteros. medo. tropas de choque. Um homem negro caído imóvel no chão desagua um rio de sangue: è carnaval em Salvador!

Minha missão é atravessar meu corpo negro em segurança até o Garcia, passando por toda a Avenida Sete, onde a festa corre solta. Eu já trabvalhei o dia todo, vendendo cerveja e batida de maracujá. Desde de Mnanhã cedo na luta, comprando gelo, arrumando isopor, descarregando caixas e mais caixas de refrigerante e cerveja. tudo amarrado, trânsito lento, a paciência no limite em que um tombo mal dado ou um olhar mal cruzado podem estourar um assassinato. os prtos subindo e descendo a Ladeira da Montanha com sacas de gelo na cabeça, mulheres e meninas fortes trazem até quatro caixas de refrigerantes nos braços. Eu se não tirar o meu agora no carnaval, passo o semestre todo no osso, e aí a vida não corre. A onda é essa mermo: correr na frente que atrás vem gente!

Agora, noite de terça feira de carnaval, última noite da putaria, a galera tá na sede da loucura, na ponta da faca da maldade. Quem não bateu em ninguém, tem que bater, quem apanhou tem que descontar, quem tem conta pra acertar, a hora é essa, quem não se armou com ninguém, tem que arrumar uma figura pra namorar hoje! Porque se não, já sabe, é o ano todo sendo comediado pelos camaradas da rua, e ficar só afinado os dentes pro carnaval que vem. " Os Home" então nem se fala, tem polícia que trabalha até de graça, pede pra trocar o dia, pra poder dar plantão na terça-feira.

Eu não vou mentir, já gostei, mas hoje em dia mano, na moral, pra mim é só trabalho, quero é ver minha nega, minha filha que tá me esperando, juntar "o bom" pra passar os próximos meses que o bicho tá pegando é no meu bolso.

Logo na Rua Chile o pau já comeu. Esse cara tomou um murro de algema na fonte, e taí no asfalto se batendo e sangrando. o motivo quem sabe são eles, o Choque que tá passando o rádio chamando a viatura. Eu tõ só de passagem, só de passagem e que meu Deus e Xangô me protejam.

Se descer pela Barroquinha é viola, os sacizeiros tiram meu escalpo e roubam até minha cueca. A Baixa dos Sapateiros já virou a cidade fantasma do crack, e só quem não tem nada a perder é que correria o risco. A Avenida Contorno, do outro lado é outra conversa: Choque descendo, P.E> subindo e agente da civil dando bote de paisano. Até eu explicar o dinheiro guardado no tênis, ia eu no rodão da 1.a e só quinta feira tava solto. O jeito é mesmo atravessar a muvuca, seguir na levada, pronto pra tudo e entregar a Deus.

Desde a Praça Castro Alves é terra de ninguém. Eu fiquei nessa de pensar na vida e só percebi quando o trio tinha já começado a tocar. Sorte minha que era Baby Consuelo sem pecado e sem juízo, aí du pra subir até a Carlos Gomes no vácuo de um cordão da PM que atravessou a praça. No começo da avenida, eu já pego Margareth botando o chão pra tremer. Sua voz potente atravessa os corpos em milhares de decibéis, a percussão come no centro, o couro das congas é que marca o ritmo, a massa se agita ao som de Dandalunda, e eu sigo a minha estratégia: dançar junto com a música, cuidando pra não levar pancada , e avaçar uns cem metros a cada intervalo. O trio de Margareth é de pipoca, só o povão é quem vai atrás mesmo. Viola de um lado, biriba do outro, playboy nem pensa em colar. desvio dos grupinhos, é onde mora a covardia. Um que pare de vacilo no meio de uma barca dessa: eu que já sou macaco velho, sempre na levada. minha mulher me esperando em casa, ó praí, eu colei foi numa pretinha que me deu um sorriso e fui grudado nela até o outro trio. Ainda dançou pra mim, alegria da cidade, e enfiou a lígua quente em minha boca, dançou e me soltou de volta no fluxo de gente. Mais à frente rolou uma briga grande, eu conheço uns caras de Castelo Branco, mano, os caras treinam o ano todo pra brabarizar no cranaval. Mistura com cravinho, duas gramas de pó,, o peão parece o stanás, cada músculo definido brilhando de suor, superagilidade, maldade pura, ginga que ninguém nem entende a velocidade dos murros que derrubam o outro preto em sua frente. Cara pisada no asfalto, barriga chutada, dente quebrado. Os pivetes fazem os halteres com latas de leite cheias de cimento, cabos de vassoura e vão se inchando de fevereiro a fevereiro. Corta perna de calça, costura um saco de boze e vai calejando a mão até ficar parecendo uma soqueira, um murro, uma queda. Quem gosta mais de valentão é a P.E. Tem quase um metro e meio de madeira maciça, o cassestete da PE, vai te buscar por mas que você corra e onde bate quebra. Um briga entre galeras, é sempre o pretexto pros meninos da pátria descerem o pau em todo mundo. Vão abrindo um clarão por onde passam, a multidão se pisoteia pra fugir, e eu não perco o meu caminho, vou pelo canto do trio de bloco, pulando um samba reggae das antigas que ninguém se esquece. Mas trio de bloco é o diabo pra passar:b os parmalat dançando suas coreografias coloridas no meio da avenida, protegidos por um cordão de seguranças negros. Voc~e tem de passar espremido. Se o cara que está encostado na parede não soltar um murro, pode ter certeza que o cordeiro vai soltar, que cordeiro também é instinto ruim, e hoje é o último dia de carnaval. Se não for um dos dois, tem sempre o fluxo oposto descendo de volta pra a Praça, e daí voc~e pode esperar.

Bater em segurança é otarice, porque são muitos. Parar pra brigar não dá, que a multidão quer passar e te empurra. Eu me fixo é em quem vem na frente. Um outro preto de uns dois metros que para na minha frente e larga dois cruzados. Só tenho tempo de desviar e sou empurrado mais uns cinco metros à frente e nunca mais o verei. Dois milhões de pessoas na rua, nunca mais o verei. Tem até grupinho de mulher de shortinho enfiado que junta pra querer dar pancada em marmanjo, e se você não ligar, toma.


Passei do trio, toca outra velha do Olodum, folgou, dá até pra dançar. Os playboys dentro do cordão, fantasias exóticas, drogas liberadas, cerveja e gente bonita, como eles dizem por aqui. Câmeras de Tv, artistas famosos, luzes de refletores, flashes e helicópteros sobrevoando o circuito, tudo ao mesmo tempo. Nós somos apenas o cenário da festa deles.

Quando a banda pára, então as coisas sossegam um pouco, uns e ôtro come um churrasquinho, bebe uma cerveja, come um acarajé. Parei na Dona Júlia na altura do Tuiuti. Três da madrugada e eu indo. Ela com seus sessenta anos, mais quatro filhos e os netos que não aguentaram o tranco e pegaram no sono sobre uma caixa improvisada de papelão. Não pára nem pra conversar comigo. Vai falando e despachando uma latinha, virando a carne, remexendo os bolsos atrás de dinheiro trocado. Eu até já gostei de beber, mas deu problema que eu gostei demais. Agora eu quero é chegar em casa e me aninhar com minha nega, que tem umas sem álcool no congelador. Tchau Dona Júlia, e eu vou aproveitar essa trégua.

Essa paz aparente, no entanto, se restringe à avenida principal. Nos becos e vielas transversais, o terror come solto. Um é o beco da Ribeira, onde só entra o pessoal da cidade baixa. Em outro somente chega o pessoal de São Caetano e Fazenda Grande, outro só cabe o povo do subúrbio. Outro é das Cajazeiras, outro da zona do Cabula. Ai daquele que der de entrar pelo caminho errado. De toda maneira, todo mundo sabe que toda comunidade tem suas diferenças internas. Os caras da rua de cima não se dão com os caras da rua de baixo, os do Bonfim não se dão com os caras da Boa Viagem, e nem os da Cajazeiras Oito com o pessoal da Dez. O momento de resolver é justamente esse, sob a pena de ficar escorado o resto do ano, nas rodas da vizinhança.

Eu passei largo, nego véi, que meu movimento agora é outro!

Outro trio de bloco, me fodeu: Chiclete com Banana.Último dia de carnaval, ninguém merece. Só música acelerada, a batida perfeita pra a pilantragem, o povão vai ao delírio diante de seus ídolos maiores! Só entra quem guenta, vai ficar esperando o trio passar? Eu um negro pardo e magrelo, ninguém dá nada, mas sou gente ruim também, e nada disso pra mim é novidade. Já desci também, e muito, na avenida com os cowboys de lá da área, pra ver quem era o cruzado mais rápido do velho oeste, já vim ano após ano pra cobrar comédia do ano passado, já sangrei e tirei sangue nessa avenida, e te digo hoje que a minha é passar abatido, que eu não vejo sentido nenhum nessa gladiação: os brancos dançando protegido e agente aqui fora se matando. Tia velha trabalhando, e eu, homem barbado, vacilando. Eu se não for pra trabalhar não saio nem de casa, pra te dizer a verdade, mas aqui estou.

Eles têm o costume de começar a introdução da música bem lentinha, pra a massa cantar junto. Num momento dão uma parada brusca e recomeçam num galope louco que parece que pontua um bombardeio de adrenalina pro coração. É bom pra quem gosta, devo confessar. Na fé do senhor, passei sossegado e depois ainda dancei uma levada com outra princesa da Liberdade que queria que eu a levasse pra casa, meu Deus! O Vocalista é o diabo, parece que gosta de acelerar mais a música pra ver o povão se descontrolar, e ainda é torcedor do Bahia. Larguei a Princesa Preta, preta, meu dia já chegou, meu coração já está dado: eu passei do trio, minha corrente, e quebrei pro Campo Grande e tô em casa. Daqui pra lá eu só tomei uma cutucada dos "home" pra sair da frente do caminho, tão distraído que ela me deixou, embebedado no seu cheiro. Um mês de costela dolorida, já sei, que não fraturou, mas foi pouco, qualquer vacilo no carnaval é fatal.

Me espere minha pretinha, eu tô chegando com o dinheiro enrolado na meia, minha mulher, chegando com vontade, que terça-feira de carnaval não termina assim, sem encontro de trios, só quando um de nós se desmaiar.


Mandingo

11/08/2004

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Salvador Negro Rancor - O Conto


Salvador Negro Rancor

Uma cabeçada. Quando eu terminei o meu rabo-de-arraia, o gringo me pegou na cabeçada: fingiu que ia soltar outro rabo-de-arraia por cima do meu, e retornou com a cabeçada. O não-esperado, a surpresa, o de repente do movimento, me jogou no chão com os meus anos todos de Capoeira. Ele ainda soltou uma chapa de costas raspando meu rosto, pra mostrar que podia ter me matado. Saí de lado no rolê, não caí de bunda no chão, mas de todo jeito, o sujeito tinha me desmoralizado, e tinham bem uns três mestres antigos tocando os berimbaus, sorrindo, brincando, debochando de minha falha.
Levantei, sacudi a poeira e dei a volta de aú. O escroto do gringo abria os dentes, como se estivesse brincando também, como se fosse só um jogo, um brinquedo exótico, uma reunião entre amigos, e ele pudesse me tratar com toda a intimidade. Tentei buscá-lo numa rasteira, ele saltou na bananeira, ágil como um gato, e caminhou de cabeça pra baixo, num equilíbrio impecável, me olhando. Ensaiei uma cabeçada, ele se fechou, marquei um rabo-de-arraia, ele esquivou sem dificuldade. Lembrei do meu Mestre. A volta do mundo, a paciência, a diplomacia. Fosse pra ser, eu encontrava ele em outra roda, num dia, num ano qualquer, fosse pra ser, e descontava minha cabeçada. Não podia era me afobar, perder a elegância, isso ele não tolerava. Pois baixei no pé do berimbau, respirei fundo, pedi calma a Oxalá, marquei um ponto no chão e chamei o rapaz de volta pro jogo, como se nada tivesse acontecido. Os golpes se sucediam, lentos e sincronizados, bonitos, ritmados pela languidez do toque do berimbau, a luz opaca que descia do teto enchia a sala de nostalgia, e eu pratiquei quase que em transe , aquela magia secular de resistência, como se corpo não tivesse, e fosse somente movimento. O Velho Mestre abaixou o berimbau, chamando o final do jogo. Fechei minha oração, apertei a mão do americano e fui tocar o atabaque, e fiquei lá até a roda terminar, já pelas tantas da noite, admirando o jogo dos coroas, cheio da malícia ingênua e perigosa, que nos ajuda a vencer os dias.
No ônibus vinha pensando, de que maneiras podia ter escapado do bote. Um movimento simples, na verdade. Se fechasse o corpo com o joelho, ou mesmo se retornasse o peso com o cotovelo no seu rosto, tinha facilmente desfeito a situação. Foi a distração, minha inimiga, talvez por confiança demais, só um segundo de distração, e pronto, no momento seguinte era o chão. As pessoas voltavam pra suas casas, muitas vindas do Pelourinho, onde o Olodum tinha ensaiado. Noite de domingo, amanhã era dia de branco, o pessoal gastava tudo de véspera, pra não sobrar nada no outro dia, e agora juntavam-se bêbados, torcedores de futebol, crentes e alguns ladrões de ocasião, como num poema de Limeira. O cara dirigia como se tivesse levando uma carga de galinhas pro abate, jogando velha por cima de menino, crente por cima de ebózeiro. Uns gritavam, outros não estavam nem aí, querendo mais chegar logo, pra longe daquela intimidade forçada, nosso barco ia.
Era a coisa do aprendizado, segundo o meu Mestre, de aprender com os erros, de aprender na roda pequena da Capoeira, o que me serviria para me fundamentar na roda grande da vida. E entre os erros, a distração era um dos piores, ali mesmo em nosso comboio, distrair era suicídio, podia custar ou a vida ou a morte, um mal entendido, uma resposta mal dada, um olhar mal trocado, um vacilo com a carteira, um flagrante na mochila e bum, ia tudo no chão, rápido demais pra que eu pudesse resistir. Então a atenção de capoeira era assim, do início no pé do berimbau, até o final da roda, tudo iria acontecer a qualquer minuto, e eu tinha de estar atento o tempo todo. Na real, minha mágoa era essa: falhar num fundamento tão elementar! O gringo soube levar. Evadiu o jogo, escapou bem nos meus ataques, não procurou mais apertar o jogo, nem deu sopa pra que eu o pegasse em erro. Certo então, um a zero pra ele, e vamos seguindo, sendo sempre o que Deus quiser.
Nisso aí, fui chegar em Cajazeira quase meia-noite, suado, cansado, mais pela hora e meia de viagem do que por trabalho ou exercício. Dei um toque no celular da preta, eu queria te ver. Ô nego, eu to tão cansada – ela disse – amanhã saio cinco horas pra o serviço, não descansei nada no final de semana, fazendo docinho de festa, Tô acabadinha. Mas chegue na porta -eu falei- e ela saiu pra me ver. Ô nega morrendo de saudade. Tava nada, se tivesse tinha ficado aqui e não tinha ido pra nenhuma Capoeira. Ô preta, a Capoeira fica fora disso, vamo dar uma volta, vamo? Que volta menino, cê não ouviu o que eu falei? Eu tenho um nada pra dormir antes de ir trabalhar. Meu patrão tá indignado por causa da sexta-feira. Mas sexta-feira foi bom demais num foi? Ela sorriu, se encostou me encostou no muro: Foi sim, bom demais, mas trepar não dá salário e você não tem dinheiro pra me sustentar né? Não tenho ainda princesa, eu to estudando pra isso, hoje eu sou pobre amanhã sou doutor. Lá vem você com Capoeira. Foi mal, é vício mesmo, mas vamos andar um pouco vamo, abriu um hotel maneiro na Rótula, vamo lá conhecer? Hotel de alta rotatividade? Altíssima rotatividade, vamos lá pra eu te fazer rodar, vamo? Você é horrível nego, assim você me leva derretida numa vasilha, e foi quando a velha botou a cabeçona pra fora da porta e perguntou se não já estava na hora dela entrar pra dormir cedo pra ir trabalhar amanhã. Ta sim mãe, já tô indo!

Levantei às seis, a porta de aço da padaria. Pão já todo feito, chão passado pano, tudo cheirando a novo. A Ladeira do Pelô tinha sempre movimento, fossem gringos, funcionários públicos, viciados em crack, sempre alguém subia e descia, sempre alguém cantava, sempre alguém gritava, ou cantava gritando, pra ser mais que a confusão toda do início do dia. O sol já tava forte às seis da manhã e eu sempre achava bonito aquele céu do pelourinho, completamente azul sem uma nuvem branca, só o azul maciço, pleno, e o bando de pessoas fazendo suas vidas mais uma jornada, tentando a sorte na corrida dos ratos, é isso. Desde manhã cedo o pessoal do velho sindicato corre na padaria pra comprar bombinha de pinga. Um real, um e cinqüenta, a bebida garante a lucidez necessária, pra arrastar mais um dia pastoreando os carros dos funcionários, vencendo moedinha que nem criança aceita mais. O espanhol brinca, dá risada, fala com o sotaque espalhado, começou cedo hoje hã? Pro coroa que conta as pratinhas no balcão. O pessoal diz sempre, que eram artesãos, sapateiros, escultores, que viviam aí no Pelô e foram retirados de suas casa pela reforma. Outros somente perderam seus ofícios pra a modernidade, como os tipógrafos, os enceradores de pisos e móveis, os fotógrafos de rua. Agora batendo ponto no velho sindicato, se atracam na rua pelos pontos de vigia dos carros, e agente se diverte vendo eles brigarem, com uns socos cegos que às vezes os fazem girar em torno deles mesmos, sem acertar nada nem ninguém. É assim, esse cheiro de pão fresco costumava me nostalgiar com lembrança de infância, me deixar numa alegria melancólica. Hoje em dia é só mais um detalhe de minha mais-valia de oito horas de segunda a sábado com duas horas pro almoço que eu divido com o colega que faz os lanches na chapa e que é um maluco que estuda filosofia e que faz dos mais diversos efeitos das substâncias alucinógenas que estejam ao seu alcance, o tema de suas pesquisas. Tito é um negão maneiro, sabe de tudo mais prefere não se envolver em nada. Um tipo novo de bon-vivant, malandro até o osso, impressionante, eu acho que até dormindo esse rapaz arranja mulher e não se atrapalha. Trabalha pra caramba, faz sua faculdade, dá força pra a mãe véa, malha, o que não quer é se envolver em política. O mundo é vontade de potência nego velho- ele dizia despachando um cheeseburguer- como é que esse pessoal cheio de doença e mania vai libertar ninguém? Cozinha é o juízo dos outros em reunião, pra vencer na teoria, dominar sem força, só na mediocridade de suas éticas de escravo. Eu sorria, duas varas de pão pra Dona Lurdes, vinte pãezinhos pra Márcia, Márcia tava ficando uma coisa louca. Duas caixas de leite pro Juarez do gás. Ele não desistia. Esse pessoal, meu irmão, se fizer revolução, se fosse quilombo, não conseguia nem subir a Serra da Barriga, de tão gordos e cheios de comida e conforto, eles já não tem o direito animal de falar sobre a vida, porque eles são escravos do conforto, ta ligado? Eu sorria. Dona Vera queria um pacote de Cream Cracker, Seu Ivan queria meio quilo de queijo fatiado bem fininho, que só eu conseguia tirar, a maluca que pedia na frente do Rosário queria uma caixa de fósforo e o guardinha da Set uma carteira de cigarro. Eu era cheio de braços e mãos e de pernas, atendendo a todos, enquanto o espanhol sentava lá no caixa e não saía de junto do dinheiro. Ele ficava invocado quando agente conversava coisas que ele não conseguia entender. Acho desconfiava que mais dia menos dia agente ia matar ele e tocar fogo na empresa da família, fazer o quê?
Tito que apontou, lá vai o seu gringo subindo pro Santo Antônio. O filho de vaca vai treinar lá com o Mestre Naval e fotografar os Mestres velhos que estão lá no Forte essa hora. É nego, o cara dá dois de você, você precisa malhar,você ta muito fraquinho. Vou ficar igual a você robocop? Ficar forte igual a mim vacilão, criar sustança pra num ta tomando rasteira de gringo. Eu não tomei nenhuma rasteira de gringo não cumpadi, foi uma cabeçada e isso aí em você é músculo burro, duro, sem flexibilidade, não serve pra Capoeira Angola, que o corpo tem que agir na velocidade do pensamento. Conversa nego, conversa, ce tá precisando pelo menos de um complemento alimentar. Trabalhar Tito, vai trabalhar, a freguesa ali pedindo lanche faz meia hora e você jogando conversa fora, eu quero ver você fazer um treino comigo, do início ao fim, aí agente vai ver quem é que está fraquinho.
Durante o dia, o almoço com Tito era o único momento em que eu me sentia vivo. O resto era a escuridão da morte, um limbo de movimentos automáticos e palavras repetidas sem propósito, como se um parasita cósmico sacana pilotasse meu cérebro e me soltasse somente na hora em que eu saía dali.
Diante do prato de moqueca, ele continuava, derramando sua filosofia. Que Nietzsche e Foulcault eram o caminho, a verdade e a vida e que ninguém iria a lugar nenhum senão através deles. Eu gostava. Era bom que ele pensava e falava por mim e por ele, e eu podia ficar em silêncio me fazendo de sério e só refletindo em cima das idéias dele, sem esforço quase nenhum. Jogava um monte de molho de pimenta no prato e desenvolvia. Que esses europeus eram o reflexo da merda de sociedade cancerígena que eles mesmos criaram, que a merda da filosofia deles não alcançava os povos fora da Europa porque agente vinha de um outro berço cultural. As meninas vinham na mesa, pediam um real pra comprar crack e saíam, com os seus cachimbos na mão, atrás de mais outro otário. O ideal coletivo é uma mentira-ele dizia- o mundo é a luta por domínio de uns sobre os outros, e vença o mais forte, o melhor, e na lei de Muricy, cada um cuide de si. Eu pensava que o indivíduo não-europeu só tinha sua individualidade integral no sentido da comunidade, só se completava em meio aos seus, e que a vontade de dominar os outros, era um vontade de potência doente, a verdadeira potência estava em se dominar, em se conhecer, em se expandir, e isso só se costurava em coletivo, de forma clânica (e o Zé Bim perguntava na tela ao menino negro acusado de furto: Sua casa caiu?) Tito era uma metralhadora, e dizia que o que ele via nos movimentos era a dominação mais mesquinha, daqueles que tinham o mínimo de conhecimento sobre aqueles que eram de tudo ignorantes, e que precisavam de uma liderança pra morrer por eles. Nego Tito, o que você vê hoje não é medida pra nada, é conseqüência da escravidão, você tá confundindo capitão do mato com quilombola, tá se embaralhando todo. Que nada, fique aí com seu romantismo dando sangue pra esses fuleiros enquanto eles dão voltinha com carro do governo e comem suas amiguinhas afro- feministas. Saúde era na África, eu finalizava, saúde era na África e África é nossa medida. Olhe seu gringo subindo o Pelourinho, e já tá com outra camisa de Capoeira. É rapaz, ele tá indo treinar com o Mestre Pedra Preta, e fazendo uma pesquisa lá sobre as músicas antigas de Capoeira. Voltávamos com nossas caras de conspiradores, olhando calados e firmes a cara vermelha do espanhol na caixa registradora cheia de bambá.
Às seis, mochila nas costas a caminho da academia, era que minha vida recomeçava, e sentia meu sangue voltar a pulsar nas veias, o ar voltar pros meus pulmões, as coisas a fazer sentido. O gringo também estava lá, treinando com o meu Mestre que ele conheceu numa viagem que o Mestre fez lá pro outro lado. Eu silenciei por dentro, não me importava. Queria viver integralmente minha cultura, queria encontrar a Ioga da Capoeira, sua meditação, seu equilíbrio, nadar até a profundidade da sabedoria que ela guardava, século após século, e trazer isso comigo por cada segundo de minha vida, não como uma atividade física, nem como uma distração. Eu queria ser um Capoeira o tempo todo, respirar isso, ver correr no sangue, pensar capoeiristicamente, ser uma espécie de monge capoeirano, um devoto, um iniciado, um samurai.
Após nos alongarmos, começamos a gingar lentamente. Meu brinquedo era tornar consciente cada mínimo movimento, as menores flexões do corpo, os músculos se estirando e contraindo. Um berimbau tocava um lamento. Desci na negativa, movimento de resistência, contraindo os músculos na medida necessária para desviar dos golpes possíveis. Então a força, pra subir do chão, retornar pra a ginga, descer de novo, treinando repetidas vezes da mesma forma, sem deixar, no entanto, nada mecânico, percebendo tudo, atento pra qualquer reação, pronto pra sair, escapar, mudar tudo a qualquer momento e atacar, quando houvesse espaço. Eu passei tanto tempo sem saber, sem compreender que cada pequena coisa fazia uma diferença tremenda. Às vezes simplesmente o lugar onde se colocava a mão, para iniciar um golpe de ataque, modificava toda a sua seqüência, dificultando ou facilitando as possibilidades posteriores de defesa. Ou o lugar onde se retornava de um movimento, onde se punha o pé, centímetros mais à frente ou atrás, nos tornava presas fáceis pro parceiro, em caso contrário, inatingíveis. Nego Hélio que dizia, que de nada adiantar fazer grandes coisas, as partes mais difíceis, e esquecer dos pequenos detalhes. Subia e descia, virava de cabeça pra baixo, trocava a mão pelo pé, o pé pela mão. Em minha frente, um amigo de muitos anos, muitas festas, muitas barcas. Um amigo que podia tornar-se de repente, tão letal quanto o meu pior inimigo, e eu subia e descia, mas sem perdê-lo de vista, ser humano, falível, traiçoeiro, o que vem trazendo, o que vende aí? Vai saber. Eu me preparava pra tudo. A Capoeira é dialética em seu fundamento. Um pequeno número de ataques e defesas, que se combinam e se multiplicam infinitamente, criando variadas formas de responder ou desviar das perguntas lançadas pelos parceiros, de apresentar perguntas cujas respostas eles não possam solucionar, ou mesmo, trancá-los em seu próprio jogo, até o momento certo de empunhar o golpe certeiro, infalível: o cheque-mate.
Mãe que diz sobre o Candomblé, que o que se aprende no terreiro serve pra qualquer situação no mundão, mas que nem tudo que serve no mundão serve pra dentro do terreiro, e meu Mestre ia na mesma linha, repetindo o Mestre Pastinha, que a Capoeira Angola é tudo o que a boca come, que educa pra vida. Daquela pequena roda, rodava-se o mundo todo sem paradas, sem dificuldades, com a mente ágil e bem treinada, o corpo potente e sempre pronto, pra bom entendedor, porque tudo é sim, sim, sim , mas também é não, não não. O Mestre castigava, forçava até o limite dos nossos corpos, arrancava o que de preguiça tivesse na planta da bananeira, no salto da queda de rim, na ponte, escorriam no suor o espanhol, o dinheiro que não tinha, a falta de ver a nega, as três horas diárias dentro do coletivo lotado, a conder querendo derrubar meu barraco, a coelba, a embasa, e todos os diabos que trabalham contra o que é sagrado, no suor grosso que escorria por meu corpo todo. Depois da ducha no banheiro da academia mesmo, eu era outro homem. Leve, feliz, pleno, íntegro e pronto pra vencer o que de batalha fosse, como vinha vencendo dia após dia, desde que no mundo me jogaram. Entrava no ônibus quase dançando com a cobradora, leve mesmo, fone de ouvido escutando Felá Kuti: “I ´m not getleman like those. I´m african Man original...” me sentindo, me sentindo.

Às doze horas ela amarrava um pouquinho: ô nego olha a hora, tem de trabalhar amanhã, ô nego, minha mãe tá puta da vida comigo. Quando eu arrancava sua calcinha no dente era que começava a se entregar, e apertava os olhos e esticava o rosto pra cima. O povo diz assim, com as mãos na cabeça pra não perder o juízo.
À uma da manhã ela era toda egoísmo: calada, em cima do meu corpo deitado, subia e descia na medida do seu prazer. Exata, sabia o que queria, lentamente conquistava o seu gozo, que eu previa em suas mãos apertando mais e mais os meus braços estirados.
Às três estava louca, serpenteava grudada em meu sexo, arrancava os lábios de tanto morder. Estava quente, suada, delirava sandices e me pedia palavras obscenas. Eu era seu rei, seu macho, seu nego. Ela se derretia, saltava, eu empurrava com força, ou metia bem devagar, pra lhe ver ficar mais doida, chamava de puta, minha puta, e ela oferecia o rosto pra uma bofetada. Aí arrancava minha pele com as unhas, trazia nas mãos meus cabelos, se soltava de mim chorando, soluçando, o corpo levemente estremecido por descargas elétricas.
Às cinco era pura ironia: Cadê o nego, cadê? Se num guenta pra que veio, menino? Os pássaros, vagabundos, já cantavam no quintal, os galos da vizinhança, os ônibus, os radinhos de pilha já anunciavam o dia novo querendo trabalhar. Eu me internava lá dentro da nega, me acabava, me perdia, me encontrava, e tomava um banho todo duvidoso, que eu gostava era de ir trabalhar com seu cheiro grudado em meu corpo.
Às sete, já no ônibus, encostava a mão no meu pau, e percebendo a latência, sorria discreta e me chamava no ouvido, de cachorro.
Tocava no fone de ouvido: “and if it´s all night, got to be all right”

Meio de semana, eu na lida dura e lá vai o gringo subindo a Ladeira do Pelô com sua mochila cáqui, cheia de calças cáquis e camisetas brancas. Vai viajar pra Cachoeira, por todo o recôncavo, gravando, fotografando, tomando nota, entrevistando as pessoas mais velhas, os senhores contadores de história, as velhas parteiras, as tias cozinheiras e as feiticeiras velhas. Leva seus livrinhos de antropologia, certo, leva seus livrinhos de sociologia, certo, leva seus livrinhos de geopolítica, certo. Ontem o Mestre tinha mandado que todos os alunos, e os demais que estavam fazendo o treino, nos dividíssemos em duplas e jogássemos uns com os outros, como simulação de roda. Isso já no final do treino, depois de ter arrancado o nosso couro e também as nossas vísceras, era o teste maior de resistência, de bom preparo e de resultado. Eu mandinguei, não vou mentir. Primeira oportunidade que eu tive, fiz sinal pro meu parceiro e parei pra olhar o jogo do gringo com um menino da Sussuarana. Jogava direito mesmo, o loirão, concentrado, ágil, extremamente flexível. Técnico como uma máquina, reproduzia perfeitamente cada novo movimento ensinado pelo Mestre na aula. Não demonstrava nenhum cansaço ao repetir cada uma das saídas e cada uma das entradas treinadas durante a semana. Eu procurava o detalhe, o lapso, o defeito, mas ele não vinha. Percebi que o Mestre me olhava já a alguns minutos, e quando nossos olhos se cruzaram, fez sinal pra que eu adiantasse meu treino. Saí pra rua ainda refletindo nas vias de acesso pra o seu coração, quando a nega me ligou, eufórica, que tinha saído o negócio da bolsa da faculdade, e que me amava, e que agora agente tinha de vender os cabelos da bunda pra conseguir quitar os débitos anteriores, pra poder receber o benefício. Me alegrei com ela, mandei amor via ondas telefônicas, que linda a tecnologia então. Que isso merecia uma garrafa de vinho e mais uma noite de amor, que até a velha ia se alegrar.

A desintoxicação, em todos os casos, é uma atitude mental. Um dia eu deixei de acreditar, e essa opção me libertou. Não é livre o homem que, sob escravidão, trabalha durante toda a vida, guardando moedas, para que no fim dos seus dias, possa comprar alforria, e viver alguns minutos que seja, sem o jugo legal do seu amo? É escravo o quilombola, o que ainda com os ferros nos braços foge em desespero mata adentro, ainda que morra estupidamente, por acidente, por picada de cobra, pelo capitão do mato? O fato é que ele não crê, não admite, a estrutura mental que justifica sua subjugação. Como a água, que entre as barreiras de pedra, segue brusca ou lentamente o seu curso, todo o seu ser está direcionado para o não-escravo, o não submetido, o revolto, e a escravidão deixa imediatamente de existir.
Eu vinha numa loucura pra lá de patológica, já há muito tempo, nessa de não acreditar. No momento vivia em minha onda de recuperar os meus direitos animais, que os direitos humanos já não pareciam me bastar. Me sentia um leão, de volta ao poder animal, de comer, de dormir, de trepar, de celebrar, de matar, de gostar do gosto do sangue, de destruir qualquer um que se metesse em meu caminho pra me parar. Era assim como a água durante o dia, um conspirador, um infiltrado, um terrorista, um mandingueiro ladino, tentando de leve corroer e corromper a estrutura enquanto sugava dela o que de bom tinha pra mim, deixando é claro, a cota do meu suor, cumprindo o meu que fosse de compromisso, que nada aqui vem de graça. De noite, fora do trabalho então, eu era o próprio fogo queimando, todo brasa, preguiça em mim não existia, fosse pra treinar três horas de Capoeira depois de um dia de trabalho, ou pra traçar concreto e fazer laje em casa de minha tia, pensando claro, organizando o pensamento, compondo, criando, estudando, aprendendo e ensinando, meu corpo forte e afiado, leve e permanentemente pronto, o sexo ativo, a percepção desconfiada pro que fosse de movimento de matéria, e ágil também pra perceber o que fosse de intuição, de recado, de mensagem, dos Deuses ali colados comigo, um do lado do outro e Eles sempre acima. Era Eu, burnin’ .

-Esse pessoal nem no Pelourinho passava, que era brega e que só tinha puta, traficante e trombadinha – disse o Mestre Antigo, virando uma dose de canela na garganta – Agora taí, morador antigo é quase nenhum, que foi tudo pra Fazenda Grande 3, Alto de Coutos, pra onde o governo mandou. Tem uns dormindo na Baixa dos Sapateiros também – complementei concordando. É, tem um bocado de morador antigo do mangue que agora é indigente na Barroquinha, dorme no albergue e o resto do tempo é pedindo dinheiro na rua. Eu vi essa semana, menino, um Manoel, que era tanoeiro, o melhor tanoeiro que tinha em Salvador, ali do Maciel de Baixo, guardando carro no Tabuão, sujo, fedido, me pediu um real pra comprar pinga e nem me reconheceu. Eu que reconheci ele. É Mestre, é triste, o Pelourinho tá acabado. È porquê, menino, o que faz um bairro, são os moradores, é todo mundo conhecer todo mundo, um mais velho que conhece você por que você é filho de num sei quem do 40, um que toma conta do outro e até se mete na vida, mas sem nenhuma maldade grande. Mas o bicho já pegava aqui, né Mestre? Pegava o quê menino, era bom! Isso aqui nunca dormia, tinha sempre movimento, gente sentada nas portas conversando, os meninos jogando bola no Largo, vários capoeiristas bons andavam por aqui, nos castelos, nos bares, nas serestas, qualquer festa era motivo de roda de bamba. Polícia era que chegava aqui barbarizando, querendo massacrar os outros, querendo dinheiro, prendendo pai de família. Traficante. Cada um vive do que pode meu querido, o importante era que todo mundo se respeitava, se tratava bem, era comunidade, hoje em dia, olhe pra isso: um monte de loja, tudo falida, as ruas sem vida, os meninos tudo viciado na pedra, zanzando de madrugada que nem Zumbi, e os Mestres grandes, os bons mermo, a maioria tudo já se foi. Dei um gole na canelinha. A bicha desceu rasgando minha garganta, dilatando tudo o que é poro, como uma bola de gude no estômago, bom, forte. O Senhor tá enfeitando demais Mestre, com todo o respeito, mas eu alcancei a época do Pelourinho Mangue e não era nenhum paraíso não. Olhe meu filho, a vida é o que ela é. Me entenda: todo lugar tem otário, tem vacilão, tem caguete, tem gente enxerida, e essas pessoas, você sabe, não vivem bem em lugar nenhum, e sempre fazem confusão nos lugares. Então é isso né Mestre? É isso sim menino, acredite nesse Mestre velho que você não perde nada e ninguém te bole. Disse sorrindo um sorriso ao mesmo tempo ingênuo e malicioso, traçando de rugas o rosto forte e cheio de vida. Firmeza Mestre, já vai, eu vou descer por aqui Mestre, ver se vejo a nega, ou uma roda de Capoeira. O que achar primeiro? É, o que achar primeiro me leva. Cuidado que se a nega tiver na roda você pega embaixo!
Desci a Alfredo de Brito, bambeando, todo serelepe, não era tarde, mas as ruas já estavam vazias, somente os garçons e donos dos bares esperavam nas portas a chance de interpelar algum estrangeiro perdido, e vender alguma coisa que fizesse a noite valer. Segui o caminho das pedras pretas, cabeça-de-nego, usa-se chamar, pois eram trazidas nas cabeças dos africanos, que vinham desde a rampa do cais, subindo ladeira até chegar aqui. Os casarios antigos me cobriam, deixavam um pedaço só de céu noturno pra ser apreciado. Não descuidava do passo, que as pedras engorduradas te derrubam e você só fica sabendo que caiu quando a bunda encontra o chão. Desci o Largo do Pelô, palco grande de batalhas e festas, até as pedras ali cresciam, regadas de tanto sangue. Uma baiana de acarajé solitária espalhava na praça fumaça de dendê, fritando no azeite a passarinha. Já vi muitas vezes os meninos armarem campo nessa praça enladeirada, e jogarem bola até o amanhecer, enquanto os mais velhos sentados nas escadas do Museu, conversavam sobre o futebol e sobre os casos de polícia. Em lugar disso, só os sacizeiros dançando em frente à Praça do Reggae, suas danças estranhas e robóticas. Subi o Carmo, também ali a maior parte dos casarões está fechada, lacrados, esperando que a especulação imobiliária dê mais valor ao patrimônio do outros. Assim a má iluminação e a neblina de churrasquinho e cigarros deixa um tom fantasmagórico pra quem passa depois das poucas mesas onde bebuns e artistas tentam salvar ou destruir o mundo. Passei pelo Pascoal, cruzei o Santo Antônio, onde as casinhas térreas de telhas de barro e cores singelas se sucedem infinitamente, me fazendo lembrar a Ribeira, ou qualquer cidadezinha do interior, e velhas mais velhas que a república brasileira ainda botam a cara nas janelas pra olhar a vida dos outros, algumas mais ousadas ainda fumam sedutoras seus cigarros longos, relembrando vedetes derrubadas em suas camisolas de dormir. No Largo do Santo Antônio já se escuta o som dos Berimbaus, provenientes das várias Capoeiras que sobrevivem lá dentro do Forte, antiga Cadeia, onde os mais velhos Mestres de Capoeira Angola ainda brincam seus brinquedos, extasiando toda uma multidão de amantes antigos e neófitos, que falando todas as línguas possíveis e cantando em todos os sotaques, repetem aplicados as cantigas ingênuas que os pretos cantavam por essas mesmas ladeiras e ruelas, no tempo em que tudo isso era perigoso, em que tudo isso parecia que ia dar em um beco sem saída e vazio de sentido, se todos esquecessem como essa brincadeira ainda poderia ser feita com vontade e vigor e alegria, pra não somente alegrar os velhos em seu segredo manhoso, mas também alegrar e motivar as crianças, as meninas, os meninos, soprando-lhes vida em suas cabecinhas ocas. Aí está.
A capoeira crescia na roda. Me benzi ao entrar: toquei com o dedo no chão, e com os dedos a cabeça, pedindo a graça da proteção do Orixás. De dentro já se ouvia: “ê,ê,ê ê, eu venci a batalha de camungerê...”. Andei mais uns passos antes de chegar na roda, e deixei no caminho todos os pensamentos que não fossem concentração e atenção. Já os mandingueiros lá de dentro, quando eu entrei, mudaram a cantiga só pra me saudar: “ Camungerê, como vai, como está? Como vai vosmecê?...” Eu cumprimentei a todos, beijei a mão do Mestre e me desculpei por só estar chegando na roda do meio pro fim. Ele fez com a mão um gesto de não ligue e vá jogar, e em silêncio, fui sentar no banco de aguarde.

Eu quando entro assim na roda, me entrego à Capoeira. Acreditando que sua sabedoria pode me conduzir ao que é certo, seja esse certo bom ou ruim, a depender do tipo de energia com o qual eu esteja, a depender do grau de atenção com o qual eu esteja sintonizado. È um pouco como não ter medo da morte, como não poder se fugir do destino, sendo melhor então, encará-lo com firmeza e comportamento digno, estando preparado pro que vier pela frente. Mais uma vez, o que for humano, que eu tenha forças pra dar conta, pra lutar sem medo, e vencer, de acordo com o que de meu é meritoso. O que for de maldade então, mas o que for escondido, o que for de traição e de covardia, que o povo do Orún esteja a postos, pra me proteger e não deixar cair em armadilha nem tocaia.
Baixei no pé do berimbau, e o gringo desceu pra apertar minha mão. Não pedi, não previ, não desejei, mas ele veio. Todo se bulindo, todo expansivo, fazendo pantomimas e símbolos de umbanda no chão antes mesmo de começar o jogo. Esse daí é mais macumbeiro do que eu - pensei. Tomei a benção dos instrumentos, do Mestre, dos músicos, cantador puxou um corrido, e eu desci em queda de rim, pra dar saída ao jogo. O abusado nem esperou eu retornar o jogo com rabo-de-arraia, e já tentava entrar com a cabeça por debaixo do meu corpo. Falta de educação, tava se achando porque me derrubou na outra roda. Evitei seu golpe com o joelho, girei outro rabo-de-arraia e abri o jogo na roda, dando mais espaço pra ele se espalhar em toda sua nova confiança. Ele pulava, subia, descia, soltava os movimentos rápidos em seqüência e remarcava o chão com as mãos, como se tivesse fazendo algum feitiço antigo. Eu nem lhe via. Girava e girava no salão apenas pressentindo seus movimentos e soltando movimentos básicos, deixando ele gastar à vontade. Abri uma tesoura, ele pulou no aú, saiu no rolê e soltou uma chapa pra acertar minha barriga, saí tranqüilamente do seu alcance, quebrei o corpo numa perna-pela-frente bem devagar, o que fez seus olhos brilharem pela oportunidade de me pegar em cheio novamente. Ele resistiu, não tentou entrar, mas se alterou visivelmente, empolgado com a possível repetição da cena da roda anterior.
Eu já trazia há uma semana a minha estratégia. Vi ainda no treino, corujando seu jogo, que ele tinha muita confiança, mas nem tanta Capoeira, e que aí era que eu podia lhe encontrar em erro: ele não esperava que suas entradas fossem devolvidas à mesma altura, nem com a mesma rapidez. Deixei ele jogar mais um pouco, espalhado. Depois encostei, colei em cima dele como se fosse sua sombra. Rabo-de-arraia encontrando suas costelas, forcei o cara a descer. Em cima, entrei com uma chapa de frente em sua saída de aú, marquei uma rasteira em seu rabo-de-arraia obrigando-o a saltar com a cabeça no chão e joguei um giro de calcanhar por cima pra faze-lo rodar num rolê rápido, sem o qual o solado do meu tênis alcançaria seu rosto em cheio. Sua feição mudara. Eu não apertara pra valer, estava apenas exigindo sua melhor Capoeira, levando o gringo a seu limite, e ele estava claramente irritado por isso. Então me retraí e esperei, o momento em que sua vaidade iria leva-lo como a um ladrão, a retornar ao lugar do seu crime, ou melhor, a tentar me pegar novamente no mesmo erro, no mesmo golpe, me desmoralizando outra vez. Mas como diz meu Mestre, o homem nervoso, afobado, tende a ser previsível em seus atos, e isso não é bom, pra um Capoeira. Abri o jogo, agora era ele que me buscava em cada canto da roda. E eu, se continuava sério, sentia por dentro um certo prazer, em conscientemente, controlar a situação. Não precisei esperar muito, e lá veio o menino botar açúcar em minha boca: Pulei num aú demorado, que eu quebrei ainda em cima, antes de voltar no chão, soltei um rabo-de-arraia bem colado nele, e voltei pra a base com o corpo bem alto, na posição ideal pra que ele me pegasse de novo, do mesmo jeito. Ele fez o mesmo, muito rápido. Para mim, em câmera-lenta. Seu rabo-de-arraia veio com tudo, pra arrancar toco de massaranduba que no chão tivesse, pra me fazer descer. Eu desci, quebrei a negativa bem no ponto em que ele me queria, abri um pouco o tórax, e ele veio doido, veloz como uma bala, com aquela cabeça loira sem noção das coisas. Ele veio doido, se soltou demais, na certeza de me encontrar indefeso e me derrubar novamente. Eu me fechei, pra sua surpresa, trazendo o joelho pra frente do corpo, com velocidade e força pra afastar sua cabeça do caminho. Passei o pé em seu rosto. Caso ele insistisse com a cabeçada, ia pé em cheio na cara, pra mandar nariz, se eu soltasse o pé, pro Ivo Pitanguy. Ele recuou, saiu rápido num rolê pra trás, pois sabia que tinha de sair do meu alcance, que o serviço tava todo dado. Ele conseguiu se livrar da minha chapa bem a tempo de ela não lhe alcançar, mas não esperava que o mesmo pé da chapa ia finalizar o movimento já dentro dele, e que eu ia subir de vez, buscando o seu rosto numa cabeçada. Ele tesou o pé, eu subi, ele protegeu a cabeça, eu puxei o pé que ele descuidara. Ele caiu que nem uma jaca em meio à roda, de bunda no chão e tudo o mais. A moçada delirou, sorriu e deu vivas. Eu levantei, circulei a roda enquanto ele se recompunha do inesperado, e quando ele começou a levantar, baixei no pé do berimbau, esperando ele voltar. Fiquei pensando pra onde fora o seu sorriso, sua animação, e rezei, de olhos abertos, pedindo a Xangô pra me guiar até o final daquele jogo.
Jogamos mais um pouco, ele se acalmou, então o berimbau chamou, apertamos as mãos e terminamos o jogo, sem maiores rancores ou confusões, somente as coisas nos seus devidos lugares e minha alma então um pouco mais leve, minha fera um pouco mais satisfeita. No brinquedo, só um dia depois do outro dia, um do caçador, outro de outro caçador, e não muda nada. A canoa virou, marinheiro e só nos resta saber o que há de se fazer no fundo do mar. Acabada a roda, uma mensagem de minha nega no celular, me intimando a encontra-la em nosso hotel de alta rotatividade, afinal, ela ganhara uma bolsa na faculdade!
Essa é um história da Bahia, a que eu acabei de contar, quando os malês, do blade runner, encontraram os replicantes em plena Praça da Sé, e o que se seguiu foi uma novela de amor e ódio pelas ruas antigas do Pelourinho, com direito a moqueca de siri catado e batida de mangaba. E tudo sem que os jornais virtuais virtualmente percebessem.
Mandingo – 10 de Dezembro de 2008

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Kaska

Kaska
(ou : estudo sócio-etnográfico sobre os gringos carentes)

Existe no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador, na Bahia, uma novíssima e pós-moderna categoria sociológica, única e característica desta região, facilmente detectável em qualquer rápida pesquisa, mas ainda não completamente estudada e fixada por sociólogos, antropólogos, ou historiadores da história recente que povoam suas ruas e vielas: o gringo carente.
Fenômeno temporalmente situado no início dos anos 90, disseminou-se mais amplamente a partir dos anos 2000, com a continuidade das reformas arquitetônicas começadas na década anterior. Espalhados por todo o perímetro do Pelourinho, são encontráveis ainda em áreas adjacentes, como Dois de Julho e Santo Antônio, andam sempre em bandos ou em casais, raramente se aventurando sozinhos. Exercem diversas atividades “produtivas”, como venda de artesanato, malabarismo, malabarismo com fogo, malabarismo com bolas, malabarismo com pinos, malabarismo com pernas de pau, coordenação de ongs, venda de artesanato, coordenação de projetos sociais e artísticos, cuspe de fogo, bandas de música africana, dança do ventre, música flamenca, percussão africana, heiki, permacultura, venda de artesanato, astrologia e pudemos registrar mesmo o caso de um dos indivíduos estudados que instalou uma mesa para jogo de búzios em pleno Terreiro de Jesus, desaparecendo em alguns meses, fato cujo motivo não conseguimos apurar completamente. Fontes orais afirmam que brevemente teremos por aqui alguns deles ministrando cursos da tradicional Capoeira Angola.

São em sua maioria, jovens desiludidos com a rotina estressante das grandes capitais do primeiro mundo, mentes livres que não compactuam com o sistema opressivo e genocida construído por seus pais e avós, e que simplesmente caíram na vida, deixando o peso de suas culturas penderem sobre nossas cabeças. ( Se bem que o pesquisador não deva envolver-se emocionalmente com o objeto estudado, peço desculpas). Têm formação acadêmica em boas universidades dos seus países, mas não atuam em suas áreas de formação. Muitos guardam bem guardados, cartões de crédito internacionais, que podem ser usados a qualquer momento, embora isso não os impeça de ousar inúmeras façanhas para garantia de sobrevivência, como tentar vender pulseirinha de palha por cinco reais, vender berimbau de cabo de vassoura, disputar sinaleira com menino de rua, dar rasteira em roda de capoeira, vender cocaína com sonrisal e tomar sopa da LBV na Baixa dos Sapateiros, entre outras coisas. Estão pelas ruas do Pelô, vestindo suas roupas improvisadas e coloridas, cabelos trançados como o dos rastafáris, sandálias de couro, pulseiras de cobre, com os corpos cobertos por tatuagens e piercings.
Entre todos eles, Kaska era o pioneiro:
- Yo toi aqui desde qui o pelorino era mangue, mano, yo soy niño do Maciel, del tiempo in que nego tomava pico de xarope pra tosse, e llamar una mujer de donzela era ofensa gráve, entendió ahora?
De fato, Kaska zanzava por ali desde os anos setenta, e embora não fosse nenhum grande malandro, do tipo que sobreviveu pela força, foi ficando na moralzinha, agradando uns aqui, deixando passar outros ali, fazendo média. De todo jeito, não escapou completamente ileso de sua epopéia pelorínica, carregando algumas cicatrizes no rosto e nas costas, da vez em que teve que esfaquear um agiota, ou da vez em que quebrou a tíbia de um traficante por cuja mulher se apaixonara. Tinha também suas passagenzinhas de 16 e de 12, e mesmo de 157 marcou sua loteria. Teve de sair fugido por várias vezes, mas como ninguém consegue se livrar do Pelourinho, voltava assim que a poeira baixava.
Seu portunhol horroroso fazia todos creditarem-lhe origem Argentina, mas o cara era na verdade, um sueco que morava nos Estados Unidos, mas que saiu de lá assim que morreu o Jim Morrison, e veio pra Salvador na mesma onda hippie que trouxe Janis Joplin e Mick Jagger pra cá. Seus ideais de pregar a paz e construir a liberdade, desceram pelo ralo no exato momento em que sua Kodak foi roubada, logo na primeira semana, e que a mão pesada do negão se fez sentir em seu pescoço por mais várias semanas. Plena ditadura militar, o Pelourinho era um verdadeiro inferno, uma terra de ninguém com leis e tradições próprias, sujeitas a serem descumpridas a qualquer momento. Um lugar sujo, em ruínas as casas e as pessoas, um gueto terrível, onde as drogas eram café da manhã, a prostituição meio de vida, a morte presença corriqueira. E ele, pelo menos, sobreviveu.
Cara chupada, cabelo loiro liso, escorrido. Olhos azuis quase invisíveis. Alto, magro, seco mesmo, várias tatuagens nos braços e pernas, parecia o Iggy Pop depois das drogas, um coroa enxuto, fígado, pulmão, baço, pâncreas, coração, tudo duro de tanto excesso, tinham virado couro, e resistiam. Andava sempre com a mesma roupa, ou alguma outra muito parecida: Tênis, meia baixa, bermuda cargo, camiseta sem mangas, boné camuflado, usava sempre uma pulseira de couro preto no braço direito, uma medalha de guerra americana no pescoço, umas argolas de alargar o lóbulo, uma figura. Ninguém sabia se lhe chamavam de Kaska, porque era um sujeito casca-grossa, se porque dele somente restava a casca, ou se era algum nome gringo esquisito.
Para os gringos carentes, era um herói, uma referência. Kaska fazia o intermédio entre os recém-chegados e os nativos, entre os novatos e as quebradas do Pelô. Ensinava-lhes as gírias, os trejeitos, levava pra festas fechadas, pra as rodas de capoeira, apresentava os gringos carentes aos nativos, os nativos aos gringos mais-ou-menos, os gringos mais ou menos pros gringos ricos e os gringos ricos para os nativos. Na verdade, era justamente como intermediário da fuleiragem, que Kaska, engenheiro náutico, vinha se especializando e tirando daí o seu bom sustento, vivendo como bon vivant, pelas ruas da Bahia, sendo cafetão, traficante, aliciador, ladrão, alcoviteiro e caguete, sendo tudo isso, e não sendo nada disso, sem dar um prego.
- Veja mano, yo tengo cocaína da boa, da pura boliviana, entendió? Pura, pura, pura, capaz até de ustê passar mal, costumado a mistura mexicana.
- Good, good, v-ou com vo-cê, right?
- Non, non, non, és mui peligroso, muchos gângsters, ustê entendió ahora? Gângsters!
- Good. How much money?
E pronto: descia Kaska a 28 de setembro com o bolso cheio de grana pra buscar com Maria Baleira um grama de pó, misturado com tudo o que é pó e que é branco, de talco a doril, cheio de marra:
- Quanto agora Kaska?
- Uma G, dona Mary, da boa!
- Quanto você tirou do gringo seu malandro?
- Coisa poca, dona Mary, peteca de 200, lá na tierra del´ non compra nem una carrera.
- Safado!
- Qualé dona Mary, bolso de otário és de boca pra baixo, nunca obiu dizer?
E deixava a velha sorrindo com os poucos dentes que restava, por detrás do tabuleiro onde vendia doces e chocolates. Bom negócio pra ela, freguês constante, vinha três ou quatro vezes por dia, não pedia fiado, não pechinchava o preço, cara conhecida, não despertava suspeitas.
Se esse mesmo, ou outro gringo queria uma mulher, Kaska não marcava bobeira:
- Meniña mi querido, adolescente, non te gustas? Peitito durito, bundón, non te gustas? Mujer también, si quieres, grande, gorda, magra., vieja, tu dices! Pero és mui caro, mucha plata, entendió? Mucha policía....
Tinha um quarto velho que ele alugava em caráter permanente, na Rua Chile, espelho, tv, cama de casal. Daí re-locava pros gringos a preço de pousada de luxo, devido ao ilegal da coisa, o risco. E descia Kaska atrás da Manuela, pra fechar o negócio:
- Qualé Manú, yo sé que ustê non és puta, yo sé. Pero ustê quiere ir pra Europa, non? Yo estoy te ajudando, ahora ustê me ajuda, correcto? É só foder com o gringo, dá-lhe uma foda bem gostosa e apaixona o gringo. Non leva fé em tu potencial?
- Qualé uma porra, Kaska, eu não sou puta não! Você sabe que meu sonho é casar na igreja, ir pra Europa com um loirão desses, mas e se o filho da puta resolve me escravizar do lado de lá? Eu já ouvi falar...
- Qui obiu falar nada Manú. És gringo, és otário, otarón, ustê entendió? Otarón, un Zé Boceta que nunca biu una xoxota vermeja qui nem a sua. Tu embuceta ele e vai pra Europa de primera classe, entendió ahora?
Comprou um andar em um sobrado no Santo Antônio, só nessa brincadeira. Vista pro mar, rede de Sergipe, máscaras do Senegal, móveis de vime, bar de angelim polido, com os melhores vinhos que seus amigos traziam de várias partes do mundo, como mostra de gratidão. Ali ele comia as gringas carentes doidas por cocaína, as gringas mais ou menos só de passagem, as nativas pretas, as morenas, as brancas, enquanto fumava haxixe marroquino e escutava Brahms e comia sushi.
Kaska investia também no lucrativo mercado das relações interraciais. As gringas vinham loucas por uma rola preta, os gringos vinham malucos por uma perereca vermelha. Por aqui, as meninas fascinadas no sonho do príncipe encantado, os caras, eram músicos, capoeiristas, percussionistas, miseravões em geral, duplamente alucinados, na adoração da mulher branca, e no sonho do dinheiro fácil no hemisfério norte. Muitos guardavam todos os centavos extras, moeda por moeda, e como no estouro de uma caderneta de poupança, procuravam Kaska, pra encaminhá-los no arriscado jogo da vida:
- Porra Kaska, esse é todo o meu dinheiro, velho, eu juntei esses anos todos, tá ligado? Me dê uma força mano, minha vida depende de você!
- Fique tranqilo hermanito, ustê estás com suerte, están chegando unas amigas holandesas. Está bién pra ustê? Holanda, Amsterdan, tierra da liberdad, da heroína. Pero depende de ustê, conquistar la mujer, hacê-la impressionada, está bién? Yo hazgo mi parte.
Então realizava pequenas festas íntimas em sua própria casa, despretensiosamente apresentava o cliente à holandesa-alvo e lhe dava quase sem querer, suas credenciais:
- Este és um querido amigo de muchos años, grán mestre de capoeira, músico de primera qualidad, sabe tudo sobre a Bahia, conhece a toda la gente, és muy amado, verdadera personagén de um libro de Jorge Amado, ustê precisa conhecê-lo!!
Vinho grego vem, haxixe marroquino vai, pôr do sol no terraço, já saíam de mãos dadas. O que mantinha a lucratividade do negócio, era esse mesmo sujeito voltar ao Pelô uns oito meses depois, de carro zero, distribuindo Malboro pros mais chegados, tênis Nike no pé, corrente de ouro no pescoço, passaporte com cidadania dupla no bolso, criança no carrinho, charlando de gatão. Brilhava o olho dos passa-fome que se escanteiam pelas ruas tortuosas e cheias de história e de estórias, e todos pensavam que podiam ser os próximos.
O sol se punha sob a baía de todos os santos. Na cruz caída, os casais se apaixonavam novamente, os bem-te-vis davam sua volta de despedida no ar poluído da hora de rush. Os carros engarrafavam a Ladeira da Montanha. Talvez uma febre leve escorresse no Pelourinho nessa hora. Não aquela febre convulsiva e nauseante dos anos pré-reforma, uma coisa leve, febre ainda, mas leve, sem ameaça de morte, somente de certeza de doença, alguma moléstia de infecção lenta e interna, que parecia queimar devagar as vísceras expostas daquela comunidade muito louca formada por estudantes, comerciantes, gringos, putas, traficantes, militantes, artistas, poetas, funcionários, lésbicas, homossexuais, simpatizantes, travestis, crentes, macumbeiros, católicos, espíritas, profetas, capoeiristas, trançadeiras, viciados em crack, políticos, vendedores de fitas do bonfim, bêbados, policiais, taxistas, caguetes, quase todos eles eram.
E foi na caguetagem que Kaska se atrapalhou. Andava por ali um novo delegado de proteção do turista, um sujeito muito truculento e dado a todas aquelas artimanhas policiais perniciosas, que mesmo os próprios policiais vêm tomando nojo. Arregueiro, torturador, estuprador, matador, aparência suína, sempre suado, coisa de pornochanchada. Buscava de todo jeito derrubar um traficantezinho de crack fuleiro, que no entanto, lhe dera uma verdadeira rasteira de capenga. Buscando proteção com policiais de outra delegacia, reusou sua proteção na cara-dura, no queixão, e mandou-lhe cuidar da sua vida. Óquei, não ia provocar um acidente diplomático com os colegas de outro distrito, mas vejam só: se deixasse por isso mesmo, ia virar comédia e qualquer vagabundo de terceira do Maciel iria querer tirá-lo como otário.
- Você vai me dar o cara, Kaska, você é meu amigo, sério, quantas vezes eu já te livrei de flagrante, seu escroto, já desandei gringo com hemorragia nasal das merdas que você vende...
- Non, non, non, you non bendo nada, entendió? Yo non bendo nada!!!Yo non soy su amigo, non mi conte sus problemas, correcto?
- Gringo filho da puta, eu te dou um flagrante de prostitução infantil e jogo sua cara no programa do Varela pra todo mundo ver, seu sacana, ainda boto nego pra comer sua bunda no xadrez....
- Non, non, non, yo non soy gigolô, adianto os lado dos amigos, que há? Pero nosotros podemos si conversar. O que ustê quer qui yo hazga?
- Nada de mais, meu amigo, me entregue o verme. Compre uma pedra na mão dele, e eu dou o flagrante, e o vagabundo vai pra minhas mãos.
Kaska pensou, acendeu um cigarro pra pensar melhor. Não era dedo-duro, mas estava sendo pressionado e sabia que o outro, no lugar dele, já teria fodido sua vida sem pestanejar. Não era moral, era sobrevivência. Além do quê, mais uns dias e o cara tava na rua de novo, vendendo suas pedras.
Desceu o Quebra-Bunda por volta das dez da noite do outro dia, sozinho. O alma- suja enquadrou logo na entrada.
- Pedra gringo? Eu pensei que você só gostava da boa, cuidado pra não desandar, viu?. Quanto quer?
Foi o sujeito tirar a parada do bolso, e o guardinha chegar enquadrando, naquela pressão de sessão da tarde:
-Polícia, polícia, deita, deita!!!
Kaska saiu fora. O cara lá com a cara colada no chão, tomando baculejo de dois, ele saiu fora. Quase na frente da Cruz do Pascoal ouviu os disparos, virou pra ver. O guardinha atirando no cara deitado, até o revólver parar de responder. O escroto pegou pesado, disse que ia só dar o flagrante, segurar por uns dias, dar umas porradas. Agora era cúmplice de assassinato. Foda-se, era só um sacizeiro, um ninguém. Ele era um sobrevivente, não tinha mais culpa do que qualquer um, que entrava no jogo sabendo dos riscos que corria. Foda-se, mas sua pressão baixou, e precisou sentar em um batente da escadaria do Passo pra a respiração voltar, o coração desacelerar. Policial escroto, porque tinha de envolvê-lo naquela merda?
Desceu pro Carmo, bebeu um conhaque. Cagüete. Assassino. Merda, nem sabia que tinha uma consciência pra pesar. Levantou chateado, mas melhor. Foi no moquifo da Rua Chile, tomou um banho frio e se jogou na cama. Dormiu pesado até as dez da manhã, assombrado por sonhos que não conseguia lembrar.
O dia era o mesmo de sempre: calor de derreter o juízo, picolé de amendoim, pernas, coxas grossas, sexo em tudo, barulho de carros, briga de guardadores de carros já bêbados. Sorriu pra a baía que se estendia desde a Praça Municipal até a ponta de Humaitá. Lá embaixo, o mesmo joguinho de matar e morrer e atrasar o lado de quem estiver mais próximo, nunca esteve tão cansado, perdeu até a fome e andou pro sobrado no Santo Antonio. A casa estava toda revirada, uma bagunça. Os móveis revirados, as garrafas de vinho espatifadas. Os Cd´s quebrados, os livros rasgados, o calor do dia de mormaço fazia-lhe transpirar como um louco dopado. Olhou na janela, a Baía lhe parecia uma vadia cínica, suja, doente, infecta, sorrindo, sorrindo, refletindo o sol em pedaços de diamante.
Caguete, um gringo filho da mãe, todo mundo viu, caguetou o menino e saiu andando na boa. Um sacizeiro, é verdade, mas o gringo filho da mãe...Cheio de dinheiro, comendo as mulheres mais gostosas, enchendo o chicote de dinheiro sem trabalhar, bebendo do bom e do melhor, na cara-dura. Acontece o que é bem normal por aqui, o sacizeiro tinha um irmão polícia, civil, da outra delegacia que tava lhe dando proteção. Parece que não era só questão de arrego. O guarda segurava o menino porque era seu sangue, dava pra cuidar, tomar conta, e quem sabe um dia, jogar numa clínica o irmão desandado, botar na igreja, dar esse gosto pra a mãe velha.
Pegaram Kaska todo bonito, com a mesma roupa velha que podia ser outra muito parecida, tomado banho, cheirando a alfazema, comprando cocaína na 28, na banca de Maria Baleira. A morte lhe pareceu o mesmo que uma baixa de pressão. Um frio tremendo, a dor da bala alojada na coluna, a outra logo perfurando seu pulmão. Deixado sangrar na rua suja de cocô de mendigo. Maria Baleira, nada viu nem ouviu.
Eu também não, mas ouvi dizer que o sobrado no Santo Antonio tinha sido invadido por um grupo de sem-tetos que estavam dando a maior dor de cabeça pra o IPAC e pro governo.

(Mandingo, 1o de Março 2008 (Ouvindo Peter Tosh, Erykah Badu, Felá Kuti, Curtis Mayfield, AllGreen e Miles Davis)